Quarta-feira, Julho 29, 2009

MARIBULÍCIO

Fernando Stratico

...........................1
.............................A CADEIA


(Célia está sentada atrás de uma escrivaninha simples e antiga)

CÉLIA:


Quando todos lessem minhas confissões, pensava eu, tomariam conhecimento sobre as nossas loucuras. Isto me preocupava um pouco, mas ao mesmo tempo, a idéia de conversar com o mundo me excitava. Tratava-se de um poder inigualável este de se comunicar com gente desconhecida.
Até mesmo eu, uma iletrada, descobri o valor das letras. Passei a escrever estas memórias como uma forma de entender melhor os acontecimentos. Confesso que me sinto, muitas vezes, aprisionada pela escrita; fechada em minhas narrativas. Mas é muito bom estar em meu casulo. A escrita me faz ordenar o mundo. Talvez me faça criar o mundo, assim ao meu próprio gosto.
Carlinda acompanha de perto este meu processo, que na verdade não é tão penoso assim. Carlinda lê tudo o que eu escrevo e faz comentários muito críticos. Acho que ela tem um certo fascínio por mim. Acho que ela também admira esta minha capacidade de adaptação. Os anfíbios não são muito adaptáveis. Eles têm aqueles problemas de especialização alimentar, sangue frio, habitat, coisas do gênero. Eu sou uma ratazana. Vivo em qualquer lugar e posso comer qualquer coisa, apenas para sobreviver. Carlinda é uma rã.
Carlinda acha que estas memórias ficariam muito tristes se eu incluísse a passagem em que fui presa. Para ela, o leitor tem que ser estimulado a uma aventura prazerosa sem fim. Uma passagem como esta, em que fiquei encarcerada, abaixaria muito o ânimo dos outros capítulos. E como Carlinda é minha leitora preferida, confesso que ainda estou em dúvida. Continuo ouvindo sempre os conselhos da rãzinha, embora eu saiba que não passam de loucura. Confesso que este deveria ser o último capítulo; mas, em um sonho, foi me sugerida esta mudança, não por Calinda, mas por um editor; de modo que o último capítulo agora está em primeiro lugar. Mas não me importo se alguém quiser deixá-lo para depois.
Cida, Irma e eu nos encontramos bem menos agora, uma vez que Gertrudes faleceu. Sim, Gertrudes teve que desaparecer, só que, desta vez, para sempre. Talvez isto tenha a ver com o fato de eu ter sido pega pela polícia. Ela não podia fazer outra coisa a não ser ir para bem longe. Caso contrário, teriam trancafiado a nós duas. É graças a Gertrudes que tenho mais este episódio para contar.
Depois que Gertrudes se foi, cada uma de nós inventou uma coisa para fazer. Cida dedica-se desesperadamente a suas pinturas e também à Internet. Ela fez – juntamente com outros velhinhos - uma exposição de quadros no hall de um pequeno shopping aqui perto. Vendeu três obras, e fez várias amizades. São sempre aquelas paisagens que de paisagens não têm absolutamente nada. Nunca mais ela mencionou o nome do Alípio. Evaporou os sentimentos de uma vez. Às vezes tenho vontade de provocá-la. Outro dia eu o vi, de carro com uma mulher bem jovem.
Irma, por sua vez, passou a namorar. Novamente, um jardineiro. Um rapagão de uns vinte e dois anos. Ela o trata como a um neto. O menino é afoito por sexo e por dinheiro. De modo que Irma o compra por bem pouco. Irma tem plena consciência. É o antigo jogo do amor. E o que faria um garotão se interessar por uma senhora de quase setenta anos? Os lindos olhos? A boca carnuda? Com certeza, não é. Da minha parte, acho isto tudo muito perigoso. Sempre vemos crimes nos jornais. Velhas assassinadas por tão pouco. Para esta gente, somos milionárias, e qualquer quantia para eles é uma fortuna. Por isso, Irma fez questão de se envolver também com a família do rapaz. Com isso, fica difícil para o rapaz tentar qualquer maldade contra ela. Mesmo assim, o risco continua, porque estes rapazes são desmiolados. Nem preciso dizer que Irma está radiante de felicidade com este namorado. Para ela a vida ganha um novo sentido. Porém, parece-me que o rapaz nasceu para ser jardineiro e andar com a cara suja de lama. Não quer saber de estudar, não demonstra um pingo de vontade. Acredito que lhe faltam neurônios, e isso não é culpa dele. Pois o que faltava em neurônio, sobra em libido e voracidade. Irma se delicia com isso.
Estive presa em uma cadeia. E sem Gertrudes, o mundo parece que parou.
Para passar o tempo escrevi. Escrevi para não me perder de vista. Escrevi para no morrir. Escrevi para me manter viva! E assim por diante... coisas que os escritores dizem.
Todos devem se perguntar: “Mas não era a Gertrudes quem devia ser presa?” Até me passou pela cabeça que tudo fosse uma armação de minha amiga contra a minha pessoa. Mas não era. A polícia resolveu pegar a mim - ingênua dona de casa. Assim, de senhora recatada e religiosa passei a ser uma presidiária. Algo indescritível! Uma experiência e tanto sob o ponto de vista literário. Talvez Gertrudes tivesse planejado isso.
Passei dois meses em uma cela com outras detentas. Mulheres simpáticas - várias delas eram mães. Algumas eram realmente estranhas, mas não me fizeram nenhuma maldade. Fui presa de repente. Presa na rua quando estava chegando em casa. Felizmente nenhum conhecido me viu. Gertrudes, nesta hora, estava descansando tranqüilamente entre os anjos e querubins. Fui levada sem nenhuma explicação. Levada e trancafiada imediatamente. Pelo jeito, achavam que eu era a própria estelionatária, a caloteira. Por pouco eu não contei a verdade, dizendo que não se preocupassem que eu os levaria até a verdadeira bandida, no cemitério. Mas obviamente, não delatei minha melhor amiga. Mesmo morta, ela não merecia isto.
Uma vez jogada na prisão o que mais me chamou a atenção não foram as detentas, mulheres apagadas, rostos ásperos, olhos tristes... Não foi. Foi sim o cenário.
Talvez eu devesse começar meu relato pelo ambiente, só isto já daria um romance. O espaço era muitíssimo pequeno e sempre estávamos nos esbarrando uma na outra. Em um cantinho estava o banheiro. Uma cortina de plástico criava uma certa privacidade em torno do vaso sanitário, mas era apenas uma idéia de privacidade. É incrível como me acostumei ao banho frio, ao cheiro de urina, de suor e de fezes. As paredes escuras eram rabiscadas com nomes e declarações de amor. Dois corações desenhados continham Rita e Romualdo, Ângela e Denílson – aquilo, de certo modo, me encantava. Até uma oração foi escrita com letras de forma, encravadas no cimento: “Deus é o meu pastor, nada me faltará.” Fotos de revistas coladas nas paredes. John Travolta, Elvis Presley, eternamente jovens em imagens arranhadas. As paredes eram palimpsestos antigos com imagens de santos e de demônios, rabiscos pré-históricos e palavras soltas. Eu imaginava quantas pessoas não haviam passado por ali. Quanto não havia sido gravado naquelas paredes! Choros e lamentações. Acho que até sangue tinha. Os beliches eram de cimento. Quatro beliches para quatorze mulheres. Algumas dormiam no chão, obviamente, em colchões finos colocados sobre grandes pedaços de papelão. Algumas preferiam dormir em duas na caminha apertada.
Logo que cheguei, já haviam decidido que eu dormiria com Genoveva, a menorzinha de todas – ruiva, olhos verdes amarelados, dentes grandes, pele vermelha e áspera. Esta havia matado o marido com veneno de rato e pó de vidro. Disseram-me que, todos os dias, colocava a poção formicida no almoço do esposo. Nem é necessário dizer que matou por vingança e ciúme.
Quando fui posta nesta cela, achei que não fosse viver por mais de um dia. Eu morreria assassinada por elas, pensei; ou morreria de angústia por estar confinada no meio daquelas feras. Logo que cheguei, não me perguntaram nada, nem meu nome, nada. Fiquei horas em silêncio, sentada na cama que me fora indicada, que, por sorte, não era no segundo andar do beliche. Ali fiquei como uma estátua, olhando para o vazio, para fora das grades ou para as paredes rabiscadas. Fiquei lendo as paredes como quem lê um romance policial. Fazia de tudo para não cruzar meu olhar com o olhar de nenhuma delas. Por sua vez, elas também me ignoravam, como se eu não estivesse ali, ou como se fosse a coisa mais normal do mundo receber novas detentas. Ao meu lado, uma moça passava esmalte nas unhas de outra, mais velha e mais acabada. A moça dizia:
___Só pode ser vidrinho de plástico, senão não pode trazer pra grade. Desde que a Suzana cortou o rosto da outra com um caco, foi proibido. Agora quem toma é todo mundo. Por causa de uma vadia... Ainda bem que está na outra grade. Se eu estivesse junta eu matava aquela piranha!
Delicadamente, a moça passava grossas camadas de esmalte vinho nas unhas da mulher. Vi, naquele momento, que mesmo num inferno como aquele, elas ainda tinham vaidade. Havia duas ou três outras celas tão repletas de criminosas como a que eu ficara. O vozerio era imenso. Várias vezes ao dia, elas conversavam entre as celas, em uma segunda língua que eu não entendia. Eram gírias do submundo. Felizmente, a conversa entre as duas eu podia entender. Este ainda era o mundo que eu conhecia:
___Se quiser posso tingir seu cabelo. – Disse a moça, enquanto esmaltava.
___Vou reservar aquele tubo por mais um pouco. Ninguém vem me ver...
___De repente, ele aparece e você vai estar com o cabelo desgrenhado e branco.
___Foda-se! Ele não merece.
Meus filhos nunca ficaram sabendo que estive presa. Esta é a vantagem de nunca telefonarem para saber se você está viva ou morta. Minha irmã tratou de inventar uma viagem que fiz a uma suposta colônia de férias. Minhas vizinhas também acharam que eu estivesse viajando. Somente Cida e Irma ficaram sabendo de minha prisão. A polícia me acusava de coisas que Gertrudes havia feito. Muitas coisas que eu nunca ouvira falar. Na verdade, as coisas que realmente fiz com Gertrudes nunca foram mencionadas. Pelo que meu advogado disse, não havia provas contra mim. Não fiquei desesperada porque sabia que hora ou outra eu seria solta. Carlinda, a rãzinha, havia me tranqüilizado, e não me deixava um só minuto. Ela me dizia que era para eu ter paciência que logo seria solta. Chegou a dizer que eu ficaria apenas umas poucas semanas. Mas não foram poucas semanas. O que fiz foi me dedicar à escrita durante o tempo todo, passando-me por louca. Sim, porque quem escreve dia e noite só pode ser uma doida. Minha distração era ouvir Carlinda, e de vez em quando conversar com uma das detentas.
Cleuza havia matado o sogro e o marido. Era uma mulata muito sorridente, com os olhos grandes esbugalhados. Não parecia ser má, embora fosse bastante corpulenta e amedrontadora. Ela era muito curiosa a meu respeito, e vivia fazendo perguntas. Queria saber o quê eu escrevia tão obstinadamente. Expliquei que era um relatório para a polícia. Ela não entendeu muito bem. Cheguei a ficar com medo daquela mulher. Mas acho que todas me viam como uma espécie de avó adotiva, embora eu não falasse muito e não fizesse nada. A maior parte do tempo, eu procurava ficar invisível. Um dia roubaram um de meus cadernos, provavelmente quando eu estava dormindo. Vi, depois, no cesto do vaso sanitário, que o haviam utilizado como papel higiênico. Depois de muito pensar e conversar com Carlinda, cheguei à conclusão de que quem roubou o caderno devia ser analfabeta, e o fez por um despeito muito grande. Assim, resolvi perdoar, e imediatamente passei a reescrever aquele capítulo. Acredito que a maioria delas fosse analfabeta ou semi-analfabeta. Ou seja, eu era muito diferente de todas. Acho até que elas tinham medo de mim, principalmente quando me viam conversando com Carlinda. Por mais que eu disfarçasse, às vezes, dava uma resposta para Carlinda, o que era estranhíssimo para elas – afinal eu conversava com o vazio. No mínimo elas achavam que eu era um pouco desequilibrada, e, com isso, ficavam temerosas de que eu pudesse agredi-las. Todas deviam saber que as pessoas enlouquecidas são muito mais destemidas e mais fortes do que os piores assassinos. Quando percebi que elas me achavam louca, resolvi alimentar esta idéia, com pequenas coisas. Isto as fez não me importunarem e não se aproximarem dos meus escritos. Quando elas brigavam, inclusive com unhas e dentes, faziam de tudo para não se esbarrarem em mim, e até pediam desculpas quando isto acontecia.
Cheguei a pensar que nunca mais eu fosse sair dali. Por isso aumentei minha sinceridade ao contar os fatos aqui descritos. Já que não sairia mais daquele covil nojento pensava em contar todos os detalhes de minhas aventuras ao lado de Gertrudes. Mas a esperança sempre voltava, e eu sempre reservava uma ou outra história comprometedora. Cheguei também a odiar Gertrudes por eu ter sido presa e confinada numa cela com mulheres assassinas. Durante vários dias, eu tive um ódio mortal por Gertrudes, e não fazia outra coisa a não ser detestá-la em pensamento, e me arrepender de todos os momentos em que estive com ela. Como me arrependi de ter aberto a porta para aquela vendedora de filtros de água! Posteriormente, meu ódio foi amainado e passei a culpar a mim mesma, por ser tão ingênua. Se fosse mais atenta, poderia ter escapado, poderia ter fugido para longe. Mas eu não tinha vocação para ser bandida foragida da justiça. Eu não era como Gertrudes. Com certeza, Gertrudes devia estar dando risadas de mim. Tantas falcatruas e nenhuma noite na cadeia. Por tão pouco eu pagava tanto! Ainda bem que eu não era uma analfabeta e sabia escrever. Estava salva pela escrita. Nesta escrita eu mergulhava loucamente, sem querer olhar para o inferno de roupas íntimas penduradas em varais. Sem olhar para as caras das assassinas que me rodeavam como hienas vorazes. Eu fugia do medo. Nunca eu poderia imaginar o inferno que era estar numa cela com tantas pessoas, sem nada para fazer durante o dia todo. Longos períodos de silêncio. Longos períodos de sono. Longas discussões e lutas corporais. Longas noites de gemidos de sexo entre elas, longas sessões de choro. A maioria se entupia de maconha e somente olhava o vazio por trás das grades.
Duas vezes por semana Irma e Cida vinham me visitar. Eu era sempre levada para uma sala pequena e suja, onde podíamos conversar por alguns minutos. Mas eu preferia que elas não viessem, pois choravam muito ao me verem ali. E, de fato, as condições do lugar eram muito deprimentes. A cada visita, eu também ficava triste, porque elas me faziam lembrar sobre onde eu estava e em que situação eu havia me metido.
De vez em quando eu tirava o dia para ouvir histórias. Foi assim que Cleuza me contou como e por que matou o marido e o sogro. As histórias eram muitas, e também as tristezas. Filhos deixados para trás, namorados, esposos... Sentia que ouvir suas histórias as confortava também. Por outro lado, elas se sentiam orgulhosas de suas façanhas, por mais horrendas que fossem. Somente uma ou outra demonstrava arrependimento. A maioria se orgulhava de seus crimes. Acho que até eu mesma também tinha um certo orgulho do que havia feito, e, de fato, não tinha aquele arrependimento devido.
Um dia, uma delas, chamada Sofia, insistiu para que eu lesse o que estava escrevendo. Sentada aos meus pés, pedia, insistentemente, que eu lesse pelo menos um trecho do que tanto escrevia. Concordei em ler, e ao começar a leitura, todas fizeram silêncio e se entregaram em ouvir. Ao terminar, a leitura do que devia ser uma página, Sofia insistiu para que eu continuasse lendo um pouco mais. Assim eu fiz. Nenhuma delas interrompeu; todas pareciam estar curiosas em ouvir, ou em ler com os ouvidos. Fiquei um pouco emocionada naquele momento, pois percebia que todas estavam realmente interessadas naquilo que eu tinha para contar. Assim, li um pouco mais além da conta, e quando parei, ouvi uma voz:
___Nossa, mas isso aconteceu mesmo?
E outra:
___E onde está esta Gertrudes?
Expliquei que tudo era real, e que Gertrudes havia morrido num acidente. Sofia novamente insistiu, tendo a magnífica idéia de que eu lesse a história inteira, desde seu princípio. Assim, passei a ler este maribulício desde seu começo. Cada dia eu lia um longo trecho, e em seguida respondia a perguntas e também ouvia comentários. Até as mais duronas e brutas ouviam atentamente, parte por parte, a história, embora disfarçassem seu interesse. Todas liam através da minha leitura e eu achava aquilo um milagre. Por um momento, durante o dia, todas eram levadas pela imaginação para além de si mesmas. Acho até que, no momento da leitura, elas se esqueciam de que estavam presas, e estarem juntas ali não era tão mal assim. Todas pareciam um bando de crianças da pré-escola, ávidas por histórias fantásticas. Da minha parte, eu me sentia realizada em poder compartilhar uma história pessoal. Sentia que eu oferecia algo que ninguém mais podia dar. E elas se sentiam gratas por isso. Minha leitura chegava a acalmar as desavenças, a aplacar a fúria de muitas delas, pois quando chegava a hora de ler, tudo era suspenso, tudo era interrompido. É bem verdade que, em muitas ocasiões, após a leitura, contendas diversas se instalaram em função do trecho lido. Isto acontecia quando falavam sobre uma ou outra personagem, ou quando alguém criticava algum acontecimento, ou ainda quando alguém dizia que já havia feito algo parecido. Digamos que aquilo era um debate literário com tapas e socos. A verdade é que a maioria das meninas me tinha em alta conta. Eu era uma espécie de oráculo, de sábio do castelo, ou simplesmente uma mãe a contar histórias para os filhos. Acho que minha leitura era um gesto de carinho para elas, embora eu própria não tivesse esta intenção. Como a voz da mãe que se ouve no escuro da noite, elas me ouviam. O que mais as atraía para a história era a veracidade dos fatos e também o fato de contar a história de uma bandida. Não creio que haveria o mesmo interesse se fosse apenas uma história de amor. Havia ali um retrato, uma identificação, embora o refinamento de Gertrudes estivesse a léguas de distância do que eram aquelas criminosas. Tive receio até, pois percebia que algumas descobriam na história outras técnicas e possibilidades de crimes. Eu não sabia realmente se estava ensinando coisas boas, ou o que não devia. De qualquer maneira, todas estavam presas e impedidas, pelo menos em parte, de burlar a lei.
Gina, a manda-chuva do grupo, até deixava seu celular de lado para me ouvir. Quando li a passagem sobre o chá de raízes, ela interrompeu a leitura para contar suas experiências alucinógenas na Colômbia. Gina sempre repetia que nunca havia matado ninguém. O negócio dela era “bagulho”, como dizia. Comercializava drogas de todos os tipos. Por meio do celular, velho e ensebado, comandava o tráfico, fazendo contatos, oferecendo a mercadoria... Era uma gerente comercial perfeita. Pois até a Gina machona parava os olhos no ar quando eu lia. Ficava hipnotizada, e era sempre ríspida ao ordenar silêncio. Volta e meia, Gina fazia comentários e eu tinha até receio de que ela quisesse interferir na minha escrita, que quisesse alterar a história. Felizmente, eram apenas comentários, reflexões críticas, digamos. Na verdade Gina estava mais interessada nas partes mais singelas do texto. Cheguei a ver lágrimas em seus olhos quando ouvia a leitura.
Quando Carlinda surgiu na história, senti que houve um desconforto entre a maioria, porque elas se deram conta de que Carlinda poderia estar ali, observando-as. Também se deram conta de que eu era capaz de ver um outro lado das coisas, um lado povoado de fantasmas e seres fantásticos. Se bem que não via o Guardião desde sua última aparição, quando tinha sido...? Ninguém ousou me perguntar sobre onde estava Carlinda, ou se eu a via naquele momento. Acho que houve um temor generalizado. Todas haviam constatado que eu tinha uma certa loucura velada, e que era verdade a impressão primeira que tiveram a meu respeito: eu era de fato maluca.
A leitura de minhas histórias instigou nelas o desejo ancestral de contar. Cada uma, a seu tempo, começou também a introduzir algumas narrativas pessoais. Histórias de crimes, paixões, loucuras... Mas nem todas tinham habilidade para contar suas histórias. Algumas permaneciam caladas, guardando somente para si os fatos cruéis e doces, açucarados, ou amargos. Estas tinham medo de tocar no passado, ou de começar a desenrolar aquele novelo tão emaranhado. A maioria, por outro lado, queria me imitar, contando, do mesmo modo, fatos interessantes reais e também irreais. Vi naquilo uma euforia ancestral, de seres pré-históricos sentados em volta de uma fogueira, relatando momentos da caça, o confronto com as grandes feras, as reviravoltas da natureza implacável... A mesma euforia de famílias pequenas sentadas ao redor de grossas mesas de tábuas, contando casos de assombrações de arrepiar os cabelos. Avôs e avós com suas histórias fantásticas do tempo do império, quando carruagens andavam pelas ruas. Isto fortalecia tanto os pequenos como os grandes, tanto os santos como os pecadores. Constatei ali, naquele escuro limbo, que ninguém conseguiria sobreviver sem contar alguma coisa.
Graça, uma negra de uns quarenta e cinco anos, sabia que era sua vez de contar. Tragou fundo o cigarrinho de maconha, prendeu a respiração; segurou a fumaça dentro dos pulmões até não poder mais; então soltou a voz como uma bomba de ar comprimido:
___Faz muito tempo. Eu ainda era pequena. Minha mãe lavava roupa no riozinho que passava perto de casa. Era uma tábua de roupa. Naquele tempo não tinha tanque. Era uma tábua bem branquinha. Ela lavava roupa e eu enxaguava na bacia grande de alumínio. A água era limpa que se via o fundo. Dava pra beber também, mas a gente bebia a água do poço que ficava mais acima, do outro lado da casa. Foi então que eu vi, uma cobra amarela, vindo pela água, a cabeça e o corpo pra fora. Ela veio nadando depressa, como se soubesse onde queria ir, e o que queria fazer. E veio nadando direto na minha direção. E parou na minha frente e ficou me olhando com aqueles olhos de cobra, e a língua saía pra fora, como se fosse satanás. Na hora eu não conseguia fazer nada. Fiquei estatelada de medo, e parecia que a cobra tinha me hipnotizado. Eu não conseguia me mexer, e também não conseguia gritar. Eu sabia que ela ia me morder e que eu ia morrer naquela hora. Estava certa de que tinha chegado a minha hora. Embora eu fosse criança eu sabia que ia morrer. Ela vinha com uma missão na cabeça. Parecia ser mandada por alguma coisa do inferno pra acabar comigo. Ela não queria morder mais ninguém naquela hora, nem minha mãe, nem nenhum bicho do mato, nem mais ninguém - era somente eu que ela queria. Então fiquei olhando pra ela, enquanto entendi tudo isso. Sem poder me mover porque eu estava gelada por dentro. Minha boca não me obedecia, nem meus braços ou minhas pernas. Eu pensava que minha mãe devia ver a cobra, pois ela era grande e estava tão perto de nós duas. Mas minha mãe não via nada, e só continuava a esfregar a roupa. De um salto, a cobra pulou no meu rosto. Senti, então aquela mordida ardida no queixo. E no que ela me mordeu, tudo se apagou. Fiquei desacordada por dois dias, e acho que morri.”
Graça sabia reviver cada detalhe de sua história. E não com muito esforço eu via também a mim mesma no meio do pasto, buscando água da mina, com medo das vacas, e com pavor de cobras. Graça contava e ao mesmo tempo me fazia lembrar de coisas muito remotas da minha própria infância. Talvez fosse a fumaça da maconha a realçar todas as cores e formas, e também a me fazer mergulhar em lembranças que nem eram minhas. Mas de fato, eu via. Via e também escrevia - a mãe de Graça dando-a como morta, e dizendo que já tinha desistido que Graça vivesse; a cobra esperta fugindo assim que deu o bote; mergulhando na água - ninguém sabia, portanto, nem que tipo de cobra que era, e pelo jeito, era uma cobra muito estranha que ninguém tinha nunca visto por ali. Vi as benzedeiras, vi todo tipo de gente da roça, tentando curar a Graça menina. Mas naquele lugar tão longe do mundo não havia médico, nem enfermeiro que fosse para aplicar uma injeção. O povo então rezava, e só então me dei conta de como a casa estava cheia. Muita gente chorava, já se conformando com a morte de Graça. Outros saíram pelo mato pra encontrar a danada, que estava foragida. Os homens mais valentes diziam que iam trazer a cobra mortinha, como vingança. Mas não encontraram nada, pois aquela não era uma cobra deste mundo. Eu mesma sabia que ela não era deste mundo. Era o próprio diabo! dizia Graça. Ninguém sabia porque ninguém tinha visto ela como Graça viu. E ninguém tinha conversado com Nossa Senhora como Graça conversou. Nunca ninguém ia encontrar a cobra amarela, como de fato nunca encontraram. Mas naqueles dois dias que Graça ficou como morta, Nossa Senhora apareceu e explicou que não era ainda sua hora, porque ela era uma criança muito pequena e merecia crescer. E que a cobra, de fato, queria ver o seu fim, pois era muito cheia de maldade, e não queria que ninguém de bom coração vivesse. Nossa Senhora disse que Graça acordaria depois de dois dias; e isto porque muita gente naquela casa estava cheia de fé. Nossa Senhora apareceu voando e brilhava como se fosse um reflexo do sol no espelho, quase não dava pra olhar de tanta luz. Debaixo dos pés ela estava pisando uma cobra também, mas que não era amarela, era acinzentada. A cobra se contorcia debaixo dos pés de Nossa Senhora, numa agonia que não terminava nunca.
De fato, acho que eu estava alucinada com aquela fumaça de maconha penetrando até em meus ouvidos. Ou eu estava hipnotizada por Graça, a contadora de histórias.
Vi então Nossa Senhora pegando Graças nos braços. Ela era muito alta, tão alta como uma árvore. Graça não conseguia mexer o corpo. Só os olhos que ela revirava e via aquele jardim cheio de rosas. Tinha rosas de todo tipo. Rosas grandes e rosas pequenas. Rosas vermelhas e rosas amarelas. No meio do jardim havia uma casa de cupim. Um cupinzeiro bem alto, e ele se parecia com a figura de um homem. Era tão grande quanto o tamanho de um homem. E tinha também uma cara e um jeito de homem mau.
Neste momento todas as ouvintes ficaram pálidas. O homem cupinzeiro da história parecia apavorá-las mais do que a própria serpente. Estavam geladas de medo, e Graça sabia como amedrontá-las ainda mais. Pobres presidiárias com medo do homem-cupim! Todas pareciam já ter enfrentado o tal homem em alguma rua escura, em algum beco, em alguma cama imunda.
Graça continuou com sua história, com a mesma calma assustadora:
___Nossa Senhora me fez olhar para o cupinzeiro, mas não disse nada. Eu perguntava pra mim mesmo e também pra ela, o que estava fazendo o cupinzeiro gigante no meio daquele jardim tão formoso. Mas ela não me ouvia, ou não me respondia de propósito. Ela também olhava pro homem-cupim, como quem sabe de tudo o que se passa. Afinal aquele era o jardim de Nossa Senhora. Ela sabia de tudo o que acontecia por ali. E foi então que o homem-cupim começou a se mexer, a se mexer devagar. E sua cara ficou ainda mais feia. Seu braço ficou ainda maior. Os dedos compridos queriam pegar. Daquele jeito desajeitado começou a andar na nossa direção. Nossa Senhora não se mexeu, e não ficou incomodada. Ela sabia muito bem quem era o homem-cupim. Ao andar pra nosso lado, o cupinzeiro foi ficando mais feio, e mais com cara de monstro. Mas conforme foi ficando perto, o homem cupim se desfez. Derreteu e virou um enxame de muitos cupins. Os bichinhos doidos se espalharam em toda direção. Estavam loucos de raiva por causa de Nossa Senhora e de sua luz. E queriam comer todas as rosas do jardim.”
Percebi que Jaqueline se mexia no seu cantinho de cela. Parecia sentir os cupins andando embaixo de suas roupas. Coçava-se discretamente. E pedi a Deus que realmente fossem cupins fantasmagóricos e não pulgas. Graça não parecia satisfeita com o terror que estava causando. Queria apavorar mais. Da minha parte eu já estava desesperada e queria que a história já tivesse um fim. Não queria pensar em pulgas e carrapatos e muito menos em cobras apavoradoras. Mesmo assim, eu anotava cada frase e cada palavra saída daquele turbilhão:
___Mas a luz que saía de Nossa Senhora era como um lampião no meio do mato. Aquilo esquentava e matava todo cupim com o clarão. Assim, todos fugiram apavorados e o homem-cupim parou, desapareceu. Nossa Senhora tinha espantado o mal que havia naquele jardim, eu pensei. E comigo nos braços ainda, ela voou pra bem longe. E me pôs de volta na cama, bem devagarinho. Mas o homem cupim levantou vindo do nada. Ele estava ainda mais feio. Era um monstrengo horrível que até Nossa Senhora se arrepiava em ver. E o homem-cupim tava com fome e queria me devorar. Pra Nossa Senhora ele dizia:
___Queremos a garotinha. Queremos dela comer.
___A garotinha não pode, cupim monstruoso! É uma garotinha de Deus!
___Estamos com fome, Nossa Senhora. Dai-nos de comer.
___A monstro de cumpinzeiro eu não dou nada, não. Sai pra lá homem-cupim!
Nossa Senhora estava brava. Deu de dedo no cupim. Mas o cupim não desistia. Queria porque queria me comer inteirinha, até os ossos ele queria. Nessa hora eu vi que mesmo Nossa Senhora não sabia o que fazer. Ela olhava desesperada, e a luz dela piscava, assim como quem tá pensando. Da minha parte, fiquei encolhidinha, tão encolhida que parecia um grão de areia.
___Coma esta cobra, cupim. Coma e vá embora para o lugar de que saiu.
O cupinzeiro não vacilou um instante. E num segundo comeu a cobra que Nossa Senhora pisava. Devorou até os ossos. Dela nada sobrou. E no que comeu, ficou saciado, e então na terra ele entrou. Depois de dois dias, pra surpresa de todo mundo, eu acordei e pedi pra comer arroz e feijão. Foi uma alegria só. Muitos saíram gritando e chamando os outros porque era como se eu tivesse ressuscitado. Então todos voltaram e agradeciam a Deus ajoelhando-se. As benzedeiras até choravam de alegria, e achavam que era tudo por conta da reza delas. Nossa Senhora, com certeza tinha ouvido aquela ladainha e me curado lá nas alturas. Depois disso, eu cresci, e até hoje ainda tenho pavor da cor amarela. Infelizmente, no meu sangue ficou o veneno da cobra, e foi este veneno que me fez ir pro crime e pras drogas.”
De acordo com Graça, ela havia se salvado, mas o diabo lhe contaminara as veias, e por isso ela agia de forma violenta. E por causa do pavor da cor amarela, havia assassinado uma amiga. Este era o veneno da serpente sedutora, que desde Adão e Eva vinha contaminando a humanidade. Uma pobre serpente amarela fadada a morrer muitas vezes durante a eternidade. Ouvi, então, a voz suave de Gertrudes me dizendo: “você não devia ter mexido com cobras!” Assim, senti um profundo arrependimento ao ouvir a história de Graça. Arrependi-me de ter provocado aquelas narrativas assustadoras. Gertrudes tinha razão em não prestar muito a atenção aos detalhes da vida. Aqueles detalhes da história de Graça me fizeram chorar uma noite inteira. Senti que estávamos todas perdidas, abandonadas pela sorte, e não éramos as únicas. Lá fora, as coisas ruíam do mesmo modo, e aquela humanidade perfeita que eu imaginava, simplesmente não existia. Acho que senti a crueza que Gertrudes sentia, que resultava numa simples pergunta: por que ser boa? Talvez fosse assim que ela visse o mundo ao redor – um emaranhado de maldades. Naquela noite tive uma crise de piedade, e por isso chorei muito. A pena que senti de Graça foi incomensurável.
Felizmente, nem tudo eram histórias na prisão. Havia não somente literatura naquele micro-cosmo, mas também música. Havia uma jovem que cantava.
Etelvina não devia ter trinta e cinco anos. Era morena, pele muito bonita, olhos castanhos amendoados, boca enorme, dentes perfeitos, pequena estatura, e um pouco além do peso normal. Era tímida, e falava muito pouco, mas cantava divinamente. Disseram-me que era traficante, mas ela mesma preferiu nunca tocar no assunto, ou contar qualquer coisa de sua vida. Queria apenas cantar, e de certo modo, suplicava que todos lhe permitissem que cantasse, pelo menos um pouco durante o dia. Às vezes Etelvina era interrompida bruscamente. Era quando alguém estava de mau humor e não queria música nenhuma. Neste caso, ela era obrigada a fazer silêncio, e assim fazia, de maneira submissa. Geralmente cantava, após o café da manhã, enquanto a maioria estava lavando roupa, ou fazendo alguma arrumação na cela. Enquanto ela própria esfregava suas peças íntimas, cantava com uma voz dos deuses. Cantava músicas de Carmem Miranda, Dalva de Oliveira, Aracy de Almeida, Orlando Silva... Sabia tudo. Dizia ela que havia aprendido com a mãe, e com os discos de sua avó. Muitas vezes até brigavam por causa de uma música solicitada. Digamos que havia confusão quando os gostos se dividiam. Aquela voz afinadíssima cobria todas nós como uma luz singela. A voz de Etelvina parecia desinfetar o ambiente. Tudo ficava puro e límpido quando ela cantava. Quando cantava canções do Roberto então havia lágrimas românticas caindo pelas faces. Eu mesma não conseguia entender o quê uma cantora tão talentosa como Etelvina fazia ali. Ou por que havia se metido com drogas? Que desperdício! Se eu chorava era por esse motivo. Nessas horas alguém sempre insistia em dizer:
___Quando ela sair, vai deixar o tráfico e virar cantora profissional.
Como eu queria que isto acontecesse, ou que, pelo menos, aquela voz não fosse sufocada! Era um milagre que ainda existisse, límpida, cristalina. Etelvina parecia saber quando podia cantar, e quando devia manter absoluto silêncio. Passava dias, às vezes, sem sussurrar nenhuma canção. Eu sabia que ela cantava em pensamento. Sentada parecia também ouvir vozes celestiais cantando em coro as músicas dos homens. Talvez se estivesse fora da cadeia, esquecesse todas as músicas, e cantar já não fosse necessário. Assim como eu escrevia, ela cantava... para não morrer à míngua, para não sufocar entre as quatro paredes eu escrevia, ela cantava. Talvez, de todas as presidiárias nós duas fôssemos as mais fracas. Nós precisávamos de um refúgio, uma canoa salva-vidas. Recostada na parede, os joelhos junto ao peito, Etelvina cantava em pensamento, provavelmente sonhando com uma platéia de fãs. Quando a atmosfera mudava, sua voz saía, e penetrava cada milímetro do espaço; varria a feiúra não só das paredes, mas também dos rostos.
Um dia a carcereira colocou no corredor das celas um pequeno rádio ligado. Ninguém podia ter aparelhos eletrodomésticos dentro das celas, pois estes eram uma arma em potencial. Por piedade, ou por razão desconhecida, a carcereira contemplou a todos com o som agudo de uma estação qualquer, cujos ruídos se misturavam a sambas, pagodes e música sertaneja. Etelvina ouvia, atentamente, e parecia gravar tudo, mas com esta presença eletrônica em nossas vidas, quase vinte e quatro horas por dia, Etelvina, a cantora, parou de cantar. Ela própria dizia:
___Tem o rádio! Pra quê?
Não eram poucas as recomendações de silêncio:
___Desliga esta porra aí!
A carcereira desligava, ouviam-se os ratos, as baratas... mas logo o rádio era ligado novamente. E assim, seguia a rotina detestável de um rádio em constante funcionamento. De certo modo, era bom o contato com o mundo exterior. O rádio nos trazia notícias e também a vida de fora da cadeia. Seria ótimo se houvesse uma televisão também, para as novelas e noticiários.
Um dia o rádio parou. Por algum motivo não se ouvia o chiado costumeiro da manhã, e a voz do locutor histérico com seu discurso matinal. Por algum motivo estava mudo, e o corredor ecoava cada gesto dentro das celas. O mundo da prisão parecia surgir novamente. Roncos e respirações ofegantes, grunhidos, som de água escorrendo... Foi então que ouvimos a voz de Etelvina novamente. Cantou “A Estrela Dalva”, abençoada canção! Cantou como nunca, enquanto lavava suas calcinhas. O som da água e da espuma fazia o acompanhamento. Nosso silêncio era pura emoção e aplauso. Finalmente, podíamos receber aquela luz matinal transformada em som. Era nosso banho de sol, nossa chuva e estrelas. Enquanto ouvíamos sentíamos no íntimo um pavor terrível de imaginar o rádio sendo ligado novamente, matando de vez aquele momento tão singelo. Pelo menos, em mim aquele pavor existia. Mas foi então que Etelvina começou a ter um ataque epiléptico. Caiu tendo convulsões desesperadas. Algumas tentavam ampará-la, segurando-a para que não se machucasse. Os olhos revirados, o rosto totalmente deformado... Se eu não soubesse o que era, pensaria ser uma possessão demoníaca. Uma das meninas pôs um lenço dobrado entre seus dentes. Ela mordia ferozmente. Puseram-na deitada de lado, mas seu corpo parecia uma pipoca na panela. Acho que tudo não durou mais de três minutos, mas pareceu ser uma eternidade. Em seguida, ela voltou a si, mas estava muito fraca. No mesmo dia foi levada pelas policiais e nunca mais voltou, nem para pegar suas coisas. Nunca soubemos o que aconteceu com ela. Ninguém sabia dizer.
Que mundo estranho era aquele! Só restou um silêncio amedrontador. Nem rádio, nem Etelvina. Não preciso dizer que quase morri de pena daquela jovem, tão talentosa, tão louca, tão boa. Sentimos falta da sua voz carinhosa... Etelvina havia sido levada como um saco de areia. Poderia estar internada em algum hospício. Poderia estar morta e seu corpo servindo para a pesquisa de estudantes universitários. Poderia estar viva, quem sabe, cantando em algum lugar...
À noite, para aumentar minha tristeza, acordei com uma barata lambendo minha cabeça. Acordei com umas pequenas lambidinhas ásperas no couro cabeludo. Nunca tive tanto nojo de mim mesma. Lavei com água e sabão a parte onde a barata lambeu, mas não houve jeito; fiquei me sentindo contaminada. Eu me sentia como se tivesse sido mordida por um vampiro. Na correria e escândalo, a barata fugiu tranqüilamente para fora da cela. Andou pelo corredor como se estivesse consciente de que ali não haveria perigo para ela. Por algum tempo me esqueci de Etelvina, e pensava somente na barata bandida. Eu estava acostumada a ver baratas e ratazanas andando pelos cantos. Esta era uma visão costumeira que eu já nem me incomodava tanto. Mas nenhum destes seres havia me tocado o corpo antes. Nem mesmo o Chiquinho, pequeno rato que vinha visitar-nos toda noite. Eu conseguia ouvir as patinhas de Chiquinho no ladrilho. Ele chegava apressado, e entrava como se aquela fosse a sua casa. Milagrosamente, ele passava entre quem quer que estivesse dormindo no chão, e era cuidadoso para não acordar ninguém. Somente eu o ouvia e também o via às vezes, dependendo da posição da lua. Para evitar uma tragédia, eu não gritava “olha o rato!” e não alertava ninguém. Carlinda, no meu colo, ficava amedrontadíssima, mas procurava se controlar. Nenhuma de nós sabia se os ratos comiam rãs. Aliás, como era de se esperar, Carlinda detestava aquele lugar. Também não gostava das meninas internas. Dizia que todas eram muito feias e desajustadas. Acho que Carlinda sofria junto comigo. O que a consolava era a certeza de que minha estadia lá era breve. Deste modo, Chiquinho ia e vinha como bem queria. Tenho certeza que saía sempre com a barriga cheia de migalhas de pão. A lembrança de Chiquinho também me fez esquecer Etelvina e seu ataque. Aos poucos ela se apagava de meus pensamentos. Nada durava muito tempo em minha mente. Era como se eu pensasse mas não raciocinasse.
Ainda bem que Cida ou Irma não sabiam exatamente como eram as instalações prisionais. Gertrudes, sim, saberia tudo. Elas achavam que eu ficava numa cela arejada, com camas confortáveis, com apenas mais uma interna. Tínhamos várias refeições por dia. Tomávamos banho de sol. Fazíamos ginástica, alongamento, víamos a novela das oito, freqüentávamos a biblioteca da cadeia, pequena mas muito interessante, e também tínhamos acesso à Internet. Era uma cadeia perfeita! Fiz questão de contar detalhes sobre cada uma destas qualidades do sistema prisional. Cida me dizia: “Mas parece ser tão pequena, como cabe tudo isso?” Pois é nos pequenos frascos que estão os grandes perfumes! Mal sabia ela que perfumes maravilhosos eu respirava todos os dias. E mal sabia sobre a colônia de ratos e baratas que se encarceravam voluntariamente naquela prisão. Mal sabia minha irmã que uma barata em especial havia descoberto que tenho um couro cabeludo delicioso. Agradeço a Deus por eu não ter medo de ratos.
De vez em quando chegava o Doutor Gessy, meu advogado. Ele, ao contrário do que muitos podem esperar, era a única coisa que eu achava realmente horripilante naquela prisão. Não parecia ser real aquela figura longilínea, com seu cabelo tingido de preto. Ele falava e falava, a ponto de me deixar zonza com aqueles termos estranhos, e aquela voz metálica. Muitas vezes preferi que ele não tivesse aparecido; preferi que me deixasse sozinha ali, com as meninas, que afinal não eram muito diferentes de mim. Doutor Gessy insistia em me explicar que eu não devia, em hipótese alguma, estar presa, por causa da minha idade, e que mesmo assim tinha entrado com o pedido de hábeas corpus. A justiça, porém, era lenta e misteriosa. A justiça, nas suas palavras, parecia ser uma mulher bêbada dona de um bordel, sem controle de nada, absolutamente enlouquecida com as funcionárias e com os clientes. Não conseguia entender como Gertrudes tinha aquele homem em sua lista de advogados amigos. Gertrudes deveria estar louca. Doutor Gessy era uma visão fantasmagórica que me dava náuseas toda vez que aparecia. A pasta preta presa debaixo do braço parecia estar vazia. Eu tinha absoluta certeza de que não havia papel algum ali dentro. Tinha certeza que ele também não havia nunca conseguido tirar ninguém da cadeia. Duvidava se ele próprio era advogado. Parecia ser um alfaiate, um vendedor de algodão doce, mas nunca um advogado. Da gola de sua camisa saltavam aqueles pelos imensos grisalhos; o colarinho puído escondia, assim, um vulto de homem peludo e assombrado. Nunca me olhava nos olhos, nunca me ouvia, nunca me dizia bom dia ou boa tarde. Era uma máquina de falatório, que uma vez ligada não parava mais. E o que mais me irritava era sua risadinha que recheava todas as frases. Como um macaquinho ele ria e sacudia o tronco comprido para cima e para baixo. Mas eu nunca entendia do quê ele estava rindo, ou se realmente estava rindo de alguma coisa. Era um tique nervoso, eu pensava. Não faz mal que seja assim. Há tantas imperfeições na terra. E ele não tem culpa de ser como é. Pode ser um anjo tentando me proteger das mazelas da vida. Mas meu ódio por ele era mortal, e eu não sabia explicar. No fundo, eu achava que ele era o culpado por eu estar ali. Ele era enviado da tal justiça - a mulher gorda dona do bordel. Ele era responsável por minha irritação tão grande. Era ele quem me tomava as horas mais preciosas do final da tarde, quando todas as mulheres se ajeitavam em seus ninhos, esperando a noite chegar. Doutor Gessy me angustiava tanto que um dia eu gritei com ele, dizendo que eu não queria ir embora; que estava muito bem ali na prisão; e que logo teríamos um bebê para cuidar. Sim, um neném estava a caminho. Uma das meninas estava grávida. Teríamos que ajudá-la a cuidar do menino. Nesta hora ele parou de falar. Olhou-me nos olhos pela primeira vez e disse:
___A senhora poderia fazer um exame médico. - Chegou a sugerir que eu fizesse um exame psiquiátrico, o que seria até uma coisa muito boa, se a justiça constatasse que eu realmente estava desequilibrada. Gritei novamente com ele, dizendo que louco era ele de usar aquela pasta vazia; que ele não precisava vir mais, pois eu não entendia o que ele falava. Naquele dia ele saiu repetindo que ia solicitar o exame. Repetiu inúmeras vezes, olhando furiosamente para mim, como se o exame fosse uma forma de me punir. Além do mais, eu não podia deixar a cadeia naquela hora, justamente quando o neném de Silvana ia chegar. Como eu poderia deixar de pegar no colo aquela coisinha fofa? E ela ia precisar de mim. Eram todas desmioladas. Algumas eram como homens, não sabiam nada sobre recém-nascidos. Não saberiam cuidar do menino, pensava eu. Todas precisavam de mim. Se eu não estivesse lá seria um desespero, e a criança poderia ser retirada dos braços da mãe e entregue ao juizado. Ela tinha que saber cuidar. Tinha que aprender.
Doutor Gessy não queria ouvir nada sobre nenéns ou adultos. Depois desta discussão, sumiu por mais de uma semana. Da minha parte eu só pensava no parto de Silvana. Carlinda ficava horrorizada cada vez que eu falava sobre o bebê. Dizia que eu não tinha nada com a vida daquelas detentas, e que não deveria me envolver com gente que nem parente minha era. Mas Carlinda era uma rã. Não sabia nada sobre prole, ou bebês de colo. Eu só pedia que ela respeitasse minhas decisões. Nisto Carlinda era até muito boa. Ficava quietinha, apenas observando. Não falava nada. Fazia de conta que não via.
O neném nasceu numa noite de sábado. Silvana foi levada às pressas para o hospital, e tudo parecia estar bem. Já estava tendo dilatações. Rezei tanto para que não houvesse nenhum problema. Hoje em dia as mulheres são tão fraquinhas, e os nenéns, tão preguiçosos! Na segunda feira, Silvana chegou com o Lincoln nos braços. Achei o nome meio complicado, mas era o que ela queria. Logo foi apelidado de Lico, Liquinho e tudo ficou mais fácil. Lincoln era gordinho, tinha os olhos vivos e ágeis como os da mãe. Era guloso e só queria o seio, mais nada. Mamava até não poder mais. Até dormir de cansaço. Depois revezávamos em pegá-lo e beijá-lo, mas sempre era uma disputa. Algumas das meninas mais brutas eram as mais delicadas ao pegar o neném no colo. Era o instinto de mãe falando mais alto. Ficavam maternais e meigas. Com isso Lincoln esbanjava em carinho e afagos, e permanecia pouco tempo em sua caminha ao lado da mãe. Na verdade, Silvana era uma excelente mãe. Era muito atenta e parecia já saber tudo sobre o garoto. Era observadora e procurava entender o que estava acontecendo com ele. Com isso, não foi necessário ensinar nada. E as professoras ali eram muitas. Havia gente para ensinar desde as trocas de fraldas até os cuidados necessários quanto às cólicas. E se chorava no meio da noite, tinha sempre mais de uma auxiliadora para confortá-lo. Parecíamos um bando de leoas como estas que vemos pela TV; todas cuidando do pequeno filhotinho e sem nenhum leão por perto. O pai do garoto nunca veio ver o bebê porque estava preso em uma outra cidade. Isto parecia ser algo natural para elas: “Ah, ele tá preso não sei onde!” Era como se estivesse a trabalho em uma outra cidade. Coisas da vida.
Depois de sessenta e quatro dias, fui solta, sem explicações. Pelo visto, não havia provas contra mim, embora eu mesma estivesse saindo com as provas debaixo do braço, em calhamaços de folhas. A carcereira sabia disso, pois ouvira toda a leitura do final do corredor. Mas eles não estavam realmente interessados em me incriminar. Ninguém estava. Assim, minhas amigas da prisão ficaram sem os últimos capítulos. Lamentei muito este fato, e prometi a elas que um dia voltaria para terminar a história. E a verdade é que voltei várias vezes para uma visita, levando um costumeiro bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Quando me viam, sorriam como nunca – isto me enternecia. Eu pegava o Lincoln no colo, cada vez mais lindo e mais pesado. O garoto ia ficar com a avó quando fizesse um ano e meio. Seria uma triste separação. Eu sempre saía de lá pensando que todas eram vítimas de si mesmas.
Depois da prisão, minha vida voltou ao normal. O encarceramento continuou, porque não há escritora que não seja uma prisioneira. Mas, seguindo o exemplo de Gertrudes, passei a fazer de tudo um pouco, afinal a vida não se resume a uma coisa só. Também passei muito tempo na casa das camélias. Cada estação tinha sua fruta, de modo que o pomar tinha sempre uma boa surpresa. Um de nossos passatempos preferidos era nos sentarmos na varanda e ver o movimento na rua como se fazia antigamente. De repente, surgia um assunto interessante, ou uma história longínqua, ou um bandido fugindo da polícia, como aconteceu um dia. Mas geralmente ficávamos nos perguntando como estaria Gertrudes no outro mundo?! O que andaria fazendo nossa amiga mentora e filósofa?

Estávamos sentadas na varanda, como de costume, e de repente um rapaz subiu a rua correndo e pulou nosso muro de um só salto. Seus pés pesados caíram sobre os rabos-de-gatos com um estrondo. No que pulou já se abaixou, para se esconder. Imediatamente, Irma se levantou da cadeira e foi para cima do garoto:
___Ah, isso não! Meu jardim não é esconderijo pra bandido! Saia já daí.
Irma agarrou o braço do rapaz com tanta força que ele obedeceu e a acompanhou sendo puxado pelo braço. Nisto, apareceram dois policiais também correndo rua acima. Irma saiu com o garoto pelo portão e foi direto para o meio da rua.
___Aqui, oh! Ele está aqui. Estava no meu jardim.
O rapaz ficou tão assustado e absorto com o comportamento de Irma, que não teve reação nenhuma; apenas entregou-se.
___Estava no meu jardim. Onde já se viu! Pulou no meu jardim. Merece uma surra.
___Pode deixar, dona! Vamos trancafiar ele. Tem cara de criança mas é de maior. Sabe muito bem o que tá fazendo.
___Um perigo! Queria se esconder em minha residência.
___Pode deixar. Vai ficar preso agora. – Disse o policial.
Os policiais trataram de algemar o rapaz e o empurraram consigo.
Creio que Irma se arrependeu de ter entregado o garoto. Ficou pensativa; justificava-se, dizendo que ele podia ter atacado uma de nós, e que além disso tinha pisado nos rabos-de-gatos. No fundo ela estava arrependida. Assim como o garoto, agira por impulso. Somente depois, Irma havia se dado conta de que o menino apanharia muito daqueles policiais. E que no mesmo dia estaria nas ruas, podendo até querer se vingar da casa das camélias. E da próxima vez ele não seria tão ingênuo ou pacífico. Cada vez que algo como este incidente acontecia, eu sentia um vazio; era a ausência da voz de Gertrudes, que certamente teria algo sábio a dizer. Algo completamente inesperado, pois sempre ela nos surpreendia com soluções e argumentos inusitados. Então era como se eu ouvisse a voz, mas não compreendesse as palavras. E por mais que eu me esforçasse em tentar imaginar o que Gertrudes faria ou diria, não era possível.
Depois da morte de Gertrudes, voltei a me preocupar com os filhos e netos, mas confesso não era a mesma preocupação de outrora. É como se eu não quisesse me envolver com os problemas de família. E obviamente não quero. Na verdade, não quero falar sobre eles. São muitos os problemas e a tensão é muito grande se formos realmente encarar as coisas. Cheguei à conclusão de que não podia ficar me preocupando com problemas de filhos e netos, pois minha parte eu já havia feito. Já havia criado quem eu tinha que criar. Dei carinho, educação... se não aprenderam o problema é deles. Claro que sempre tive uma palavra amiga, um ombro para oferecer; mas cheguei à conclusão de que não posso ficar grudada neles.
Pela janela do apartamento, eu vejo o lugar onde nasci. Vejo o horizonte azulado, a serra que ficava a oitenta quilômetros, com seu Morro do Arreio. O grande morro em forma de arreio, que mais se parece um sutiã. Quando éramos crianças sempre chegávamos perto deste morro, mas nunca chegamos ao seu sopé. É lá que começa a serra, onde o clima muda e o Paraná ficava mais frio e cheio de pinheiros. Ainda bem que posso ver a terra onde nasci. Olhando este horizonte pálido azulado, fico pensando sobre o que me causara aquela amizade. Eu fui presa, encarcerada, minha vida se transformou. Eu tenho alucinações psicóticas! Penso também se um dia vou voltar ao Paranapanema - ao “semelhante ao mar”, como na língua tupy-guarany - para ver Euzébio – o xucro entalhador. Eu não teria coragem de ficar sozinha com ele naquele rancho escuro. Naqueles momentos de espera e abandono na cadeia, acho que por vingança de Gertrudes, prometi para mim mesma que um dia eu voltaria a Jacareúba para ver o Euzébio. E promessa é dívida.
A verdade é que me acostumei ao confinamento. Saio para fazer compras, para ir ao banco, ao médico, mas quase não vejo Irma e a casa das camélias. Irma acha que eu estou com uma espécie de síndrome prisional. Em outras palavras, eu me acostumei a quatro paredes. É como se me sentisse mais segura estando presa. Digamos que é um desejo incontrolável de ficar longe do mundo. Não é a primeira vez que me isolo do mundo e de todos. Lembro-me de que quando era criança resolvi fugir para o alto do telhado. Ninguém podia imaginar que uma menina soubesse subir em telhados; mas eu sabia. Ficava lá foragida, distante de tudo e de todos, perto dos pardais e bem-te-vis. Meu maior prazer era saber que ninguém sabia de meu paradeiro. No fundo, eu queria que achassem que eu estava morta, ou que sentissem minha falta. Era muito triste constatar, às vezes, que ninguém havia notado a minha ausência. Se eu soubesse que podia escrever, permaneceria no telhado eternamente, apenas escrevendo. Talvez eu ainda estivesse no mesmo telhado de sempre, motivada pelas mesmas coisas.
Em breve, farei a leitura para as meninas da prisão. Espero que elas tenham ainda o mesmo gosto em me ouvir. Assim como a polícia, elas desconfiam que eu sou a própria Gertrudes. Quem me dera ser tão inteligente! Tão capaz e corajosa!
Acho que ninguém estranharia se uma hora ou outra eu fizesse as malas e partisse para o Paranapanema. E olha que estou prestes a ter um acesso de coragem e fúria e enfrentar o grande rio, o céu, o caminho de águas profundas e amedrontadoras que nem os índios se atrevem a encarar. De repente, posso ficar realmente louca, e rever o Euzébio em seu refúgio de eremita, enquanto Gertrudes estiver bem morta; e que bom que ela está morta! Eu posso espiar o Euzébio novamente pela janela e deixar que ele me conte casos e casos do mato, e que me fale de sua deusa Gertrudes.

2006

ET FRUCTUM FECIT CENTUPLUM

Fernando Stratico

(Padre Antônio Vieira está prestes a morrer. É uma figura esquálida, cabelos longos e desgrenhados, veste uma túnica rústica branca. Está sobre seu leito de morte no centro do palco)

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:

Jesus é segredo
não chore
este pode ser
o sol dos teus olhos

olhe
é um trilho
sempre belo
corra!
Seja bem-vindo
num começo
para nascer de novo


Por que me agonizam tanto? O pequeno Antônio Vieira nunca soube bem dizer palavra. Então por que me agonizam se agora já estou mudo? Nem meus livros eu os tenho, pois se desfizeram nas chuvas e comidos nas florestas foram pelos animais. Por que me despertam se é só para sofrer? Em que partes estão as caravelas? Ei-las todas, bem ao meio estão partidas! Trazem luzes para os povos desprovidos de discernimento, mas em vão, quase estão afundadas! Então, que ouçam os sermões já ditos, estes sermões comidos pelos ratos dos porões dos navios. A minha alma não se apavora. Muitas vezes naufraguei em rochas, e muitas vezes me ameaçaram de morte. Mas sou profeta do V Império do Mundo! Este sou eu, humilde servo, humilde servo... Vejam como me arribei na Terra de Brasis! Sou estranhamente um náufrago. E meu pai nem parece ser um escrivão. Chegado para ser escrivão da Bahía, traz consigo minha mãe e eu menino, tão menino! (A cama-caravela passa pela cena da família que chega à praia depois de turbulento naufrágio)

corre a água
quero beber o fundo
mas o rio desce
onde já se viu.
Do meio de mim porém
uma fonte me sossega
são meus rios de água viva

(Contrastando com a seriedade de Padre Antônio Vieira, e da cena anterior, o palco se ilumina efusivamente. A cena se transforma em programa de televisão. Música)

APRESENTADOR: (Faz uma entrada triunfal)
Quem diria... temos aqui conosco o Padre Antônio Vieira, em pessoa, em seu leito de morte... (Para o auditório) Vocês querem conhecer o Padre Antônio Vieira? Mas, Padre, afinal, a caravela naufragou ou não naufragou quando o senhor chegou à Bahia?

(Silêncio contrastante. Foco somente sobre Padre Antônio Vieira)

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:

Guardo uma palavra
e me guarda
entre espinhos
no espírito
me afaga

Estar puro como a erva
que brota devagar
é benção debaixo das águas.
Semente em paz
no criador que semeia
para ser erva
nada mais

(Música novamente. Bailarinas ao fundo. Luzes)

APRESENTADOR:
Sim é ele mesmo! É ele, minha gente! Aquele que pregou a vida inteira e que nos deixou vários livros, uma porção de livros cheios de sermões. Quem precisa de sermões aí? Acho que vocês precisam de sermões! Estou vendo que todos precisam. Este é nosso homem. Escritor, pensador, mediador, catequizador, defensor dos índios, dos negros e dos judeus. Vejam só quanta coisa era este homem! Tanto bem fez para os oprimidos, os desgraçados de seu tempo. E quando era isso minha gente? Quando? Ah você não sabe? Ah que pena... você não sabe? Se você não sabe não vai levar quinhentos reais. Não vai levar. Para levar quinhentos reais é preciso saber quando nasceu o Padre Antônio Vieira. Alô você de casa? Alô, Decivaldo? Decivaldo, meu amigo, de onde você fala, Decivaldo?

DECIVALDO:
De Diamantina.
APRESENTADOR:
De Diamantina? Olha só, Minas Gerais! Você trabalha em que, Decivaldo?

DECIVALDO:
Sou balconista e mecânico.

APRESENTADOR:
Ah, é balconista de farmácia? Então me diga, Decivaldo. Você quer levar quinhentos reais?

DECIVALDO:
Sim, tou precisando mesmo.

APRESENTADOR:
Me diz uma coisa... é bom trabalhar como balconista? Deve ser ótimo porque você atende a todas as moças bonitas da cidade, não é? Atende ou não atende? Diz aí, Decivaldo? Atende as moças bonitas?

DECIVALDO:
Ah... tem moça feia também.

APRESENTADOR:
Diamantina tem moça feia? Não acredito, Decivaldo. Olha que você está me enganando que é pra eu não ir a Diamantina... Você quer me enganar, não é, Decivaldo? Hahahahaha! Em que ano nasceu o Padre Antônio Vieira?

DECIVALDO:
Nasceu no dia seis de fevereiro de 1608, em Portugal.


APRESENTADOR:
Em seis de fevereiro de 1608, e foi mesmo em Portugal! (Música) Você acertou, Decivaldo! Você vai levar os quinhentos reais! Acertou e não errou! Que maravilha! Diamantina é cidade de gente inteligente. Acertou em cheio. Parabéns! (Para o Padre) O que o senhor está achando, Padre Antônio Vieira? Este é o Decivaldo dos Santos, de Diamantina. É mineiro e só podia ser gente boa. Então me diga, Padre, já trabalhou nas Minas Gerais? (Música e coreografia das dançarinas)

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:

Uma nuvem de poeira
some no vão dos dedos.
A riqueza do mundo escoa
como meros pensamentos.
Mas tu, Jesus, ressoas
por muito mais
que um momento.

APRESENTADOR:
Ninguém ouviu nada, Padre. São todos uns desencontrados! (Ao Público) Vocês não ouviram, e não entenderam nada! E o Padre só fala coisa séria. Fala de novo, Padre!


PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
Uma nuvem de poeira
some no vão dos dedos.
A riqueza do mundo escoa
como meros pensamentos.
Mas tu, Jesus, ressoas
por muito mais
que um momento.


Na parreira imensa
um cacho

tem vinho vindo
divinamente

APRESENTADOR:
Maravilha, Padre! Vejo que ainda não parou de falar coisas bonitas para o mundo inteiro admirar. Não é à toa que o senhor é nosso convidado de honra. E para conversar com o senhor convidei gente inteligente. Doutores que sabem muita coisa a seu respeito. E aqui vamos mostrar tudo, naquele quadro tão famoso... “Esta é sua Vida”. Mas antes está aqui conosco a professora Eva Paulino Bueno...! (Entra a professora) Muito prazer, professora Eva. Como vai a senhora.

EVA PAULINO
[1]:
Vou, bem, obrigada.

APRESENTADOR:
É um grande prazer ter a senhora aqui conosco, neste programa especial sobre o Padre Antônio Vieira. Parece que pouca gente sabe sobre a vida do Padre, não é? Aliás, a senhora é a professora mesmo?

EVA PAULINO:
Sou professora. Felizmente o Padre Antônio Vieira é bastante conhecido e estudado tanto no Brasil como em Portugal.

APRESENTADOR:
E a senhora pesquisou e escreveu sobre a vida do Padre Antônio Vieira? Não deve ser nada fácil, ficar lendo tantos sermões, não é professora Eva?

EVA PAULINO:
Não é nada fácil. Fiz um estudo sobre o “Sermão Décimo Quarto", pregado na Bahia, à Irmandade dos pretos de um engenho no dia de São João Evangelista, no ano de 1633.
“Que influência o conhecimento da existência dos quilombos que estavam começando a se formar na zona açucareira teria nos escravos deste engenho onde o sermão foi primeiramente proferido? Vieira, como homem branco, e especialmente como homem branco da mesma classe social de onde vinham os senhores de engenho, certamente sabia da existência dos fugitivos e quilombolas. Ele, como pregador, sabia muito bem do poder da palavra, e não podia arriscar que os escravos fossem “seduzidos” pela promessa de liberdade, ou de uma vida melhor nos quilombos, se acaso notícia da sua existência chegasse até os engenhos.”

APRESENTADOR:
Vejo que a senhora está bastante afiada. Sabe tudo sobre a vida do Padre. E o que mais a senhora sabe? (À platéia) Vocês querem saber mais?

VOZES:
Queremos!

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:

O melhor de tudo
é parar por um momento
e contemplar as maravilhas
lá fora e aqui dentro.
Porque é um minuto
de prazer eternamente vivo
o Criador criar-me vendo

EVA PAULINO:
“Seu sermão dizia aos negros que eles só tinham uma opção de felicidade e de vida eterna, e esta era de cumprir seu papel de filhos de Coré — filhos do Calvário, imitadores de Cristo na hora da sua tortura e da sua morte. A doçura, o enobrecimento da realização deste papel e desta profecia devia subjugar qualquer outro prazer, qualquer outra alegria porque, se o Cristo “se gozava muito que o crucificassem”, como poderiam os negros rejeitar tão alto chamado?”

APRESENTADOR:
Me diz: os livros não tem ácaros? A senhora não tem alergia a livros antigos? Digo isto porque eu tenho (coça o nariz) alergia a livros muito antigos (espirra) ATCHIMMMM! ATCHIMMMMM! ATCHIMMMMM! Vocês acham que estou brincando, né? ATCHIMMMMM! Mas não é brincadeira, não! Quem é que quer ler livros antigos aí? Vocês querem? Vocês querem? Acho que eles não querem!

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:

Sem mais
nem menos
sem antes
nem depois
Deus é o pai
e veio e vai
e é
e eu sou

Ele estende a calma
enquanto me acalma
no sol
na dor

Ele que é
que dá
que tem sempre
um beijo doce
do céu

EVA PAULINO:
“Para eles, a paciência no sofrimento, a aceitação na tortura, e o agradecimento na morte estavam escritos muito antes deles terem vindo ao mundo, e, portanto, não haveria nenhuma outra maneira de salvação. Vieira chega a tal ponto na sua exaltação da sorte e felicidade dos negros escravos que, depois de uma descrição realista dos trabalhos e horrores das caldeiras de um engenho, insinua que ele os inveja: “n’essa triste servidão de miseravel escravo tereis o que eu desejava sendo rei” (318), e arremata que “mais inveja devem ter vossos senhores ás vossas penas, do que vós aos seus gostos, a que servis com tanto trabalho”.

APRESENTADOR:
Humm excelente professora! Palmas para ela! E excelente argumentação sobre as idéias do Padre Antônio Vieira. Mas a senhora não acha que ele já está mais pra lá de Bagdá? Deixa o velhinho sossegado. Afinal, isso aconteceu faz tanto tempo. Não dá pra acusar um velhinho entrevado numa cama. (Cantando com as vozes em off)
Deixa pra lá. Deixa pra lá.
Ele ta perto, mais pra lá de Bagdá!

EVA PAULINO:
“Levando-se em consideração um tempo e uma sociedade em que o escravo negro era visto como, e chamado de, “peça,” a argumentação de Vieira obviamente pode ser considerada arrojada, audaciosa, porque ele sustentou a igualdade dos negros como filhos de Deus. O que Vieira não fez, e poderia ter feito, neste sermão — e isto o teria transformado não só em visionário, mas em santo — foi argumentar pela liberdade dos negros. Aqui, ele jamais coloca em discussão a moralidade da retirada dos negros de suas terras; ele não levanta dúvidas quanto ao batismo em massa de pessoas que não sabiam o que isso significava. O que o sermão de Vieira busca, como última instância, é convencer os escravos de que seu papel está determinado — já havia sido determinado antes deles nascerem — e que, em se tornando obedientes e trabalhadores, agradecidos e religiosos, eles estavam preenchendo um papel maior que eles, e se estavam projetando num tempo além do seu, um tempo bíblico.”

APRESENTADOR:
Palmas para a professora Eva. (Garota traz um ramalhete de flores. Eva vai sair e pára)
EVA PAULINO:
“Mas, como Vieira rapidamente esclarece, ser cristão exige certos sacrifícios. Já que, como ele havia explicado, o terem sido trazidos da África não foi sacrifício, mas uma grande honra, os negros não devem usar seus trabalhos como desculpa para não seguirem suas obrigações de cristãos e de devotos de Nossa Senhora.

APRESENTADOR:
(Em outro plano com um chefe de cozinha)
O que temos aqui, Teo? O que você vai cozinhar hoje?

CHEFE DE COZINHA:
Vamos fazer uma Abóbora das Caravelas! Um prato muito popular no tempo do Padre Antônio Vieira. Esta é uma abóbora com carne seca e muitos temperos portugueses. Aqui temos uma abóbora bem enxuta. Torresmo, pedaços de carne seca já hidratados, alho, cebola, manjericão, coentro, louro, alecrim, salva, noz moscada, açafrão, hortelã, cominho e sal.

EVA PAULINO:
É interessante, neste momento, como Vieira mostra estar consciente do dia a dia dos escravos, porque ele descreve detalhadamente seus trabalhos nas caldeiras do engenho e nos cômodos das casas. Embora o fim último seja para descartar o trabalho como insuficiente razão para não rezar o rosário várias vezes por dia, Vieira usa a oportunidade para dizer aos donos que eles também eram responsáveis pela devoção de seus escravos. O que não deixa de soar incrível, para um leitor de nosso tempo, é que Vieira presenciou, em pessoa, o trabalho dos escravos. Ele viu e testemunhou seu sofrimento em primeira mão. Mas tudo isso ainda não lhe pareceu suficiente sequer para explicar ou justificar ou perdoar a um escravo que não cumprisse suas obrigações “de cristão” como se ele tivesse tempo e lazer para fazer suas orações várias vezes ao dia.”

CHEFE DE COZINHA:
Corte a abóbora em grandes pedaços. E é bom lembrar que no tempo das caravelas, e no tempo do Padre Antônio Vieira, tudo era cortado em grandes pedaços. Eles não tinham muito tempo, e nem tinham a delicadeza para ficar cortando em pedacinhos uma abóbora, que já é uma coisa rústica. Pois, corte a abóbora em pedaços rústicos, não se esqueça de guardar as sementes, que são boas para vermes. E afervente tudo em água bem quente. Com uma boa pitada de sal.

(Eva vai sair, mas pára para ouvir ao Padre)

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:

Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? (Sermão de Santo Antônio)

(Eva sai)

APRESENTADOR:
Eu tenho pressão alta, Padre. Não posso comer coisa salgada de jeito nenhum. Afinal, o senhor não quer que eu tenha um enfarto, quer? Olha que a professora Eva fez uma boa argumentação. Será que ela não tem sal suficiente? Hahahahahaha! E como fica, Teo, depois de cozida a abóbora?

CHEFE DE COZINHA:
Depois de cozida... Você retira do fogo, assim, e vai despejando em tigela grande. Onde está a tigela. Acho que não vai caber. Esta abóbora é muito grande. Vale lembrar que o povo das caravelas precisava comer coisas muito calóricas e nutritivas. Por isso a abóbora fazia tanto sucesso.


PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
Suposto, pois, que ou o sal não salgue ou a terra se não deixe salgar; que se há e fazer a este sal e que se há e fazer a esta terra? O que se há e fazer ao sal que não salga, Cristo o disse logo: Quod si sal evanuerit, in quo salietur? Ad nihilum valet ultra, nisi ut mittatur foras et conculcetur ab hominibus. «Se o sal perder a substância e a virtude, e o pregador faltar à doutrina e ao exemplo, o que se lhe há e fazer, é lançá-lo fora como inútil para que seja pisado de todos.» Quem se atrevera a dizer tal cousa, se o mesmo Cristo a não pronunciara? Assim como não há quem seja mais digno de reverência e de ser posto sobre a cabeça que o pregador que ensina e faz o que deve, assim é merecedor de todo o desprezo e de ser metido debaixo dos pés, o que com a palavra ou com a vida prega o contrário. (Sermão de Santo Antônio)

APRESENTADOR:
Mas que tanto sal precisamos assim? Me diz... o senhor não está gostando do século XXI. Este nosso século é muito bom! Quando o senhor poderia imaginar que seria assim? Mas hoje a vida é outra. Os índios vivem livres correndo pelas florestas, e os negros também não são mais escravos. O senhor conseguiu o que tanto queria. Somos todos alegres, Padre. Este é o século mais alegre de todos os tempos. Depois o que é feito com a abóbora e a carne seca, Teo?

CHEFE DE COZINHA:
A carne seca você deixa de molho de um dia para o outro, para ficar bem hidratada. Dizem que o Padre adorava carne seca. Quando estiver hidratada, e a abóbora já estiver cozida, você coloca azeite em uma panela grande, coloca a cebola picada, o alho, deixe dourar tudo, e então jogue a carne seca. Hummmmm que cheiro maravilhoso. É comida de gente forte!
(Cozinheiro desaparece de cena)
APRESENTADOR:
E para provar que nosso século é um século de alegria, convidamos o Jackson da Silva...! (Música, palmas. Entra Jackson, que é um garoto negro, carregado em uma maca. Há uma grande marca de sangue em seu peito) Mas o que foi que aconteceu? O Jackson foi atingido por uma bala perdida? Veja só, Padre. O Jackson ia dar um depoimento maravilhoso aqui para o Padre Antônio Vieira, mas no caminho, uma bala perdida o atingiu no peito. Foi uma fatalidade. Quem podia esperar?! O senhor sabe o que é bala perdida, não? Palmas para o Jackson! (Vozerio, palmas, música. Jackson levanta-se e sai correndo) Mesmo assim somos o povo mais alegre de todos os tempos. E sabe por que? Porque agora vamos sortear um carro zero quilômetro! E aqui estão as nossas Antonietes! Uma homenagem ao senhor, Padre.

(Aparecem as Antonietes em torno do carro)

APRESENTADOR:
(Enquanto o Apresentador fala, Padre Antônio Vieira e Rei D. João IV encontram-se no plano direito do proscênio. D. João confessa-se ao Padre)

Este é o sorteio generoso da REFINO ELETRODOMÉSTICOS. Na REFINO você encontra tudo o que você precisa – aparelhos de DVD, televisores de 29”, telas planas, liquidificadores, ar condicionado, e muito mais. Tudo a REFINO tem. Até o Padre Antônio Vieira compraria na REFINO, se por acaso ele vivesse em nosso século. Aliás, onde o senhor comprava suas coisas, Padre. Pois a REFINO tem! Tem tudo para sua casa. Seja você pobre ou rico, milionário, santo ou pecador. A REFINO tem. E agora é a hora de sabermos quem será o ganhador deste lindo carro zero quilômetro. E este é um sorteio informatizado. Aquela montanha de cartas é coisa do passado, e também de programas de televisão desatualizados. Roda, roda, roda, roda! (Painel mostra o sorteio eletrônico. Aparece o nome e endereço da ganhadora) Daniele G. Mendonça, rua Nova Iorque, 324. Parque São Bento. Nova Genilândia, Paraná. Que maravilha, Daniele! Você acaba de ganhar este lindo carro zero quilômetro. Me diz, Padre... o senhor tem carro, carroça ou caravela? O senhor devia ter passado na REFINO e feito suas compras lá. É verdade que o senhor fez o trajeto Brasil-Portugal e Portugal-Brasil de caravela, várias vezes? E que durava meses? A REFINO tem. Tem tudo para o seu lar. Alô, Anderson! (Antonietes desaparecem com o carro. Aparece Anderson – um internauta – em tela eletrônica. Ele tem um conversa online com o apresentador) Estamos online com o internauta Anderson. Como vai, Anderson?

(Cena da confissão do Rei continua no plano direito do proscênio)
INTERNAUTA ANDERSON:
Maneiro, cara!
APRESENTADOR:
O que você acha do Padre Antônio Vieira, Anderson? Você já tinha lido sobre ele? Gosta dos sermões? Acha que ele era um revolucionário?

INTERNAUTA ANDERSON:
Maneiro, cara... Tou online no seu programa. Que maneiro! A galera aqui tá assistindo e fumando um. Meu... que minas gostosas, cara... Essas Antonietes são gostosa mesmo!

APRESENTADOR:
Você assiste sempre ao nosso programa?

INTERNAUTA ANDERSON:
Maneiro, cara. Vejo tudo nesta internet, cara. Mas só não sou pedófilo! Isso não, né, cara!
APRESENTADOR:
Muito obrigado pela sua participação, Anderson, de Jucipoca do Sul, onde fica isso? Obrigado, Anderson! Estamos agora com Leonardo... Você gostou do Padre Antônio Vieira aqui, Leonardo? Você acha que estamos espinafrando o Padre?
(Cena da confissão do Rei D. João IV continua no plano direito do proscênio)

INTERNAUTA LEONARDO:
Acho ótimo que se questione o papel dele na história. Que ele foi importante não há como negar. Mas é preciso parar com essa veneração. Afinal ele não era nenhum santo. E a defesa que ele fazia dos índios e negros nunca foi radical. Eram sempre discursos metafóricos que nunca assumiam uma posição radical. E por outro lado, ele sabia que os judeus tinham muito dinheiro, chegou até a propor a compra de Pernambuco aos judeus, pra se ver livre dos holandeses. Os discursos dele eram sempre rebuscados e cheios de muitas voltas. Ele nunca assumia uma postura aberta e firme. Ele preferia acreditar nas vias palacianas. Era amigo do rei.

(Padre volta para a cama. Rei D. João desaparece)

APRESENTADOR:
Dizem por aí que estamos banalizando a figura do Padre. Mas este é um programa cultural. Estamos levando cultura e informação para o povo. Eu também leio bastante. Para aqueles que não sabem, tenho uma biblioteca com mais de três mil volumes. Em casa tenho Sócrates, Platão, Aristóteles, Paulo Coelho, Silvio Santos, Foucault, Paulo Freire, Jô Soares, Bill Clinton... E tenho também os doze volumes dos sermões do Padre Vieira. Mas essa gente não entende o papel da televisão. Nós também reconhecemos a importância da história e destes personagens históricos. E é isso que a televisão é capaz de fazer. É capaz de romper a barreira do tempo e do espaço. Com a televisão é possível visitar os séculos passados e também os futuros. Somente aqueles com visão são capazes de reconhecer isso.

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:

Muitos eus se Deus quiser
serão um só
para que se vença o mundo
como Jesus venceu


(Pequeno Antônio Vieira é levado pelo pai ao Colégio da Companhia de Jesus. Portão alto de ferro. Um padre o espera no portão)

PADRE DO COLÉGIO:
Vós sabeis, Cristóvão Ravasco, que este pequeno será submetido à dura disciplina jesuíta. Este nada mais é do que o Colégio da Companhia de Jesus. Este menino não terá os prazeres da infância que os outros meninos pagãos têm. Sábia sua decisão, senhor Cristóvão Ravasco, esta pobre criatura não pode ficar solta à mercê dos prazeres da carne que rondam as crianças. Mas sabei, estaremos de breviário e palmatória nas mãos. A ele imporemos um tempo sombrio. Não terá trégua, nem tempo para as tentações diabólicas. Ser-lhe-á sempre acrescentado o fardo das longas orações. Forçá-lo-emos aos estudos, à meditação e ao silêncio absoluto. Este último é a matéria prima da santidade e da redenção – calar a voz, calar a carne e o mundo para que possamos ouvir a voz de Deus.

CRISTÓVÃO RAVASCO:
Só me importo que saiba ler e escrever e também somar. E que conheça a Deus e seja um cristão. De mim preocupo-me com minhas escritas para o governador, que já não são poucas, e se eu soubesse que essa Terra de Vera Cruz era assim tão floresta escura com tantos animais e índios, e tempestades e ladrões e se soubesse que aqui viviam a pior espécie de gente, e que também aqui não se tem o dinheiro que se pensava ter... ah eu em meu torrão natal ficado teria.

PADRE DO COLÉGIO:
Pois então não sabíeis?

CRISTÓVÃO RAVASCO:
Não sabia. Mas agora esta será a pátria dele, é pequeno mas logo será um cepo de árvore frondosa. E basta-lhe que saiba as letras como eu, e que no governo se lhe abram portas como a mim.
PADRE DO COLÉGIO:
Melhores são as portas do céu, caro Cristóvão Ravasco.
CRISTÓVÃO RAVASCO:
Muito estreitas, padre. E eu que já me sou obeso teria mais dificuldade em passar. Deixo-as, estas portas, para aqueles que são bem magrinhos e que têm as almas leves.
PADRE DO COLÉGIO:
O menino não tem cara de inteligente. Tem as formas muito frágeis; é pálido, é muito magro, os olhos estão saltando das órbitas, nariz pontiagudo, não tem feições de santo; muito menos aparência de aluno apto a intensos esforços escolares. Parece que está cheio de bichas.

CRISTÓVÃO RAVASCO:
Mas é esforçado, é tenaz nas obrigações.

PADRE DO COLÉGIO:
Quem sabe comecemos um dia a descobrir-lhe a inteligência. Quem sabe tenha alguma inclinação para o latim, ou para o português. Quem sabe revele-se um crente fervoroso. Quem sabe não reclame das orações ou dos jejuns. E quem sabe não se deixe enganar pelos excessos do mundo, e pelas armadilhas desta ilha. Quem sabe venha a conhecer os Profetas, e atinja o grau mais elevado das Escrituras. Eu duvido.

(Padre do Colégio fecha o portão. O menino Antônio Vieira o acompanha. O pai sai exitante)

APRESENTADOR:
Eu também quero estudar neste colégio. Ei Monsenhor!

PADRE DO COLÉGIO:
Sim, pois não.
APRESENTADOR:
Mas esse negócio de só rezar e ler as escrituras... Será que era assim mesmo que se fazia?
PADRE DO COLÉGIO:
(Faz cara de dúvida)
APRESENTADOR:
Pode responder. Passa o microfone para ele, Claudete. (Ela traz o microfone) Pode falar... Como se chama?

PADRE DO COLÉGIO:
Anacleto.

APRESENTADOR:
Anacleto. De onde você é, Anacleto?

PADRE DO COLÉGIO:
Sou de São Paulo.

APRESENTADOR:
E arrumou este papel de padre...

PADRE DO COLÉGIO:
Sim, tive a sorte de conseguir.

APRESENTADOR:
Você não acha que essa vida de catequizador da Companhia de Jesus era muito dura? E Jesus tinha uma Companhia? Companhia do quê?

PADRE DO COLÉGIO:
Ah, devia ser muito difícil mesmo. Mas eles tinham muita fé. E o Padre Antônio Vieira logo foi desperto para a missão que ele tinha.
APRESENTADOR:
É mesmo? Você parece que é religioso também, Anacleto.

PADRE DO COLÉGIO:
Ah, a gente faz o que pode, né. Estudei em colégio de padre também. Mas logo percebi que eu tinha um chamado, mas que era para o palco, sabe... Então minha vida se transformou. Naquele momento eu descobri que era artista, e que minha missão era levar arte para as pessoas.

APRESENTADOR:
Obrigado, Anacleto. Pode voltar para o seminário. (Padre do Colégio sai de cena)

APRESENTADOR:
É assim que se faz. É de pequeno que se torce o pepino. Música, maestro!

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:

Água pura
que volta ao céu
que despejou
verte-me!
Converte-me!

(O Tribunal da Inquisição se aproxima vindo do fundo do palco. Enquanto Janice Theodoro argumenta, os Inquisidores aproximam-se e circundam a cama de Vieira. A música pára, mas as dançarinas continuam com sua coreografia. O Apresentador senta-se para assistir à cena)

JANICE THEODORO
[2]:
Para responder a estas acusações, no cárcere Vieira redigiu sua defesa. Modificou a maneira de narrar para que ela exprimisse, sem sombra nem dúvida, "sujeição, rendimento e obediência", abrindo mão, como prisioneiro, de sua perigosa retórica barroca. Deixava de lado, no seu discurso de cativo, a beleza de um universo aberto, repleto de incertezas, optando por um outro, encerrado dentro da lógica desejada pelo Tribunal do Santo Ofício. Vieira decompõe as proposições, esclarece os motivos, responde às objeções de forma espelhada. Espelha com seu texto tudo o que o tribunal desejava ouvir.
Constrói um princípio tirânico e utiliza-se de uma forma pedagógica para expressar-se. Seu texto permite aos inquisidores vê-lo como cativo, cativo no texto. Observem:

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
Não he meu intento nem foy nunca (como por muitas vezes tenho declarado) defender as ditas Proposiçoens. Porque o que só pretendo & desegei sempre he mostrar a sogeição, rendimento, & obediencia, que professo & devo à Igreja & seus ministros & muito particularmente aos deste sagrado Tribunal, cujas resoluçoens são, & serão para mym o mayor, mais efficaz, & mais evidente motivo de tudo o que ouver de crer, seguir, approvar, e ter por mais acertado.


BANDA ALHURES:
(Banda de rock aparece no centro do palco. Canta)
E se acazo (sem o pretender) me tenho appartado em alguma cousa do caminho ou modo da resignação, com que mais se pode ou deve manifestar o dito obséquio, veneração & submissão, conforme os estilos do Santo Officio,

APRESENTADOR:
Maravilha! Banda Alhures e seu último sucesso! Vocês estão musicando o sermões do Padre Antônio Vieira?

VOCALISTA DA BANDA:
Sim, é o discurso dele quando se defendeu da Inquisição. Não é fácil imaginar que você está perante a Inquisição, né, cara!

APRESENTADOR:
Não deve ser nada fácil! E como está a turnê de vocês este ano?

VOCALISTA DA BANDA:
Olha... tá uma maravilha... Nosso álbum “O Santo Offício” dedicado a Antônio Vieira, está fazendo o maior sucesso. É demais ver as pessoas pegando a mensagem.

APRESENTADOR:
Ao vivo, sem enganação....A Banda Alhures!

BANDA ALHURES:
(Cantando)
he por eu não ter noticia alguma dos ditos estilos, nem quem neste ponto mos declarasse ou insinuasse, avendo pedido por muitas & repetidas instancias se me dissesse o modo com que podia & devia mostrar o dito obséquio mayor & summo, porque isso era só o que queria, dezejava & pretendia.

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
E em conformidade desta disposição de meu animo & juizo, digo que se da representação dos motivos, que aqui determino fazer, se segue alguma presunção minima, de querer defender ou contrariar não só as resoluçoens, senão os acenos deste Sagrado Tribunal;
BANDA ALHURES:
(Cantando)
desde logo cedo & desisto, & retrato tudo o que neste papel estiver escrito, nem quero que se veja ou tenha effeito algum; porque mais estimo & mais quero mostrar me obediente, que innocente."
[3]

JANICE THEODORO
A obediência em Vieira está clara tanto no conteúdo quanto na forma. Expressa-se na própria estrutura narrativa produzida para refletir, como se fosse um espelho, os desejos do Santo Ofício. Portanto, no processo, a retórica barroca se transforma na "outra", na retórica inquisitorial. Esta é a questão central que caracteriza o texto do cativo. Vieira participa de um diálogo com o cuidado e a abnegação de quem vê com distância as acusações. Atento à forma do texto, ele pode discriminar o significado das palavras e, assim, reproduzir "o outro" sem deixar marcas de sua presença.
[4]
(Inquisidores permanecem observando Vieira)

APRESENTADOR:
Obrigado, professora Janice Theodoro. Obrigado à Banda Alhures. Esta é também uma pesquisadora muito simpática. A professora Janice está nos auxiliando com seus estudos sobre a retórica de Vieira. Parabéns pelo seu trabalho, professora. (Para Vieira) Mas o que o senhor fez de errado para que eles ficassem de olho no senhor? Onde há fumaça há fogo. Estes homens não parecem nada satisfeitos com o senhor, Padre. Olha que eles estão bastante bravos com o senhor.

(Uma garota traz uma cadeira de rodas motorizada. Vieira é colocado na cadeira pelos inquisidores. Vieira dispara pelo palco dirigindo a cadeira. Os inquisidores correm atrás dele, sem conseguir pegá-lo. Janice sai de cena. Apresentador deita-se na cama de Vieira. As garotas auxiliares o empurram para o plano direito)

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:

Uma corrente
desfaz-se em secreto
desfiguramento
quebra
desalgema
em degelo quente
elo por elo

Aos quinze anos, depois de ouvir um Sermão em que o pregador evocava as penas do inferno, fui profundamente tocado pela vocação. Quis então ser jesuíta. Quis evangelizar e levar a salvação para tantas almas perdidas. Opôs-se meu pai. Fugi de casa e fui pedir asilo aos padres da Companhia de Jesus. Meu pai não queria abençoar minha decisão, mas quem poderia resistir ao chamado de Jesus? Por fim, ele cedeu. E desde então me penalizo com aqueles que são cativos e com aqueles que são injustiçados.

(Entra um coro bastante numeroso composto por índios, negros e colonos. Inquisidores dispersam-se)

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:

Acendeu Deus o verbo
e nos vemos nascendo
para uma outra coisa bendita
Um só gesto de justiça
a começar de manhã

CORO:
(Repete os versos ditos por Vieira)
Acendeu Deus...

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:

Jesus desvenda todas as coisas.
Vem como luz que diz
que há Deus e nós

CORO:
(Repete os versos ditos por Vieira)
Jesus desvenda...

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
Com seu sopro
me arrependo
e volto a ver

CORO:
(Repete os versos ditos por Vieira)
Com seu sopro...

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
De que adianta
ser uma pedra preciosa
com mil faces lapidadas?
É preferível ser rocha bruta
cravada numa montanha
que não se abala
não muda
é sempre o que é

CORO:
(Repete os versos ditos por Vieira)
De que adianta...

CORO:
(Continua em forte uníssono)
Fez Cristo aos Apóstolos pescadores de homens, que foi ordená-los de pregadores; e que faziam os Apóstolos?

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
Diz o texto que estavam: Reficientes retia sua: «Refazendo as redes suas; eram as redes dos Apóstolos, e não eram alheias. Notai: Retia sua: Não diz que eram suas porque as compraram, senão que eram suas porque as faziam; não eram suas porque lhes custaram o seu dinheiro, senão porque lhes custavam o seu trabalho.

CORO:
Desta maneira eram as redes suas;

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
e porque desta maneira eram suas, por isso eram redes de pescadores que haviam de pescar homens. Com redes alheias, ou feitas por mão alheia, podem-se pescar peixes, homens não se podem pescar. A razão disto é porque nesta pesca de entendimentos só quem sabe fazer a rede sabe fazer o lanço.

CORO:
Como se faz uma rede?

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
Do fio e do nó se compõe a malha; quem não enfia nem ata, como há-de fazer rede? E quem não sabe enfiar nem sabe atar, como há-de pescar homens? A rede tem chumbada que vai ao fundo, e tem cortiça que nada em cima da água. A pregação tem umas coisas de mais peso e de mais fundo, e tem outras mais superficiais e mais leves; e governar o leve e o pesado, só o sabe fazer quem faz a rede.


Rasgou-se o véu
de alto a baixo
e Cristo vela
ensinando-me a amar
CORO:
O trigo que semeou o pregador evangélico, diz Cristo que é a palavra de Deus.

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
Os espinhos, as pedras, o caminho e a terra boa em que o trigo caiu, são os diversos corações dos homens.

CORO:
Os espinhos são os corações embaraçados com cuidados,

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
com riquezas,

CORO:
com delícias;

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
e nestes afoga-se a palavra de Deus. As pedras são os corações duros e obstinados; e nestes seca-se a palavra de Deus, e se nasce, não cria raízes.


Os caminhos são os corações inquietos

CORO:
e perturbados com a passagem e tropel das coisas do Mundo,


PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
umas que vão, outras que vêm, outras que atravessam, e todas passam; e nestes é pisada a palavra de Deus, porque a desatendem ou a desprezam. Finalmente, a terra boa são os corações bons ou os homens de bom coração; e nestes prende e frutifica a palavra divina, com tanta fecundidade e abundância, que se colhe cento por um:

CORO:
Et fructum fecit centuplum.

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
Este grande frutificar da palavra de Deus é o em que reparo hoje; e é uma dúvida ou admiração que me traz suspenso e confuso, depois que subo ao púlpito. Se a palavra de Deus é tão eficaz e tão poderosa, como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus? Diz Cristo que a palavra de Deus frutifica cento por um, e já eu me contentara com que frutificasse um por cento. Se com cada cem sermões se convertera e emendara um homem, já o Mundo fora santo.

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:

Quantas estrelas soltas
no amor
este céu que navega
leva-me
ao Criador

CORIFEU:
(Como um canto gregoriano)
Este argumento de fé, fundado na autoridade de Cristo, se aperta ainda mais na experiência, comparando os tempos passados com os presentes. Lede as histórias eclesiásticas, e achá-las-eis todas cheias de admiráveis efeitos da pregação da palavra de Deus. Tantos pecadores convertidos, tanta mudança de vida, tanta reformação de costumes; os grandes desprezando as riquezas e vaidades do Mundo; os reis renunciando os ceptros e as coroas; as mocidades e as gentilezas metendo-se pelos desertos e pelas covas; e hoje? - Nada disto. Nunca na Igreja de Deus houve tantas pregações, nem tantos pregadores como hoje.
CORO:
(Cantando)
Pois se tanto se semeia a palavra de Deus, como é tão pouco o fruto? Não há um homem que em um sermão entre em si e se resolva, não há um moço que se arrependa, não há um velho que se desengane. Que é isto?Assim como Deus não é hoje menos omnipotente, assim a sua palavra não é hoje menos poderosa do que dantes era. Pois se a palavra de Deus é tão poderosa; se a palavra de Deus tem hoje tantos pregadores, porque não vemos hoje nenhum fruto da palavra de Deus?
PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
É um dom ver a luz em nós
Suprema
e ser um sol
daqui por diante

APRESENTADOR:
Padre, mas quem é que dava dinheiro para o Vaticano? Quem é que dava todo aquele ouro e pedrarias? Não eram os ricos? E os ricos gostavam de ter escravos. Assim, ficavam mais ricos, pois pagariam nada pelo trabalho dos índios ou dos negros. Não era assim, Padre? E sendo os donos de escravos, os senhores de engenho, excelentes doadores de gordas quantias... a Igreja não iria acabar com essa mamata, não é? Dizem que até os padres tinham escravos! Quem foi que disse, Claudete, que os padres tinham escravos e até concubinas negras nos mosteiros? Foi você que disse, Claudete?

CLAUDETE:
Não, não fui eu não!

APRESENTADOR:
Então, quem foi? Diz pra gente, Claudete!

CLAUDETE:
Conforme a professora Eva Bueno Paulino, foi o professor Joseph Conrad que “traz uma seleção de documentos sobre o comércio de escravos pelas ordens religiosas do Brasil.” “Conrad publica um resumo de um livro escrito por Henry Koster em 1817, no qual este inglês residente em Pernambuco documenta não só as atividades comerciais dos monges beneditinos e suas vendas de escravos, mas também suas atividades sexuais com as mulheres negras propriedades dos conventos.”
[5]

APRESENTADOR:
Palmas para Joseph Conrad!

(Holandeses, em número de quinze a vinte, entram; retiram Vieira da cadeira de rodas; erguem-no e movimentam-no como a um boneco de pano. Coro fica sobressaltado, dispersa-se apavorado)

APRESENTADOR:
(Interrompendo os Holandeses)
Vocês por um acaso são os holandeses?

HOLANDESES:
(Segurando Vieira para o alto)
SOMOS!

APRESENTADOR:
Vejam só o que nossas Antonietes dizem a respeito de vocês!

ANTONIETES:
Eles são loiros, altos, bonitões, mas são também violentos, ui, ui, pára com isso holandês! Em princípios de 1624 os holandeses invadem a Bahia. Tomam, saqueiam e violam as mulheres indígenas. Os brancos fogem para o sertão. Os jesuítas também.

HOLANDÊS:
Esse Padre Antônio Vieira é um covarde. Fugiu e se escondeu no mato. Está no meio das índias parideiras. Quer aprender-lhe a língua, e vai pouco a pouco virando um deles. Esses índios indolentes, de nada servem! E os padres os defendem. O padre acha que eles tem salvação nos céus. Acredita piamente que estas almas selvagens vão ter abrigo entre os anjos e os querubins. Pois eu digo que o céu já está cheio de bons holandeses, e não vai ter espaço para bichos da floresta, pois não precisamos deles lá.

APRESENTADOR:
Mas diz a história nos livros da escola, que vocês eram muito cruéis e que andaram matando muita gente e violando as mulheres. E vejo que não usam tamancos. Você não deviam estar usando tamancos?

HOLANDÊS:
Queremos colonizar esta região como se deve mesmo fazer. Os portugueses nada fizeram aqui em mais de um século de ocupação. Melhor matar e começar do zero.

ANTONIETES:
Eles são loiros, altos e bonitões... mas ui! Que mãos de ferro! São mocinhos ou vilões?
APRESENTADOR:
Obrigado, a todos vocês, holandeses. Feliz invasão! Feliz tomada da Bahia.

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
(Sendo movimentado pelas mãos dos holandeses, arrastam-no, viram-no no ar, colocam-no de ponta-cabeça)
Que eu aprenda
a amar os instantes miúdos
desta imensa fornalha
que não queima, acrisola
na perfeição do Senhor

“Exurge quare obdormis, Domine? Exurge, et ne repellas in finem. Quare faciem tuam avertis, oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae? Exurge, Domine, adjuva nos et redime nos propter nomen tuum.

Porém agora, Senhor, vemos tudo isso tão trocado, que já parece que nos deixastes de todo e nos lançastes de vós,
HOLANDÊS 1:
Então não sabe o senhor, padre, que Deus só escuta aos Calvinistas?

HOLANDÊS 2:
Deus ficou surdo, padre? Hahahahahaha. Tente falar mais alto.

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
porque já não ides diante das nossas bandeiras, nem capitaneais como dantes os nossos exércitos.
HOLANDÊS 3:
Será que os sermões são assim tão poderosos que podem também remover montanhas? Estes católicos não deviam confiar tanto nas palavras.

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
Avertisti nos retrorsum post inimicos nostros, et qui oderunt nos, diripiebant sibi.

HOLANDÊS 4:
Ele está bêbado! Bebeu muito a aguardente dos índios, e juntou-se à febre dos nativos.
PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
Os que tão costumados éramos a vencer e triunfar, não por fracos, mas por castigados,
HOLANDÊS 5:
Também quero desta água ardente. Dizem que é o vinho dos selvagens e que faz-nos ver as ninfas trepadas nas árvores.

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
fazeis que voltemos as costas a nossos inimigos (que como são açoite de vossa justiça, justo é que lhes demos as costas),
HOLANDÊS 1
Precisam de muito mais que água ardente pra vencer os holandeses.

HOLANDÊS 3
Precisam que Deus faça um milagre. Sim, um milagre dos tempos de Jericó.
PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
e perdidos os que antigamente foram despojos do nosso valor, são agora roubo da sua cobiça. Dedisti nos tanquam oves escarum et in gentibus dispersisti nos.

HOLANDÊS 2
Este padre é uma verdadeira matraca. Deus não gosta de gente palradora!

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
Os velhos, as mulheres, os meninos, que não têm forças nem armas com que se defender, morrem como ovelhas inocentes às mãos da crueldade herética, e os que podem escapar à morte, desterrando-se a terras estranhas, perdem a casa e a pátria.
HOLANDÊS 3
Estou com fome. O que come esta gente selvagem?

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
Posuisti nos opprobrium vicinis nostris, subsannationem et derisum his, qui sunt in circuitu nostro.

HOLANDÊS 4
Come-se mandioca! Macacos! Jabotis! Tapires! Farofas!
PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
Não fora tanto para sentir, se, perdidas fazendas e vidas, se salvara ao menos a honra;

HOLANDÊS 5
Não sejam loucos. Há porcos e cabras e vacas como em qualquer mundo antigo. Minha fome, porém, é outra!

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
mas também esta a passos contados se vai perdendo;

HOLANDÊS 1
Fome de coxas grossas e nádegas avolumadas. E esta fome não passa!
PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
e aquele nome português, tão celebrado nos anais da fama, já o herege insolente com as vitórias o afronta,
HOLANDÊS 3
Onde estão as mulheres cevadas desta terra perdida? Dizem que cheiram a nozes e pimenta e tem um gosto de frutas saborosas.
PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
e o gentio de que estamos cercados, e que tanto o venerava e temia, já o despreza.
HOLANDÊS 4
Tem gosto de jacas maduras. Conhecem as jacas e os abacaxis? São frutas estranhíssimas...

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
O que venho a pedir ou protestar, Senhor, é que nos ajudeis e nos liberteis:
Adjuva nos, et redime nos.
HOLANDÊS 5
Este padreco não pára com sua ladainha. Mas de que valem estas orações?
PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
Mui conformes são estas petições ambas ao lugar e ao tempo.

HOLANDÊS 4
Valem sim as orações de pólvora, chumbo e espada. Basta ser um tiro certeiro e esta palavra não falha.
PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
Em tempo que tão oprimidos e tão cativos estamos, que devemos pedir com maior necessidade, senão que nos liberteis: Redime nos?
HOLANDÊS 3
Isso sim pode mudar o mundo! A força dos braços e o golpe da mão.
PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
E na casa da Senhora da Ajuda, que devemos esperar com maior confiança, senão que nos ajudeis: Adjuva nos?

HOLANDÊS 2
Que suas santas palavras sejam gravadas em livros, pra que ninguém se esqueça de que houve um catequista.


PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
Não hei de pedir pedindo, senão protestando e argumentando; pois esta é a licença e liberdade que tem quem não pede favor, senão justiça.

HOLANDÊS 1
Comem-se ratos e lebres e também as rãs?

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
Se a causa fora só nossa e eu viera a rogar só por nosso remédio, pedira favor e misericórdia.
HOLANDÊS 2
Tudo o que se mexe é comido nestas terras de meu Deus.

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
Mas como a causa, Senhor, é mais vossa que nossa, e como venho a requerer por parte de vossa honra e glória, e pelo crédito de vosso nome - Propter nomen tuum - razão é que peça só razão, justo é que peça só justiça.” (Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda)

APRESENTADOR:
Hummmmm acho que a Igreja se meteu numa enrascada, hein Padre! Aliás, onde está o Papa? Onde está o Papa, Claudete?
(Holandeses saem de cena)
CLAUDETE
Qual Papa?
APRESENTADOR:
Não acharam o Papa? Ah ele está vindo? Está no trânsito? Que ele venha logo, pois o Padre não dura muito. Enquanto isso – enquanto os holandeses tomam a Bahia e fazem o que querem - vamos receber uma figura muito curiosa. Vamos receber (enfatizando) a RAINHA CHRISTINA DA SUÉCIA.
(Grande séqüito. Entra a Rainha Christina da Suécia.)

APRESENTADOR:
Então a senhora é a Rainha que todos falam. Mas o que faz uma rainha da Suécia em Roma. Gostou dos romanos?

RAINHA CHRISTINA:
Converti-me ao catolicismo e quero ficar perto do Vaticano. Quanto mais perto de Deus, melhor.

APRESENTADOR:
Dizem que a senhora é uma rainha muito rica, e que pode se dar ao luxo de viver onde bem quiser. Já pensou em se mudar para o Brasil?

RAINHA CHRISTINA:
Sou apenas uma serva de Deus.

APRESENTADOR:
E me diz, por que não quis se casar? Se todos esperavam tanto um herdeiro?

RAINHA CHRISTINA:
Não quero me casar ora. E que ninguém ouse lançar perguntas sobre minha sexualidade! Ninguém pode me obrigar a nada.

APRESENTADOR:
E pelo jeito gosta mesmo dos sermões do Padre Antônio Vieira.

RAINHA CHRISTINA:
Quero que ele fique sempre em meu palácio. Mas o Padre não quer. Diz que tem uma missão na floresta com os índios do Brasil. É uma pena. Melhor seria pregar para aqueles ouvidos que estão ávidos para ouvir, do que para aqueles que nada ouvem.
APRESENTADOR:
Mas o Padre é missionário da Companhia de Jesus. Nem pega bem ele ficar pregando para a nobreza nestes palácios luxuosos. Se bem que da minha parte não tenho nada contra. Sem preconceitos.

RAINHA CHRISTINA:
Se ele prefere dar as pérolas aos porcos.

APRESENTADOR:
Por pouco o homem não se torna um santo. A senhora quer impedi-lo de fazer a obra de Deus? Afinal para quem ele escreve estes sermões tão sábios?


RAINHA CHRISTINA:
Para os filhos de Deus. Os sermões são sementes, são alimento para nossas almas. O senhor já ouviu?

APRESENTADOR:
Li alguns na Internet. Mas confesso que achei muito rebuscados e não falam diretamente.

RAINHA CHRISTINA:
São pedras preciosas de raríssimo esplendor. Somente aqueles que estão aptos poderão apreciá-las. Tanto já fiz para que ele fique. Tanto já me empenhei em convencê-lo de que a obra de Deus está aqui. Temos uma capela construída só para ele.
APRESENTADOR:
Hummmm é verdade que a senhora queria ser rainha de Nápoles, e que andou conspirando com os franceses? E dizem que o Papa não gostou nada disso.




RAINHA CHRISTINA:
Se eu quisesse ser rainha não teria abdicado do trono na Suécia. (Olhando para Vieira) Tenho esperanças de que ele volte e permaneça conosco para sempre.
APRESENTADOR:
Alguns, em Roma, dizem que ele é totalmente pinel. O que a senhora acha?

RAINHA CHRISTINA:
Loucos são aqueles que o caluniam. Estes terão sua recompensa no inferno.

APRESENTADOR:
Mas que história é essa de ter um confessor particular. Era assim antigamente? Os reis e rainhas tinham um confessor? Sinal que tinham muitos pecados pra contar, não? Eu, da minha parte, hehehe, só tenho boas ações. Não é querer demais? - um padre como o Antônio Vieira só para a senhora ficar contando seus pecados?

RAINHA CHRISTINA:
Também tenho filósofos e artistas em minha corte.

APRESENTADOR:
(Cantando)
Deixa pra lá. Deixa pra lá.
Ele ta perto, mais pra lá de Bagdá!

(Rainha Christina sai com seu séqüito. Apresentador sobe na cama onde está Vieira. A cama desliza como uma canoa em um rio. Apresentador rema. Índios empurram a cama; outros índios observam curiosos)

APRESENTADOR
Eu, sinceramente, não sei se vale a pena escrever tanto assim, e proferir tantos sermões. Da minha parte prefiro outro tipo de blá-blá-blá. Prefiro um blá-blá-blá que leve uma mensagem de alegria para as pessoas em suas casas, mesmo que eu não seja imortalizado. O senhor acha mesmo que pode salvar o mundo com estes sermões? Ou acha que alguém vai lembrar do senhor porque deixou estas coisas escritas? Não sei se os índios precisavam desta retórica. Afinal, os índios e negros não eram analfabetos? Talvez sejam os poderosos que precisam delas pra curar suas culpas, não é? Mas não precisa se culpar, Padre. Só mesmo um santo poderia se entregar em sacrifício. O senhor preferiu as letras. Eu preferi a televisão. E de que adiantou tantos sermões e ensinamentos? Os índios continuaram massacrados, os negros escravizados, e os judeus também perseguidos e mortos. E a Igreja ainda tinha muito tempo para permanecer em silêncio.
PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
Tinhe khô uny kapurá oñewataram ogapuru! (pausa) Zu ufiñkabarê ogakitãmi ñeko sawotomikeri!

ÍNDIO
Pawará kenuta`miobavabá oiapudomzio ganará.

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
kña obariduwá Jesus paranágatawa i doci kegywaje i dewu

ÍNDIO
Tzegô neg´watitorã

APRESENTADOR:
Eu sei que isso não é língua indígena coisa nenhuma. É mais uma invenção do autor . Está só imitando Tupy. Depois dizem que a Televisão é que engana as pessoas... Este dramaturgo quer iludir a população!

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
Tinhe khô uny kapurá oñewataram ogapuru! (pausa) Zu ufiñkabarê ogakitãmi ñeko sawotomikeri! Jesus owe yka tmá ojerupapori ke gjaaspeu. Fopeur çgap´toa ç faorug a çuruu lalbrorori. Glah qie fawanhvja gçaçsoeir acahdvoá, há vkáysrjoaur hyfy aorifi dlakri. Vhadru açwdorpá pcpoaidur akiu ruieuri, epa divoá peahharhahy. Oairuiê apicô alavkan vnañoar ke uninao`a ufueivá. Anabãnboá yu eueu, ywyê aofiie fakkeuá. Jesus Fij aápe açaçlf afkg çaç; duri khhaie s durukê! sçuçuf kooá rieiau, ryykidô fawê aaçá. Viuriwo vieú kajká oas kkaokao, cynjks amnmnao rabncori. naçwodori ackajfowe uri adhrjaoc anivuckajuhru - apospepespy rluwulykejfá aociury acálolkádkjó aojô.

APRESENTADOR:
Fico pensando sobre o que Deus realmente pensa disso tudo. Calvinos mantando jesuítas, Católicos matando protestantes, pondo na fogueira qualquer gente suspeita de qualquer coisa. Uns fazendo fortuna, outros fazendo guerra, tudo em nome de Deus. E Deus parece estar tão alheio a tudo. Uma vez eu pensei em fundar uma igreja. Minha intenção era levar a palavra de Deus, claro. Mas desisti logo, achei que não tinha fé suficiente. É preciso ter fé senão nada prospera! Sem fé, nenhum negócio vai pra frente. O que esses índios vão ganhar acreditando nessa conversa, padre? A vida eterna? (Gritando) Pára com essa canoa! Tá me dando náusea. Pára!

(Os índios param de empurrar a cama. Apresentador salta)

Este programa de televisão está parecendo um purgatório! Música, maestro. Claudete, o que trouxemos para os índios?

CLAUDETE
Trouxemos miçangas de plástico, pentes e aparelhos de celular pré-pagos!
APRESENTADOR:
Então agora poderão se comunicar! É isso o que eles querem, Padre. Nada de sermões que ninguém entende. Eles querem celular! Quem não quer um celular?
ÍNDIOS (falando aos celulares):
Almas como peixes
foram pescadas
do fundo de águas pardacentas.
Almas como feixes de bênçãos
serão transformadas
em novas águas cristalinas

APRESENTADOR:
O senhor tem fé que estes índios vão para o céu, Padre? O senhor acha que é um privilégio eles serem desculturalizados e dizimados pelos portugueses? Claudete, você gostaria de ser uma índia? Ou gostaria de ser uma portuguesa com certeza, vindo nas caravelas?

CLAUDETE
Bem, eu...

APRESENTADOR:
Alguns dizem que isto aqui já era uma nação antes mesmo dos portugueses chegarem, e que os índios eram donos da terra, e que até já conheciam o bolinho de bacalhau. Você queria ser uma índia latifundiária, proprietária de floresta, Claudete?

CLAUDETE
Ah... acho que eu...

APRESENTADOR:
Mas neste caso você não iria para o céu, porque índia que não conhece os ensinos dos jesuítas vai para o inferno! Ou você quer ir para o inferno, Claudete! Olha... Claudete, você está com cara de quem está doidinha pra ir pro o inferno.

CLAUDETE
Eu?

APRESENTADOR:
Sim, você!

CLAUDETE:
Eu quero ir para o céu.

APRESENTADOR:
Então é melhor que você seja escravizada ou massacrada pelos portugueses. Aliás, os europeus estão fazendo um favor ao promoverem tanta gente à santidade.

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:

Caminhamos no santuário.
A cada passo, Jesus,
O contemplo

(Entra o Tribunal da Inquisição)

PRIMEIRO JUIZ:
DO TRIBUNAL DA INQUISIÇÃO
Ele é um louco, um fanático. Escreve absurdos sobre o reino de Portugal. Porém, chega de encobrir-lhe a loucura e os vitupérios!

SEGUNDO JUIZ:
DO TRIBUNAL DA INQUISIÇÃO
Há muito que estamos em seu encalço. Há muito que o vemos entre a escória farejando como um perro. Mas somente agora o apanhamos envolto na própria loucura. Então é Portugal o reino do futuro... é o reino dos céus posto em terra? Então D. João IV ressuscitará em plena glória!

TERCEIRO JUIZ:
DO TRIBUNAL DA INQUISIÇÃO
Trata-se de blasfêmia do mais alto grau. Por muito menos outros já foram mandados para a fogueira.

APRESENTADOR:
O homem é um sonhador. Não se pode ser um sonhador? É figura importante. É uma celebridade! Vocês não vão querer estragar a festa... Ele só quis sonhar que Portugal um dia governaria o mundo. Não é permitido sonhar?

PRIMEIRO JUIZ:
O sonho é a demência das almas. Mas nem sei se ele é um louco ou um impostor. Aliás, esta Companhia de Jesus só tem metido os pés pelas mãos.

TERCEIRO JUIZ:
Sou pela pena máxima. Purifica-se o corpo – quem sabe a alma encontre alguma utilidade.
SEGUNDO JUIZ:
Incinerar um padre... não sei. Mais uma vez dirão que é a Igreja que foi impura, na medida em que não soube santificá-lo.

TERCEIRO JUIZ:
Trata-se de uma ovelha desgarrada. Deve ir para o fogo.

PRIMEIRO JUIZ:
Basta-nos o silêncio. Que esta boca não fale. Que esta voz não seja ouvida mais uma vez. Que os ouvidos de todos não se contaminem com estas sandices.
SEGUNDO JUIZ:
Continuará escrevendo. Só se cortarmos-lhe as mãos.

PRIMEIRO JUIZ:
Ser-nos-á tão temerária uma voz de ovelha? Uma letra de desvario completo? Não escreverá ele para os ratos do cárcere? Acaso são doutos em demência também os ratos de Portugal?
TERCEIRO JUIZ:
Prefiro a eficácia de uma fogueira. Mata tudo, cristaliza, purifica! Esta voz - e escrevam o que estou dizendo - ser-nos-á um entrave, lutará contra nós.

PRIMEIRO JUIZ:
É o mesmo que cortar-lhe a língua. Ficará em silêncio. Para quem são as palavras? Para quem é o silêncio? Senão para o próprio umbigo. E qual é o umbigo da santidade na terra? O Vaticano.

TERCEIRO JUIZ:
Fala-se antes para o próprio deleite. Fala-se para construir um castelo de palavras lindas em torno de si. E as palavras são mais sólidas do que os tijolos mais curados do mundo. São trincheira profunda, são mosquetes de pólvora aniquiladora, são fortalezas impenetráveis. Assim são as palavras – feitas unicamente para aquele que as fala. Por isso, não se iludam. Do mesmo modo é o silêncio. Obscuro poço, manto escuro e pardacento, o silêncio também fala. (Ouvem o silêncio)

SEGUNDO JUIZ:
Muito mais do que as palavras e o silêncio são os pensamentos. E esses, só Deus sabe julgar.

PRIMEIRO JUIZ:
Nós somos juizes de Deus, feitos para esta função.
TERCEIRO JUIZ:
Que pensamentos contrários à própria Trindade terá este moribundo?


SEGUNDO JUIZ:
Ele próprio já falou uma porção de milhares de vezes. É a favor dos cultos pagãos, quer os negros livres com suas feitiçarias, quer os selvagens da Ilha de Vera Cruz
PRIMEIRO JUIZ:
Terra dos Brasis!

SEGUNDO JUIZ:
...na loucura de seus deuses. Esta criatura já disse inúmeras vezes que não há mal nenhum em que os judeus professem e levem a cabo seu culto. Com eles faz conluios e está sempre de prosa.

PRIMEIRO E TERCEIRO JUIZES:
Ohhhhh!

PRIMEIRO JUIZ:
Ora são palavras, ora são pensamentos. O que seria se todos os jesuítas resolvessem encarar a morte com ações –vivas ações - em defesa dos negros e dos índios e dos judeus? Quantos mártires teríamos! Não haveria lugar na igreja para tantos santos! (Dão uma risadinha)

TERCEIRO JUIZ:
Não é à toa que o Rei D. Afonso VI, e seu ministro – o Conde de Castelo Melhor – odeiam os jesuítas. São uma verdadeira pedra no sapato.

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
De início, fui desterrado para o Porto; depois, atendendo a solicitação minha, fui enviado para Coimbra, onde fui julgado pelo Santo Ofício. Foram quatro anos de interrogatório. Por dois anos tive uma espécie de prisão domiciliar com residência fixa e por dois anos fui colocado no cárcere e proibido de pregar. Pergunto-me, agora que meu último suspiro está prestes a se dar, será que não teria sido melhor se eu instasse a todos a fugir para os quilombos? Não teria sido de mais valia se eu os tivesse instado a fugir para a liberdade, e os tivesse acolhido, escondido em minhas igrejas?

APRESENTADOR:
Padre Antornio Vieira... parece-me que o senhor está um pouco confuso. Parece-me que o senhor está um pouco conturbado... que história é essa de ser julgado pela Inquisição? Mas o senhor sabe que quem não deve não teme. Conte-nos o que realmente o senhor fez de errado? O senhor não tava falando sério em dizer que Portugal iria dominar o mundo e que D. João IV iria ressucistar como salvador da humanidade, ou estava? (Pausa. Aos inquisidores) Vocês da inquisição... (Os juízes se encolhem e evitam-no) Expliquem pra gente como é que foi esse negócio de Portugal do futuro, dominando o universo... (Os juízes se alvoroçam, cochicham) Falem aí! (Os juízes saem correndo)
APRESENTADOR:
Mas que diabos! Onde está o dramaturgo? Este, sim é um homem de visão! Onde está o autor desta história? Onde está o dramaturgo? (Entra o dramaturgo) Como vai, senhor Fernando Stratico?

O DRAMATURGO:
Muito bem, obrigado!

APRESENTADOR:
É verdade, senhor Fernando Stratico, que o senhor decidiu escrever esta peça apenas para ganhar o prêmio de um concurso de dramaturgia?

O DRAMATURGO:
No início, a motivação era essa mesma, mas fui me interessando pelo tema e então já não importava muito ganhar ou perder.

APRESENTADOR:
É uma excelente idéia esta de o autor entrar na obra. Mas outros já fizeram isso, não é? O senhor acha que assim poderá explicar melhor sua obra? Ou só quer chamar a atenção?

O DRAMATURGO:
Não, não quero explicar nada. Achei interessante fazer esta conexão e me colocar mais explicitamente na peça. Até o Nelson Rodrigues fez isso. Se ele fez também posso fazer.
APRESENTADOR:
Dizem que o senhor, seu Fernando Stratico, não sabe nada a respeito da vida do Padre Vieira, e que por isso resolveu fazer um coquetel de coisas desencontradas. Aliás, o senhor é professor também, não é?

O DRAMATURGO:
Sim, sou professor. E é verdade... não sei nada sobre o tema, mas gosto muito de aprender.
APRESENTADOR:
Mas o senhor acha que esta é uma boa hora para aprender? E quem não sabe ensina?
O DRAMATURGO:
Sempre é hora de aprender e, na minha opinião, o teatro não precisa ou não tem que ensinar nada.

APRESENTADOR:
Dizem que o senhor só quer fama e fortuna com esta peça.

O DRAMATURGO:
Duvido muito que aconteça. Mas até que não seria mal.
APRESENTADOR:
Não seria melhor uma narrativa mais tradicional, com cenas que contassem a vida do religioso. Os tele-espectadores não devem estar entendendo nada. O Padre faz horas está aí nesta cama, quase morrendo, em estado terminal.
O DRAMATURGO:
Não conseguiria trabalhar com uma narrativa linear ou naturalista. Gosto desta idéia de fragmentação e imagens soltas. A história com começo, meio e fim só existe na cabeça das pessoas. Não é interessante este Padre Antônio Vieira que dialoga com o século XXI?
APRESENTADOR:
Nós estamos felizes que tenha reconhecido nosso valor.

O DRAMATURGO:
Não é bem assim...
APRESENTADOR:
(Decepcionado) Não é bem assim...? No fundo o senhor acha que escravizamos o povo, não é?
O DRAMATURGO:
Eu não acho nada.

APRESENTADOR:
No fundo, o senhor acha que só banalizamos coisa séria, não é?
O DRAMATURGO:
Eu não disse isso!
APRESENTADOR:
E nem precisa dizer. (Agredindo-o com tapas) Tá na cara que quer ridicularizar a televisão brasileira e internacional. Pois fique o senhor sabendo que somos profissionais muito sérios e pagamos muitos impostos. Aliás, muito mais do que o senhor. No fundo, o senhor não está nem aí com o Padre Antônio Vieira. O senhor está se linchando para ele. Só quer ganhar dinheiro e comprar o seu Ford Fiesta último tipo. Pois nós aqui trabalhamos, não é Padre? Nós aqui trabalhamos. E não venha o senhor dizer que estamos nos aproveitando do Padre para fazer dinheiro. Nós da televisão estamos preocupados com o público... a mamãe o papai, as crianças que estão sentadas lá em casa querendo se divertir e aprender coisa séria. Não venha o senhor dizer que estamos fazendo comércio com esta figura tão ilustre da história da humanidade. Como escritor o senhor, sim, deveria explicar direitinho, e não deixar ninguém confuso a respeito da vida deste pobre homem, que aliás, não sei se o senhor notou, está agonizante. Está morre não morre. O senhor sim devia escrever alguma coisa que preste, e não engambelar ninguém com este palavrório! Somos gente séria, e não somos ópio do povo, não. Estamos aqui pra promover a cultura e deixar as pessoas mais inteligentes. O senhor quer fazer piada, quer se divertir às custas de gente séria? Então que procure outro lugar!
(O dramaturgo sai debaixo de pancadas)

APRESENTADOR: (Recompondo-se)
Desculpe, Padre. Desculpe. É que às vezes é só na porrada mesmo! Sujeitinho! (Apresentador tenta se recompor. Está muito nervoso)
PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
Clareou na manhã e em mim
como um sol
esta semente de fé

Aqui nas palavras
tem o som de uma vontade.
Que bom é ter o dom
além do céu
ser ouvido!
Quietude
há no som
de minha vontade:
descansar e ver-te verter, Senhor
como um chafariz
Vejo abrir-me
em um único sim
e entreaberta a porta
caminho
Porta das Ovelhas
te beijo
tua vontade desejo
Enfeitadas de eterno
A verdade e a vida
põem à tona uma pergunta:
quem ama quem?
quem quer beber
do amor de Deus
no verbo Jesus?

APRESENTADOR:
Palmas para o Padre Vieira! (Ouvem-se palmas e ovação)



PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
"porque até entre os anjos pode haver variedade de opiniões, sem menoscabo de sua sabedoria, nem de sua santidade; e para que acabe de entender o mundo, que ainda que algumas opiniões sejam angélicas, nem por isso são menos angélicas as contrárias" (Sermão da Sexta-feira da Quaresma, de 1662)

APRESENTADOR:
Claudete, traz uma água pro Padre.

(Claudete traz um copo de água para o Padre, que bebe sofregamente)

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
Nova criatura
um rio em paz
se faz

Espada de dois gumes
crava
prega
Palavra
"E os erros dos homens não provêem apenas da ignorância, mas principalmente, da paixão. A paixão é a que erra, a paixão a que os engana, a paixão a que lhes perturba e troca as espécies para que vejam umas coisas por outras. Os olhos vêm pelo coração, e assim como quem vê por vidros de diversas cores, todas as coisas lhe parecem daquela cor, assim as vistas se tingem dos mesmos humores, de que estão, bem ou mal, afetos os corações". (Sermão da Quinta Quarta-feira da Quaresma, de 1669)

APRESENTADOR:
Claudete, traga mais água para o Padre. Ele está nervoso. Acalme-se, Padre. Acho que o senhor está levando para o lado pessoal...

(Claudete traz mais um copo de água para o Padre, que bebe desesperadamente)

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
Sim
de bem
a vida
enfim
revela
Cristo
em minha
vida eterna

Jerusalém
que vem do alto
adornada
Habita-me!

APRESENTADOR:
Estes não são seus semões...

O DRAMATURGO:
(Surgindo na coxia)
São poemas meus!

(Seguranças o retiram de cena)

APRESENTADOR:
Poemas do autor... que falta de imaginação...

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:

Folha amarela
desliza
no ar
que se espera
renascer e ser
uma nova primavera
Espírito Santo
cabes dentro da relva
num peixe
no meu olhar
APRESENTADOR:
(Muito irritado)
Chega!!! Pode parar, Padre. O senhor já deu o seu recado! Ótimo! O senhor já falou bastante.
(O Padre se cala, e olha absorto)

APRESENTADOR:
Vamos levá-lo a um lugar muito interessante, Padre Vieira.
O senhor vai adorar!

(As Antonietes penduram o Padre Vieira em uma corda, preparando-o com um capacete de visualização digital. Ele flutua pela cena)

APRESENTADOR:
Este é o século XXI. Bem vindo ao século do futuro, Padre! O que o senhor está vendo Padre, aí do alto?

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:

Um ser enorme maior que tudo
dorme
e me sonha
em segredo
onde fico ternamente em silêncio
do Espírito Santo

APRESENTADOR:
Certo Padre... mas o que o senhor está vendo? Isto é tecnologia de ponta. O senhor está viajando pelo mundo Padre, sem retirar os pés do chão!

(Imagens são projetadas por todo o teatro, inclusive a platéia. No início, uma sucessão bastante rápida de imagens do cinema americano contemporâneo misturadas a cenas de noticiários internacionais e também propagandas diversas televisivas. Em seguida uma seqüência mais lenta com imagens do cotidiano das populações mais pobres do Brasil e do mundo. E por fim, uma seqüência de imagens de índios brasileiros em vários de seus aspectos – culturas originais, culturas degradadas, etc., com imagens agradáveis e imagens chocantes. Uma seqüência de imagens de culturas africanas em seus vários aspectos – algumas em conflito armado, etc., com imagens agradáveis e imagens chocantes. Durante a exibição das imagens, o apresentador pergunta ao Padre:)
APRESENTADOR:
Chegou então a hora da verdade, Padre. O senhor gostaria de viver no século XXI? Se o senhor vivesse no século XXI, escolheria o Brasil? O senhor gostaria de permanecer sempre como padre? O senhor acredita em reencarnação? O senhor já foi assaltado em algum sinaleiro? Ou em casa, ou na rua? Por que o senhor escreveu tantos sermões? Para quem o senhor escreveu tantos sermões? O senhor acha que entenderam seus sermões? O senhor já escreveu cartas de amor? O senhor chegou a ter alguma namoradinha? O que seus pais lhe disseram quanto o senhor resolveu ser jesuíta? Qual foi o segredo de tanto sucesso e prestígio? Que tipo de confissões os nobres faziam? Quais era os pecados dessa gente? O senhor acha que existe uma saída para a humanidade? O que pensa sobre o aquecimento global? O que pensa sobre a política no Brasil e no mundo? O senhor é comunista? O senhor já teve algum deslize? Já pensou em ser santo? Como era a vida íntima dos reis? O senhor gosta da Abóbora das Caravelas? Como o senhor se sentiu sendo julgado pelo tribunal da Inquisição? O senhor não acha loucura imaginar que Portugal governaria o mundo todo e que isto era a vontade de Deus? O senhor realmente gostava de viver entre os índios, no meio do mato? Não tinha medo de cobras? Gosta de feijoada? Tem alguma coisa contra os gays e lésbicas? Tem alguma coisa contra o século XXI? Preferiria o anonimato? E se Deus quisesse que o senhor fosse um apresentador de televisão? Como reagiria? Gosta de cinema? O senhor seria um pregador na atualidade?

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
(Ele chora)
Graças!
Pelas palavras que nos alimentam.
Como é bom abraçar um Deus-menino
nos nossos pensamentos!

(O Padre é retirado da corda. Ele está extremamente fraco)

APRESENTADOR:
(Sendo visto em um conjunto de monitores de vídeo, ao fundo do palco)
Tu me vês,
entrelaçando palavras.
Sabes todas e o que não digo.
Ao fazer esta esteira
entreteço o meu descanso,
minha cabeça repousa
nos pensamentos que tranço.
Não sou dono da verdade.
Ela que é dona de mim.
Abraçou-me de repente
quando eu estava sozinho
e disse: além de verdade
sou o caminho e a vida.
Versos tangem
uma conversa em silêncio
no colo do Pai.
Um louvor que revigora
desde o princípio
ao eterno amor de agora

Daqui a pouco vocês vão aprender como se faz um lindo arranjo de flores ornamentadas com trechos dos sermões do Padre Antônio Vieira. Isso mesmo: os sermões viram flores! Lindo, não?!

ANTONIETES:
(Elas dançam a coreografia da semeadura)
“Não o desanimou nem a primeira nem a segunda nem a terceira perda; continuou por diante no semear, e foi com tanta felicidade, que nesta quarta e última parte do trigo se restauraram com vantagem as perdas do demais: nasceu, cresceu, espigou, amadureceu, colheu-se, mediu-se, achou-se que por um grão multiplicara cento: Et fecit fructum centuplum. Oh que grandes esperanças me dá esta sementeira! Oh que grande exemplo me dá este semeador! Dá-me grandes esperanças a sementeira porque, ainda que se perderam os primeiros trabalhos, lograr-se-ão os últimos. Dá-me grande exemplo o semeador, porque, depois de perder a primeira, a segunda e a terceira parte do trigo, aproveitou a quarta e última, e colheu dela muito fruto. Já que se perderam as três partes da vida, já que uma parte da idade a levaram os espinhos, já que outra parte a levaram as pedras, já que outra parte a levaram os caminhos, e tantos caminhos, esta quarta e última parte, este último quartel da vida, porque se perderá também? Porque não dará fruto? Porque não terão também os anos o que tem o ano? O ano tem tempo para as flores e tempo para os frutos. Porque não terá também o seu Outono a vida? As flores, umas caem, outras secam, outras murcham, outras leva o vento; aquelas poucas que se pegam ao tronco e se convertem em fruto, só essas são as venturosas, só essas são as que aproveitam, só essas são as que sustentam o Mundo.” (Sermão da Sexagésima)

(Entram seguranças que carregando o autor. Eles o colocam, forçosamente, em uma mesa com um computador à sua frente)


O DRAMATURGO:
Não sei... Antônio Vieira me lembra Artaud com sua compulsão pela escrita. Ou Qorpo Santo, o dramaturgo gaúcho e sua loucura em escrever peças e peças de teatro. Ambos loucos filósofos e dramaturgos, mas loucos escritores. Mas que efeito a palavra tem? Se ditas para as pessoas erradas? Talvez ele tenha conseguido fazer alguma diferença. Conseguiu que proibissem a escravização dos índios. Isso foi uma conquista apesar de já ter sido um pouco tarde. E apesar do extermínio ter a sua continuação pelos séculos seguintes. E vale a pena escrever assim? Contra os moinhos de vento?

Uma árvore livre
vive!
Dá fruto todo o dia
de mansidão, de paz
para abrir sempre
a porta certa
e dizer a palavra exata
e seguir sem olhar para trás

Ainda não contei toda a história...

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
(Entra e anda na direção do autor)

Profundamente
sem lógica
a fé é simplesmente.
É o que importa
diante do mundo voraz.
É o que aviva e me acorda
e me leva e me traz.

APRESENTADOR:
(No monitor)
Mas como podem os sermões virarem um lindo arranjo de flores, Beatriz?

BEATRIZ FLORISTA:
(Aparece em cena)
Parece origami mas não é. É mais fácil. Você pega um feixe de pequenos ramos secos, como este. Isto você encontra em qualquer lugar. Na rua, na calçada, no seu próprio quintal, no canteiro da avenida. Mas cuidado ao atravessar a rua. Este feixe aqui eu catei no caminho ao vir para cá. Lindo, não? Pois coloque-o no vaso. O vaso também tem que ser especial, né. Não pode ser um vaso muito rebuscado porque vai tirar a beleza das flores...
PADRE ANTÔNIO VIEIRA E BANDA ALHURES:
Ondas como espadas
Vagas como abismos
Precipícios de muitas águas
virão sobre as criaturas
que ficarem ancoradas
em suas sepulturas

APRESENTADOR:
(No monitor de vídeo)
Entao qualquer pessoa pode fazer! E olha que é tudo material bem barato. A única coisa especial são os pedacinhos dos sermões, não é, Beatriz?

BEATRIZ FLORISTA:
Sim, exatamente. É o que vai dar a graça ao arranjo. Trata-se de um arranjo alto astral, que você pode colocar em qualquer mesa ou anteparo.

PADRE ANTÔNIO VIEIRA E BANDA ALHURES:
Creio que esta fumaça
irá embora de uma vez.
Então veremos a luz
iluminando toda a casa,
saindo pelas frestas,
irradiando nos quintais,
indo correr como um rio
que flui, que vai

BEATRIZ FLORISTA:
Agora você pega os pedacinhos dos sermões. Escolha os mais rechonchudinhos, com palavras bonitas, e vai dobrando assim, e amassando os ladinhos dele. Faça uma pequena volta, e um miolinho para o centro. Viu? Como é fácil? Então vou passando cola na pontinha dos ramos e vou colando as flores com muito cuidado.

PADRE ANTÔNIO VIEIRA e BANDA ALHURES:
A terra cambaleia
como bêbada está cortada da razão
e só delira no seu fim
de terra estranha
à vontade do Senhor

APRESENTADOR:
E você faz muitas dessas flores de sermõezinhos, Beatriz?

O DRAMATURGO:
Estes poemas são meus
Estavam guardados há muito tempo
São de uma fase também muito cristã.
O que acha, Padre?

BEATRIZ FLORISTA:
Sim, faço sempre... e tanta gente quer aprender. Porque fica realmente lindo! E além de tudo são palavras sábias do Padre Antônio Vieira. Cada flor fica então com uma mensagem de amor e de esperança. E claro que Deus gosta disto, não é!

APRESENTADOR:
(no monitor de vídeo)
Vejam só! O autor pergunta à personagem central o que ela acha de seus poemas religiosos. O autor está em crise... Não sabe se coloca o Padre como um santo, herói, louco ou bandido... Há santos nesse mundo, Padre? Este autor é um imbecil! Quer que todo mundo engula estes poemas embolorados! Tem que ser com pouca cola, não é Beatriz?
(Um desenho animado de Mickey e Pateta é visto nos monitores de vídeo, como uma interferência das imagens do apresentador)

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
O amor
de tanto amar
desarmou-me.
Deserto
mundo
no horizonte
espesso
mudo
cego
o invisível

BEATRIZ FLORISTA:
Ah se pôr muita cola não fica bonito. Mesmo porque não precisa. Os sermõezinhos secam muito depressa! Basta por um pouquinho de cola e pronto. E veja, cada florzinha pode ter uma personalidade. Uma você pode amassar a pontinha, assim. Outra você pode fazer mais magrinha, assim!

O DRAMATURGO:
Já faz tempo digamos que escrevi meus sermões, tentando salvar o mundo. O que acha dos poemas, Padre?

BANDA ALHURES:
(Cantando)
Recebi um presente.
Olhei o céu, eis-me aqui
erva do campo.
Nadei na eternidade
mas no meu coração não cabe
tamanho dom de viver

(Foco somente sobre o autor e sobre o Padre Vieira. Os sons do teclado são amplificados e enchem todo o teatro. Eles trocam de lugares. O Padre senta-se, e começa a escrever)

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
(Visto nos monitores de vídeo)
Um leão de palha
antes morava aqui dentro.
Trocava todo o mal por bem
e todo o bem por mal.
Agora ruge ao redor
e não tem lugar
que lhe afague

O que acha de meus poemas, você que tanto escreve?
Acha que construí um monumento para mim mesmo? Meus sermões são castelos feitos de areia assentados sobre o meu próprio reino? Neste reino sou senhor e servo, sou criador e criatura. Será que amei mais as letras do que a Deus? E Deus teve precisão de minhas palavras madrepérolas? Será que as gentes entendiam meus sermões na pequenina capela do engenho? Para quem eu falava, senão para as botas sujas de lama do senhor impiedoso. Era eu um cão sem dono?

BEATRIZ FLORISTA:
Ao colocar sobre a mesa o arranjo, certifique-se de que todos os sermoezinhos estão bem sequinhos. E que as pétalas não estão caindo. Fica ótimo com uma toalha branca de crochê. Olha que lindo!

O DRAMATURGO:
Trago uma cesta
cheia de palavras
ao vento.
Caia onde cair

Eu quero que o senhor se arrependa de não ter se rebelado, de não ter então fugido com os grupos de negros, os escravos fugitivos... quero que se arrependa de não ter seguido com eles e ter se afugentado no mato, formando seus quilombos, e lutar com os valentes guerreiros pela liberdade. Quero que morra assassinado pelos colonos, e então se torne um santo. O único santo brasileiro, milagreiro santo, além de libertar os escravos fez milagres, muitos milagres...
BEATRIZ FLORISTA:
Pronto! Fácil, não? E agora vamos relacionar novamente os ingredientes:

(Os ingredientes das flores de sermões aparecem no conjunto de monitores)

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
Acha que um santo se faz assim de bondade? Acha que um santo se faz assim com boas ações?
Se meu castelo ruiu um dia eu não o soube e não o vi. Se meu castelo foi fortaleza amedrontadora, eu não tive consciência, não sabia... não me dava conta. Se permaneceu para todo o sempre na arquitetura das letras eu mesmo não me dei conta, porque eu mesmo não sabia que erigia para mim tal moradia. Se tal castelo a ninguém abrigou, a ninguém serviu de guarida ou de teto ou de esconderijo, não foi culpa minha.

O DRAMATURGO:
Uma conversa em silêncio
solto
nos lábios do Pai
somente nós dois
sendo um
num segundo eterno
de oração
O senhor não disse o que acha de meus poemas...

PADRE ANTÔNIO VIEIRA:
(Retorna para a cama. O Dramaturgo volta para o computador)
Então, me diga... nunca fostes jovem jesuíta com seu eterno amor por Cristo e por Deus? Somos todos amigos do rei, em algum lugar, em algum momento somos amigos do império! E também confidentes. Somos loucos e o celeiro de toda a imaginação humana. Destes mitos alucinados nos alimentamos, pois é assim que somos... ternos, brandos, sonhadores, enlouquecidos. Somos também libertadores. Crês que nunca fostes um libertador? E que nunca quisestes guardar os oprimidos em sua própria casa? Somos também guerreiros, pacifistas, desbravadores... E também somos fracos. Nunca vistes isso tudo?

BANDA ALHURES:
(Cantando)
O Espírito está presente
quer queira ou não queira.
Fujamos pela água e pelo Espírito
porque em nosso interior
há um outro reino

Que bom é
respirar um raio cortante
negando-me em cacos
despedaçados

ANTONIETES:
(Cantando)
Se você nada fez
De realmente importante
Não vai ter na vida
Seus quinze minutos de fama
Nem uma vida sequer
Pra dizer:
Esta é sua vida!

APRESENTADOR:
(Com gargalhadas)
Eu adoro ver estas coisas. O poeta dramaturgo exigindo da história! Hahahahaha! O dramaturgo quer coragem! Quer ações ao invés de sermões barrocos cheios de ornamentos. Mas você mesmo não creio que seja assim tão corajoso, poeta de meia tigela... Ei, tá no ar?
CLAUDETE:
(Lendo, rapidamente, um grande livro de capa dourada)
Esta é sua vida, Padre Antônio Vieira... 1608: A 6 de Fevereiro, nasce em Lisboa António Vieira. – 1614: Aos 6 anos parte para o Brasil, com família; seu pai fora nomeado escrivão da Relação na Baía. – 1623: Aluno do Colégio dos Jesuítas na Baía, sente vocação religiosa. – 1624: Os holandeses ocupam a cidade; os jesuítas, com Vieira, refugiam-se numa aldeia do sertão. – 1633: Prega pela primeira vez. – 1635: É ordenado sacerdote, é Mestre em Artes e exerce a função de pregador. 1638: Pronuncia nos anos seguintes alguns dos seus mais notáveis Sermões. – 1641: Parte para Portugal na embaixada de fidelidade ao novo rei; é preso em Peniche no desembarque; torna-se amigo e confidente de D. João IV. – 1642: Prega na Capela Real; publica um sermão avulso. – 1643: Na "Proposta a El-Rei D. João IV "declara-se favorável aos cristãos novos e apresenta um plano de recuperação económica. – 1644: Nomeado pregador régio. – 1646: Inicia actividade diplomática indo à Holanda. – 1647: Vai a França e fala com Mazarino. – 1648: Emite um parecer sobre a compra de Pernambuco aos holandeses; defende a criação da província do Alentejo. – 1649: É ameaçado de expulsão da Ordem dos Jesuítas, mas D. João IV opõe-se. – 1650: Vai a Roma, para contratar o casamento de D. Teodósio. – 1652: Parte para o Brasil como missionário no Maranhão. – 1654: Sermão de Santo António aos peixes; embarca para Lisboa a fim de obter novas leis favoráveis aos índios. - 1655: Prega na capital, entre outros, o Sermão da Sexagésima; regressa ao Maranhão com as novas leis. – 1659: Escreve Esperanças de Portugal - V Império do mundo. – 1661: É expulso, com os outros jesuítas, do Maranhão, pelos colonos. – 1662: Golpe palaciano que entrega o governo a D. Afonso VI; desterro no Porto. – 1663: Desterro para Coimbra; depõe no Santo Ofício sobre a sua obra Esperanças de Portugal. – 1664: Escreve a História do Futuro; adoece gravemente. – 1665: É preso pela Inquisição, depois mantido em custódia. – 1666: Entrega a sua defesa ao Tribunal; é interrogado inúmeras vezes. – 1667: É lida a sentença que o priva da liberdade de pregar; D. Afonso VI é afastado do trono. – 1668: É mantido em custódia em Lisboa; pazes com Castela; é amnistiado, mas impedido de falar ou escrever sobre certas matérias. - 1669 - Chega a Roma, prega vários Sermões que lhe dão grande notoriedade na Corte Pontifícia e na da Rainha Christina; combate os métodos da Inquisição em Portugal; defende novamente os cristãos novos. – 1675: Breve do Papa que louva Vieira e o isenta da Inquisição; regressa a Lisboa. – 1679: Sai o primeiro volume dos Sermões; recusa o convite da Rainha Christina para seu confessor. – 1681: Volta à Baía e aos trabalhos de evangelização. – 1683: Intervém activamente na defesa de seu irmão, Bernardo. – 1688: É nomeado Visitador Geral dos Jesuítas no Brasil. – 1691: Resigna ao cargo por força da idade e da falta de saúde. – 1697: Morre na Baía, a 18 de Julho, com 89 anos.
[6]

(Enquanto Claudete faz a leitura, Padre morre na cama de lençóis muito brancos. Luz cai em resistência)

APRESENTADOR:
E se você duvidava que seria possível trazer aqui o Padre Vieira em carne e osso, você estava enganado. Aqui ele esteve e até morreu em rede nacional para todo mundo ver. E você aí em casa... se você ainda não comprou o livro sobre o Padre Vieira, o que você está esperando? É só ligar agora que você receberá quinze por cento de desconto e não pagará o frete. Compre agora o livro: Et fecit fructum centuplum, e saiba tudo sobre o Padre Antônio Vieira. Acompanha o livro um CD com canções lindas para você e sua família cantarem. Temos também um lido quebra cabeças do Padre Antônio Vieira para a família toda montar. E para aquelas crianças pequeninas temos o bonequinho Antônio Vieira. E se você quer ficar ainda mais inteligente, compre a coleção completa dos sermões em miniatura. Os menores sermões do mundo! Agradecemos muitíssimo a todos vocês que nos prestigiaram esta noite; e não percam! Na próxima semana estaremos revivendo mais uma grande história. E fique atento, esta história pode ser a sua! Boa noite!
(Música triunfal. Luzes, Antonietes dançam ao fundo, a cortina se fecha)




REFERÊNCIAS
[1] BUENO, Eva Paulino. O Padre Antônio Vieira e a escravidão negra no Brasil. Espaço Acadêmico. Disponível em http://www.espacoacademico.com.br, visitado em 08/02/08
[2] THEODRO, Janice. A Retórica do Cativo: Padre Antônio Vieira e a Inquisição. Disponível em http://www.fflch.usp.br/dh/ceveh/public_html/biblioteca/livros/ab/ab-p-l-capi8.htm visitado em 8/02/08.
[3] VIEIRA, Padre Antônio. Defesa Perante o Tribunal do Santo Ofício, Salvador, Livraria Progresso, 1957, tomo I, p.3.) In: THEODRO, Janice. A Retórica do Cativo: Padre Antônio Vieira e a Inquisição. Disponível em http://www.fflch.usp.br/dh/ceveh/public_html/biblioteca/livros/ab/ab-p-l-capi8.htm, visitado em 08/02/08
[4] THEODRO, Janice. A Retórica do Cativo: Padre Antônio Vieira e a Inquisição. Disponível em http://www.fflch.usp.br/dh/ceveh/public_html/biblioteca/livros/ab/ab-p-l-capi8.htm visitado em 8/02/08.
[5] BUENO, Eva Paulino. O Padre Antônio Vieira e a escravidão negra no Brasil. Espaço Acadêmico. Disponível em http://www.espacoacademico.com.br, visitado...
[6] Orlando Neves. Padre António Vieira - Escritor, pregador: 1608 – 1697 disponível em http://vieira2008.blogspot.com/2008/02/padre-antnio-vieira-por-orlando-neves.html. visitado em 25/03/08.

Escombros, Face, Labirinto

Fernando Stratico

[Personagem Solta, Guardião e Costureira cantam:]


Personagem solto
entre escombros
ele morre viva morre
ele/ela dorme
afoito/louca/louco
vive nas ruínas.

esta história que me deste
era vidro e se quebrou
mas a luz descobre
lamparina a gás
se faz
esta luz ausculta
esta luz te busca
numa história que passou Soberano
Meu engano
Pobre de mim personagem, peça,
Pobre de ti ato, cena, fato
Pobre de mim falecida
Pobre de ti só nos resta
Pobre de mim um farol de esquina
Pobre de ti em estado de putrefação
Um recurso pobre
Um recurso podre Pobre de mim...
esta vida encobre
esta vida sobre

CENA 4

[Costureira chora, manuseando um sapato]
COSTUREIRA: Foi só isto que restou. [Pausa] Tanta história num sapato... Dizem que são os pés que sustentam a vida. São os pés que guiam, os pés que levam a todos os lugares. E veja: um pé desfeito, sem personalidade, sem pernas, sem corpo. Um pé sem alma! Um pé assim solto não é ninguém.
GUARDIÃO: Não é um pé, trata-se apenas de um sapato.
COSTUREIRA: É tudo a mesma coisa. Um sapato sem dono.
GUARDIÃO: Ele tem um dono. Pertence ao Eduardo.
COSTUREIRA: Não sei por que você insiste em chamá-lo de Eduardo. Você não sabe nada a respeito dele. Ninguém sabe como ele se chama. Ninguém sabe de onde ele veio. É um homem sem passado. Não tem documentos, não tem história. Ninguém nunca ouviu falar... E é um sapato de mulher... Eu diria que é um pé muito feminino para um homem. Aliás, como se explica este sapato? É quase um escarpin!
GUARDIÃO: Não seja preconceituosa.
COSTUREIRA: Eu? Preconceituosa? Magina! Só disse que é um sapato feminino, e que não combina com o restante da pessoa.
GUARDIÃO: Quem sabe depois ele poderá esclarecer.
COSTUREIRA: [Com risinho] Vai ser ótimo ouvir esta história. Esta eu não posso perder.
GUARDIÃO: Nem todo o mundo tem a complexidade que você tem...
COSTUREIRA: Agora é você ironizando.
GUARDIÃO: Que psicologia você tem? Nem sabe de onde saiu. É também uma personagem perdida, desgarrada, sem história sem nada, tirada provavelmente do teatro do absurdo.
COSTUREIRA: Algumas coisas eu consigo lembrar...
GUARDIÃO: Lembrar o que? Que era uma costureira? De uma peça de teatro? Costurava para sustentar a família? E que em uma cena você está rica, e noutra cena você está pobre. Numa cena está rica, noutra está pobre. Que chatice. Isto é muito pouco sobre a vida de alguém.
COSTUREIRA: Isto não é teatro do absurdo. Não tenho culpa. Não consigo lembrar mais nada.
GUARDIÃO: É uma psicologia muito pequena, não?
COSTUREIRA: Você também não tem história! Talvez saiba muito menos do que eu. É um guardião, mas guardião do que? De um templo, de um castelo, de uma boate? Você sabe muito menos ainda sobre o seu passado. É um guardião, mas que não sabe o que guarda. Bem, guardiões não são lá personagens muito importantes mesmo. São sempre personagens menores, aparecem e desaparecem. E se junta a isto o fato de você perder sua própria história, ficar totalmente perdido sem uma fábula.
GUARDIÃO: Hoje sou guardião deste lugar, já me basta.
COSTUREIRA: Ainda bem que arranjou uma função.
GUARDIÃO: Estas coisas não importam mais. Basta o que somos hoje. Não estou preocupado com o que pensam ou imaginam a meu respeito. Sinto-me útil aqui. Devo me dar por satisfeito em ainda fazer algum sentido.
COSTUREIRA: Pois eu não me contento com tão pouco. Gostaria de ser uma personagem completa, e não um fragmento qualquer. Veja este pobre rapaz que acaba de chegar. Sabe-se lá de onde veio... uma novela mexicana, um filme francês? Um filme pornô... meu Deus! É um homem perdido, abandonado pela imaginação humana. Por que foi então imaginada esta criatura se não valeria a pena? Por que foi então pensada, dada a vida assim à toa, se foi solta pelo mundo, desfazendo-se aos poucos?! E aos poucos se perdendo...? Eu que sou louca de ficar aqui costurando... [Para o Guardião] Você não acha?
GUARDIÃO: Não seja tão dramática. Enquanto uns chegam, outros vão embora. É natural que alguns desistam.
COSTUREIRA: Não acho natural?!
GUARDIÃO: Sim. Alguns acham que não vale a pena procurar...
COSTUREIRA: Você parece que não enxerga. Não se olha, não? Não percebe que é um farrapo humano? Não percebe? [Pausa]
GUARDIÃO: E a moça, onde foi?
COSTUREIRA: Está perdida por aí.

[Ela coloca o sapato dentro do vidro com formol que o Guardião segura. Ambos saem de cena. Permanece a Personagem Solta, que brinca com um tecido-labirinto].

CENA 5
GUARDIÃO: [Entrando] Enrola o pano.
PERSONAGEM SOLTA: Eu adoro me enrolar nestas toalhas de mesa, parecem vestidos de festa.
GUARDIÃO: Deixe de brincar e faça a coisa certa.
PERSONAGEM SOLTA: Eu não estou brincando...
COSTUREIRA: Coitadinha, acho que ela era garçonete. Vive falando em toalhas de mesa.
GUARDIÃO: É ainda uma criança.
[Ao fundo, Costureira ilumina uma parede com sua lanterna. Todos vocalizam uma seqüência de sons inusitados]
PERSONAGEM SOLTA: Olha! Uma louca como aquela!
GUARDIÃO: Ela é louca.
PERSONAGEM SOLTA: Eu sei que ela é louca, ela não diz coisa com coisa.
GUARDIÃO: Escuta!
[Atriz ao fundo pesquisa o espaço com sua lanterna. Guardião e Personagem-solta estendem o pano como se fosse um biombo. Sobre o biombo são projetados slides ou vídeo]
COSTUREIRA: Não vejo muita coisa, só tem restos... muitos restos... Ui, uma cabeça.
GUARDIÃO: Traga a cabeça!
COSTUREIRA: Já temos muitas cabeças. Precisamos de braços, pernas...
GUARDIÃO: Como é esta cabeça?
COSTUREIRA: Não sei direito. Está com os olhos arrancados, e uma expressão de arrependimento, deve ter cometido algum erro grave.
GUARDIÃO: É uma cabeça interessante. Fazem parte das histórias. Podemos restaurá-la.
COSTUREIRA: Eu não mexo nisto. Está com um ar decrépito, e parece muito antiga, tem um aspecto meio grego.
GUARDIÃO: Deve ser uma personagem importante. Traga-a.
PERSONAGEM SOLTA: Olha! Uma louca como aquela.
GUARDIÃO: Sim, de novo uma louca.
PERSONAGEM SOLTA: Mais uma louca.
GUARDIÃO: Sim, há muitas loucas como esta por aqui.
COSTUREIRA: Já botei a cabeça no saco. Mas eu não mexo mais nisto.
GUARDIÃO: O que mais está vendo?
PERSONAGEM SOLTA: Por que há tantas loucas como esta?
GUARDIÃO: Não se preocupe. Elas não fazem mal.
PERSONAGEM SOLTA: Só queria saber... Por que estas personagens...?
COSTUREIRA: Não são personagens, meu bem. São autores. [Pausa]
PERSONAGEM SOLTA: Está começando a me dar medo.
GUARDIÃO: Que nada. São só imagens longínquas.
PERSONAGEM SOLTA: E por que não estão escrevendo?
GUARDIÃO: Estão sem trabalho no momento, e algumas estão procurando pedras para enfiar nos bolsos, e um riacho pra se afogarem.
PERSONAGEM SOLTA: Mas deviam estar escrevendo... Precisamos de histórias.
GUARDIÃO: Já temos muitos fragmentos nestes escombros.
PERSONAGEM SOLTA: Mas não temos uma história inteira, completa.
GUARDIÃO: Eles nem sabem mais como se faz.
COSTUREIRA: Que legal... Olha só! Há seis personagens a procura de um au... Não, não é não.
GUARDIÃO: Quem são?
COSTUREIRA: Não tem condições. Precisamos de coisas mais alegres. Ah, um nariz de palhaço.
GUARDIÃO: Pode jogar fora. Já temos muitos.
PERSONAGEM SOLTA: [Ainda olhando para as loucas] Por que não escrevem mais? Ficam só andando pra lá e pra cá.
GUARDIÃO: Há uma versão que diz que faz tempo que se separaram da gente. Houve algo como uma batalha. Não quiseram mais, preferiram o mundo real. Queriam emoções mais fortes, e objetos de ficção foram desfeitos.
COSTUREIRA: O que vocês estão conversando?
GUARDIÃO: [Para Costureira] Nada. [Para a Personagem Solta] E faz séculos não precisam mais de nenhuma fábula.
PERSONAGEM SOLTA: Mal dá pra acreditar. Nem as crianças?
COSTUREIRA: É a última vez que eu venho aqui. Não agüento este lugar. Está podre. É a última vez que faço isto. Vocês vão ter que se revezar.
GUARDIÃO: As crianças, muito menos.
PERSONAGEM SOLTA: Mas as crianças adoram as histórias...
GUARDIÃO: Que crianças? Isto foi há muito tempo atrás. Nem gosto de falar em crianças... me dá arrepios.
COSTUREIRA: Achei uma peruca.
GUARDIÃO: [Entusiasmado] É minha! [Justificando-se] Estou investigando algumas coisas...
PERSONAGEM SOLTA: E estes que ficam só nos olhando, sentados?
COSTUREIRA: Claro que a peruca é sua, Guardião. Você pode se tornar o Guardião das perucas loiras. Pronto! Já achei uma função pra você.
GUARDIÃO: Eles gostam de olhar. Vêm sempre aqui, ficam nos olhando, assistindo, e depois vão se embora.
PERSONAGEM SOLTA: Mas pra quê?
GUARDIÃO: Eles ainda têm alguma ligação com este lugar. Acho que não conseguiram se libertar totalmente.
PERSONAGEM SOLTA: E isto é bom?
GUARDIÃO: Não sei. Talvez seja. Mas podem acabar com tudo de repente. Existe um ódio mortal contra a imaginação pura.
COSTUREIRA: Encontrei outra cabeça. E um vestido de noiva, uma grinalda... Faz algum sentido?
GUARDIÃO: Não importa. Veja se a cabeça fala.
COSTUREIRA: Sim, ela balbucia algumas palavras.
PERSONAGEM SOLTA: Pra quê trazer mais gente? Este lugar está repleto.
COSTUREIRA: Está falando um monólogo. Parece que esqueceu o texto. Acho que é uma personagem cômica, ela disse não sei o quê da “tragédia carioca”.
GUARDIÃO: Quanto mais gente melhor.
COSTUREIRA: Encontrei muita coisa, mas o que procurava ainda está faltando: umas mãos para o Eduardo. Ele vai ter que continuar com aquelas mãozinhas de espuma mesmo.
COSTUREIRA: [Mostrando o rosto] Preciso de alguém pra me ajudar. Encontrei um fragmento inteiro.
PERSONAGEM SOLTA: Eu vou. [Ela canta]

Hoje Uma ode
de novo como pode
que a luz se apaga o poeta se sacode
e saltam da parede sem seu vício
seres turvos sem cigarro
Pensei sendo claro
em uma ode à luz sendo vago

[Guardião, Personagem Solta e Costureira carregam um homem muito idoso para a cena. Enquanto o movimentam pelo ar, o homem fala.]

VELHO: São todas histórias muito curtas. Pedaços inúteis de histórias e de gente. Coisas sem pé, nem cabeça. Ninguém existe por inteiro. Nem vocês que são jovens. Nem vocês são completos. São personagens perdidos, inúteis, sem história nenhuma. Foram abandonados, jogados fora e não servem para nada. [Irritado] Me coloquem logo no chão, ora. [Eles o colocam no chão, mas são obrigados a sustentá-lo em pé. Os atores o manuseiam como se ele fosse um boneco. O velho observa a platéia, atentamente] O rapaz recém-chegado está melhorando rapidamente. Ainda não fala, mas já articula alguns sons. [Outro tom] Vocês precisam parar de mimá-lo.
PERSONAGEM SOLTA: Mimar quem?
COSTUREIRA: O Eduardo!
VELHO: Não dá pra ficar muito com este nhenhenhem. Ele é como os outros. E tem gente em situação muito pior.
COSTUREIRA: Hoje mesmo encontrei duas cabeças... Uma tinha grinalda.
VELHO: Há muito que fazer com toda esta gente. Mas o bom disso é que ele parece estar se recuperando. Claro que não vai lembrar de muita coisa, pois que rasgaram todas as páginas da vida do coitado. E as pessoas quando perdem a memória...
PERSONAGEM SOLTA: Eu também não lembro de muita coisa. Me dei conta disso há pouco tempo.
VELHO: Não tem importância.
COSTUREIRA: Pobrezinha, eu acho que ela era uma garçonete de um vaudeville. O senhor não acha?
GUARDIÃO: Melhor não imaginar muita coisa.
COSTUREIRA: Mas não somos todos imaginários. Ué! Onde está a valorização do sonho, da fantasia, da ficção?
VELHO: Não é tão mal assim não se saber quem é. Existe até um pouco de graça nisso. No meu caso, vocês é que me fazem ter sentido. Sem vocês eu estaria morto. E o que não se sabe, se inventa. E o que falta, acrescentamos. E o que não faz sentido, não faz sentido, ora bolas.
PERSONAGEM SOLTA: E quando não se sabe nada?
VELHO: Melhor ainda. Começamos do zero. Vá inventando a vida, uma narrativa qualquer.
COSTUREIRA: Ela só fala em toalhas de mesa.
VELHO: Todos são narrativas inventadas, não sabia? Desde o mais pobre ao mais rico. São invenções que precisam ser inventadas a cada manhã.
COSTUREIRA: Muito filosófico isto.
GUARDIÃO: Ele é experiente, sabe o que fala.
VELHO: [Apontando para o público] E eles? São de verdade mesmo?
GUARDIÃO: São. Vieram de longe para ver.
VELHO: [Observa] Como parecem reais!
PERSONAGEM SOLTA: Eles são reais.
VELHO: É o que estou dizendo. De tão reais parecem... reais. Também parecem ficção. Desde quando a realidade deles acabou?
GUARDIÃO: Não sabemos se acabou. Estão perdidos, por isso vieram aqui.
VELHO: [Irônico] Ah, então o mundo real acabou... e eles perderam o sentido. Viu como é bom não ter narrativa, nem história, nem fábula nem nada? E eles vieram ver o museu dos restos podres, os restos mortais das histórias imaginadas? [Pausa] Para quê?
COSTUREIRA: Eles pagaram a entrada.
VELHO: Eu sei que pagaram a entrada. Mas por que vieram agora de última hora?
COSTUREIRA: Acho que não têm pra onde ir.
PERSONAGEM SOLTA: O shopping é perigoso.
GUARDIÃO: Acho que não têm religião.
VELHO: Estão confusos. Querem ver o que sobrou da ficção humana, querem nos ver apodrecendo? Como foi que nos descobriram?
PERSONAGEM SOLTA: Todo o mundo já sabe.
VELHO: Nunca se preocuparam conosco. Por que agora...?
COSTUREIRA: Talvez sejamos importantes... já fomos obras de arte.
VELHO: Somos quase refugiados de guerra. Faz anos venho me escondendo deles, tentando restaurar os pedaços vivos que sobraram das histórias.
GUARDIÃO: Todos somos muito agradecidos.
VELHO: E agora aparecem. Podem virar monstros de repente. Podem arrancar sua perna. Podem apagar sua história. [Outro tom] Vocês viram o Eduardo. Viram como ele foi trazido aqui. Um boneco morto, sem pés, nem mãos, sem nenhuma procedência. Foi encontrado na rua, jogado numa calçada. Hoje ele não fala.
GUARDIÃO: Dizem que o Eduardo era um pai de família.
VELHO: Um morto-vivo, nem sabe quem é.
GUARDIÃO: Logo ele vai se lembrar.
VELHO: Nem mesmo eu sei tudo. Faço de conta que sei. Eles [apontando para a platéia] também fazem de conta que sabem quem são.
PERSONAGEM SOLTA: Talvez estejam procurando algo.
VELHO: Só vão encontrar porcaria. Mas deixe-os olhar. Somos uma espécie de atração turística. Mas não deixe que eles interajam com vocês. Nada dessas coisas interativas do teatro antigo. E não tirem a roupa, por favor. Fiquem longe deles. [Outro tom] Me levem para dentro. Tenho que cuidar da luz para a próxima cena. [Eles o carregam para fora. Colocam-no sentado à mesa de luz. Ele acende e apaga as luzes aleatoriamente. Escuro.]

VELHO:

Neste armário estão guardados Todos calmos vem dormindo
Os pertences de um dia. Civilização congelada
Olha que a gente se olha Dorme e re-dorme tranqüila.
Olha que a gente se olha Personagens de pedaços
São as cinzas de peças e de algodão.
De um homem revivido
Uma mártir desdobrada Olha que a gente se olha
Uma cadeira de plástico Olha que a gente se olha
Uma toalha bordada
Uma coroa de vime
Um dramaturgo sem nome
Um corifeu masoquista
Uma megera domada
Um saltimbanco se avista.

Olha que a gente se olha
Olha que a gente se olha

Nesta casa
Está segura a vida presa
Dos teus entes mais queridos.
São teus restos de bobagens
Feito cera ou de vidro.

Olha que a gente se olha
Olha que a gente se olha


[Personagem solta canta:]

Agora que essa sombra
Adora o sono das horas
É melhor sonhar

Demora pelo mundo afora
Sua luz devora
O que a paz deixar

COSTUREIRA: Que bom se a paz deixar
Que bom se a luz brilhar
Que bom se o sol queimar
Que bom se o sal salgar
Que bom

PERSONAGEM SOLTA:
Assola o vento lá fora
No seu sono embora
Quis dormir demais

COSTUREIRA: Que bom se a paz deixar
Que bom se a luz brilhar
Que bom se o sol queimar
Que bom se o sal salgar
Que bom





Mão Mão
Fiel companheira Risonha
Mão
Cansada
Pega Mão
Alisa Deseja
Acorda Mão
Afia Palmada
Espreme Mão
Enterra Escreve
Encontra Mata
Avia Apaga

Manipula Mão
Corta Fiel companheira
Empurra
Acena
Esconde
Bate
Luta
Furta
Enrola
Torce
Aplaude
Toca

Mão
Perdida
Cega
Acena
Mão
Tremida
Afunda
Lava
Mão
Despida

Mão
Enluva
Mão
Suada



TODOS:
Muito bem
Muito bem
Encontrada morta
Ela agora mostra a cara
Faz de conta que não pára
Que não sabe que se foi

Josycleine
Josycleine
Era uma dama uma
uma estrela
Prostituta de bordel
Mas agora está sem forma
Nunca antes na memória
Ela agora nos espreita
Faz de conta que não pára
Faz de conta que não jaz



Mas de todo seu silêncio
tendo velho o seu dilema
de ter feio
o seio, a boca, a face oculta
da cidade
Esta moça da cidade.
Não passava por aqui
Esta moça da cidade
Não passava por aqui
Por aqui por aqui
Por aqui por aqui

Muito bem
Muito bem


PERSONAGEM SOLTA: Eles são de cera? [Pausa] E por que ficam sentados e não pulam e não correm pra lá e pra cá? [Os atores olham para o público, como se fosse para conferir] Tenho certeza que são de cera. Não fica do outro lado da rua este museu? Não é lá que tudo é muito real, e que de tão real tudo parece mentira, e inacreditável, e tudo é inconcebível, e inaceitável, e insuportável e terrível? Ouvi falar que estão cansados de serem reais e que estão ávidos pelos contos de fadas. [Atores olham novamente para a platéia, com discreta surpresa] E que são frágeis, que quebram à toa. Não são duráveis como a gente. Eu não sou de papel machê mas duro uma vida inteira. E que de tão frágeis vivem amedrontados por seqüestradores, traficantes, balas perdidas, impostos, aluguéis, condomínios, divórcios. Mas tudo parece tão tranqüilo em seus rostos. Têm um rosto calmo, um semblante alegre. Eu diria até que são felizes. Têm uma bela fisionomia. Parecem santos de igreja, embora os santos sejam feitos de outro material - uma camada de gesso, outra de santidade, uma camada de gesso, outra de santidade. Também se parecem com personagens importantes, como reis e rainhas, como cavaleiros e piratas. Não creio que o mundo real tenha se acabado e que eles, sem rumo, vieram parar aqui. Acho que eles estão mentindo. O que, afinal, vieram fazer aqui? Será que vieram atrás do Eduardo...?
VELHO: Não se preocupe muito com eles. Faça de conta que existe uma quarta parede.
Inventaram isto faz tempo para proteger os atores.
PERSONAGEM SOLTA: Não os vejo como uma ameaça.
VELHO: E não são. Mas são reais. Reais demais para meu gosto.
PERSONAGEM SOLTA: Talvez precisemos deles.
VELHO: Sim, mas é melhor não deixá-los saber.
PERSONAGEM SOLTA: Eu até que me sinto melhor agora. Sinto-me bem, perambulando pelas fábulas. Parece que ganhei um sentido, uma razão de ser. Mas me incomodam estes rostos.
COSTUREIRA: [Entra com sua bolsa a tiracolo. Olha a platéia Fixamente] Eu quero ir com eles!
PERSONAGEM SOLTA: Com eles? Está louca?
COSTUREIRA: Sim, eles são muito interessantes e atrativos.
PERSONAGEM SOLTA: Atraentes?
COSTUREIRA: Eu disse: “atrativos”. Posso ser real, assim como eles, como Pinóquio e tantos outros...
VELHO: Estas coisas não acontecem na realidade.
COSTUREIRA: Como não? Veja como são reais e lindos e inteligentes... Posso sair com eles, e ninguém nem vai notar.
PERSONAGEM SOLTA: Claro que vão notar. Você é diferente.
COSTUREIRA: Pode ser até que gostem de mim.
GUARDIÃO: Pode levar a peruca se quiser.
COSTUREIRA: Muito obrigada, mas não vou precisar de peruca
nenhuma. Chega de encenações e de fantasia. Quero viver uma vida normal, real.
VELHO: E por que você acha que eles estão aqui? Ah se eles pudessem passar para o lado de cá, viriam correndo. Mas não podem, assim como nós não podemos passar para o lado de lá.
COSTUREIRA: Não é justo. Se Pinóquio podia por que eu não posso? Estou cansada de reviver estes pedacinhos minúsculos de histórias.
GUARDIÃO: Você nem tem roupa pra ir.
COSTUREIRA: [Sai chorando]
VELHO: Deixe-a. Ela vai entender.
GUARDIÃO: Faz tempo ela vem flertando com eles. Acha que pode tornar-se real, e viver a realidade do outro lado. Imagina como deve ser difícil viver lá fora, contas pra pagar, trânsito, paixões...
COSTUREIRA: [em off] Eu já estive apaixonada.
VELHO: Eles próprios já não agüentam mais, veja como estão desesperados. Tanto que estão aqui. Precisam de um lugar seguro. Por muito tempo esqueceram-se dos fragmentos da imaginação e perambularam à toa. E agora põem a cabeça no travesseiro e nem dormem mais.
PERSONAGEM SOLTA: Esbofeteando-se todos os dias. De manhã já estão cansados.
VELHO: [Olha curioso para ela]
PERSONAGEM SOLTA: Lembrei-me de algo agora.
GUARDIÃO: Da minha parte estou feliz em resgatar o pouco que sobrou. Pode ser útil no futuro. Podemos fazer uma arqueologia das narrativas. A humanidade gosta das ciências. E aqui a vida brota nos lugares mais inóspitos. Cientistas têm fixação pela vida.
VELHO: Tudo está bem, mesmo que estejamos vivos por um momento. E com licença que eu vou morrer lá fora. Acho horrível morrer em cena. [Ele sai]
PERSONAGEM SOLTA: [Surpresa] Eu era uma garçonete!
COSTUREIRA: Eduardo poderia ficar sem história. E não saber quem é, mas hoje ele é muito respeitado e passa bem. Surgiu do nada, mas agora tem nome e começa a ter sentido aos poucos. Ele ainda não fala, pois ficou traumatizado. Mas muito em breve vai ter vida novamente. Sim porque você vai comigo, Eduardo. Vamos os dois nos juntarmos a eles. Olha como eles nos chamam! Vamos os dois viver a realidade nua e crua. Chega de ilusões e simbologias. Chega de metáforas e alegorias. Vamos viver o real e todas as grandes emoções que ele pode nos dar. Ai! nem posso acreditar! Vou parar de conviver com estes fragmentos todos, estes dejetos da imaginação alheia. Este lugar é um esgoto! Vamos ser eternos.

PERSONAGEM SOLTA: [Entrando] Dizem que nem os próprios vivos são vivos realmente. O Ancião já morreu, e você nem notou.

PERSONAGEM SOLTA:

Personagem solto
entre escombros
ele morre viva morre
ele/ela dorme
afoito/louca/louco
vive nas ruínas.

GUARDIÃO:

esta história que me deste
era vidro e se quebrou
mas a luz descobre
lamparina a gás
se faz
esta luz ausculta
esta luz te busca
numa história que passou

TODOS:

Pobre de mim
Pobre de ti
Pobre de mim
Pobre de ti
Pobre de mim
Pobre de ti
Um recurso pobre
Um recurso podre
esta vida encobre
esta vida sobre



Soberano
Meu engano
personagem, peça,
ato, cena, fato
falecida
só nos resta
um farol de esquina
em estado de putrefação

COSTUREIRA: [Desesperada] Eu preciso ir! [Movimenta-se em direção à platéia]
PERSONAGEM SOLTA: Eles já estão quase indo embora. Eles sabem que as cenas se apagam, que as histórias terminam.
COSTUREIRA: Por que vieram então? Só pra nos deixarem iludidos?
GUARDIÃO: Vieram se proteger da chuva. Mas são eles que determinam um fim. É quando vão embora para suas casas. Alguns têm carro, outros vão de ônibus.
COSTUREIRA: Não podemos deixá-los ir embora então. Tenho muitos planos, e acho que posso ser útil. Sei costurar. [Pausa] Por que vieram então, se vão ter que ir embora assim de repente?
PERSONAGEM SOLTA: Quem sabe um dia eles fiquem para sempre...
GUARDIÃO: Uma vez esqueceram um guarda-chuva.
COSTUREIRA: Façam alguma coisa. Não podemos deixá-los ir. Podemos trancar a porta.



[Luz cai em resistência.]

(Esta peça foi baseada na montagem "Museu de Cera", desenvolvida no projeto Projeto de Ensino: Montagem e Encenação Teatral, Núcleo de Formas Animadas – Curso de Artes Cênicas
Universidade Estadual de Londrinae contou com a colaboração de Rosa Lucimara das Dores, Werner Schwartz e Renata Reis


2006

A GRALHA AZUL OU O ÚLTIMO JOÃO

Fernando Stratico


[Floresta. O cenário, nada realista, representa a mata de pinheiros. Vários troncos de árvores se entrecruzam formando uma grande clareira. No centro do palco há um grande baú velho de madeira]


GRALHA: [Cantando] Em pé, em pó
Em cima dos ares
Eu sei, eu só
Só quero voar

Voei, voou,
Voaste também
Eu vôo, tu voas
Ele vuuuuuuuuu.

Ninguém me vê
Azul no céu azul.
O quê, cadê?
Os ares
Pomares
Cadê?
Viu? Mil? Barril?
Lingüiça de cabra
Me acaba.
Desvairada
Ó, pó! Só voei!
Segui borboletas
Não vi nada
Nem bem-te-vi.

Aonde?
O sol
Vem de cima
É lógico
Em rima
Do verso
De mim
Em pé
Em pó
Não só
Bate as asas
Um quê de não sei
De voar simplesmente
Cansei
De repente
Cantei
Vivi mis amis
Eu vim de Parri
Passar fome aqui
É mesmo
Estou zonza
Estou vendo formigas
Um pé de mamão
Dois pés de abacate
No céu, no alto
Tem copa de espinhos
Espinhos? Não, boba!
Espinhas? Não, boba!
Pinhas!
Pinha, pinha, pinha!
Pinta a pinha
Prima apina
Pinga a pinha
Pim!
No alto do pinheiro
Quem vai lá?
Eu vou
Vou? Vai!
Eu vou.


[falando] Chega de brincadeiras. Agora vou dar um jeito. Então eu vou voar e trazer aqui em baixo um montão de pinhas. Vai depender do pinheiro. E se não tiver? Pensa que tem pinhão toda hora? Mas... algo me diz que está cheio. É instinto. Coisa de passarinho. Então lá vou! Vou logo que estou com fome. [Ao público] Vamos todos, ora. Não agüento subir, estou sem energia. Vá você mesmo. [Pausa] Então eu vou. [Ela voa. Um homem entra logo em seguida, carregando uma espingarda]

JOÃO: Onde digo eu. Estou com fome. Não encontrei nada até agora. Será que vou ter que comer abobrinha de novo?
GRALHA: [Aparecendo] Quem sabe?!
JOÃO: O quê? Um passarinho?
GRALHA: Uma Gralha-Azul legítima!
JOÃO: O quê? Azul? É pra já! [Aponta a espingarda, atira. A Gralha surge noutro lugar]
GRALHA: Azul! [Some]
JOÃO: Ora...
GRALHA: [Aparecendo] Blue!
JOÃO: [Atirando] Chumbo!
GRALHA: Chumbo!
JOÃO: Azul.
GRALHA: Pare de me imitar.
JOÃO: Que passarinho estranho.
GRALHA: [Cantando] Estranha dor
Estranho sentimento
Estranho quando
Me miram a espingarda.

JOÃO: Estou ficando zonzo. Onde foi que parei? Ah, sim, eu estava caçando.
GRALHA: Fugiu.
JOÃO: Como é que você sabe?
GRALHA: Sei que está triste, deprimido, etc, etc. Eu sei. Voei.
JOÃO: Voou onde? Em cima de casa, por acaso? [Ele esquece-se da espingarda]
GRALHA: Sei de tudo sobre você.
JOÃO: [Com raiva] Ora... você está me gozando. [Faz que vai jogar a espingarda]
GRALHA: Socorro! Sou ave. Avestruz. Socorro! É agora! Adeus! Sem mais... [Ela finge que morre]
JOÃO: Acho que acertei. Quem disse que eu fugi? Não disse que eu sou inteligente? Consegui. Matei.
GRALHA: Acho que caiu por aqui. Quem sabe ali, debaixo daquela touceira.
JOÃO: Ah, sua gralha sem graça! Por que você não some?
GRALHA: Porque tenho que voar bem alto até a copa do pinheiro.
JOÃO: Do meu pinheiro?
GRALHA: Do seu pinheiro.
JOÃO: Continue.
GRALHA: Então espere. Lá vou eu, buscar pinha.
JOÃO: Eu gosto de pinhão cozido.
GRALHA: Como cru. Não tenho fogareiro.
JOÃO: Deve ser bom do mesmo jeito.
GRALHA: Confesso que falta um pouquinho de sal. Tenho a pressão baixa.
JOÃO: Eu tenho aqui, para atirar nos moleques que vem roubar frutas.
GRALHA: Vejo que o senhor é prevenido.
JOÃO: Não. É costume. Gosto de chupar com laranja.
GRALHA: [Falsa] Não sei onde está o pinheiro. O senhor me pegou na conversa e acabei me esquecendo.
JOÃO: Desculpe. Olha ele aí. Em cima da gente.
GRALHA: [Falsa surpresa] Oh, é mesmo, como pude. Estou zonza de fome. O senhor atrasou o meu almoço. [Ela voa. Uma grande pinha cai no palco, espatifando-se]
JOÃO: [Aponta a espingarda em várias direções] Quem foi? Tentaram me matar.
GRALHA: Não, seu João. Foi a pinha que caiu.
JOÃO: Foi você, sua gralha!
GRALHA: Galha-Azul, não se esqueça.
JOÃO: Foi você que tentou tirar a minha vida, não foi?
GRALHA: Eu não! Só queria tirar a pinha do galho. O senhor, como é muito inteligente, ficou bem em baixo.
JOÃO: Ah, eu tinha me esquecido...[Ele aponta a espingarda para a Gralha]
GRALHA: Deixa disso, vai. Vamos almoçar.
JOÃO: É agora!
GRALHA: Oh, Deus! Não tenho sossego.
JOÃO: Quieta! Não me atrapalhe!
GRALHA: Faça o que quiser. Estou com fome. Depois o senhor vai ter que arcar com as conseqüências.
JOÃO: Quieta! Senão não consigo.
GRALHA: Estou quieta. Imagina se eu quero que o senhor fique nervoso e que acabe errando a pontaria?... Por isso é preciso não atrapalhar mesmo. O senhor tem sal?
JOÃO: Hã?
GRALHA: Sal.
JOÃO: Sal?
GRALHA: É. Lembra? Com laranja...
JOÃO: Só um minuto.
GRALHA: Preciso de sal depressa, por favor. Rápido! Ande logo!
JOÃO: [Tirando o sal do bolso] Aqui. Toma!
GRALHA: Não consigo pegar. O senhor tem que abrir o saquinho. Já se esqueceu que eu sou passarinho?
JOÃO: Não. Não esqueci.
GRALHA: Então abra o saquinho. Vou pegar com o bico.
JOÃO: Está bem. [Deixa a espingarda] Você enche!
GRALHA: Encho? [Aliviada] Ufa!
JOÃO: Quanto pinhão.
GRALHA: É muito só pra mim. O senhor podia comer também. É servido?
JOÃO: Sim, eu sou. Estou com muita fome. Não cacei nada. Sempre venho pro mato e não trago nada. Só fósforo, sal e uma faca.
GRALHA: Que ótimo. Pode servir-se
JOÃO: Só como cozido.
GRALHA: Ah. Mas a gente cozinha. Vamos fazer uma fogueira. A gente assa.
JOÃO: Pode ser.
GRALHA: Fica uma delícia. Ainda com este friozinho... Só falta o chimarrão.
JOÃO: Boa idéia.
GRALHA: [Muito alegre] Então vamos acender a fogueira.
JOÃO: Isso. Onde tem gravetos?
GRALHA: Ali. Que delícia!
JOÃO: Tem pouco graveto aqui.
GRALHA: Pouco nada. Acenda!
JOÃO: Calma. Não tem pressa.
GRALHA: Estou até emocionada. Vamos comer pinhão assado.
JOÃO: Espero que fique bom.
GRALHA: Vai ficar uma delícia.
JOÃO: Vamos por fogo.
GRALHA: Risca o fósforo. Cinco, quatro, três, dois, um...
JOÃO: Acendeu! [O fogo ilumina toda a cena] Lembro de quando eu me mudei pra cá. [Pausa] O que foi?
GRALHA: Já ouviu falar em flashbacks? - Quando as pessoas morrem.
JOÃO: Faz muito tempo. Eu cheguei correndo e disse:...
GRALHA: Um momento! Nesta história quero fazer o papel de ave aprisionada.
[Surge uma gaiola para a Gralha. Ela canta durante a cena]
JOÃO: Mulher, você não sabe o que eu encontrei.
APARECIDA: Já sei. Encontrou serralha de novo. João... quantas vezes eu já te disse que não é pra trazer mais serralha? É capaz de fazer mal...
JOÃO: Não é serralha, não. É melhor.
APARECIDA: Chuchu?
JOÃO: Não, mulher. Você só pensa em comida.
APARECIDA: Pois claro, homem. Vivo preocupada com o que vou por na panela.
JOÃO: É outra coisa. Você não vai acreditar.
APARECIDA: Então nem conte.
JOÃO: Sabe o que eu encontrei?
APARECIDA: Não, João. Não sei. Diga logo, por favor.
JOÃO: Encontrei um tesouro.
APARECIDA: [Com simplicidade] Ah, é? Que bom.
JOÃO: É! Bem grande! Precisa ver. Tem de tudo. Parece uma cesta de natal.
APARECIDA:Ah, sei. Que maravilha, né.
JOÃO: É maior. Cheio de riquezas.
APARECIDA: [Irritada] Quer parar com isso? Chega! Pelo que eu vejo você endoideceu de vez. Se pelo menos você ficasse lá, cuidando dos cabritos, seria melhor, podia ficar louco à vontade.
JOÃO: Vim contar pra você, meu bem.
APARECIDA: Eu não quero saber. Vai, homem! Quer perder o emprego arranjado com tanto sacrifício?
JOÃO: As cabras tão pastando.
APARECIDA: Eu sei. Eu sei. Mas precisa que você olhe. Foi por isso que o dono te contratou. Pra que não suma nenhuma.
JOÃO: Elas são boazinhas. Não vão longe.
APARECIDA: [Gritando] Vai. Antes que eu perca a cabeça.
JOÃO: [Vai saindo] Tem até um colar...
[Pausa]
APARECIDA: [Gritando] João!
JOÃO: O que é?
APARECIDA: Volte aqui.
JOÃO: Por que?
APARECIDA: Porque quero saber uma coisa.
JOÃO: [Voltando] O que é?
APARECIDA: Você está falando sério?
JOÃO: O que?
APARECIDA: Ó, homem! O tesouro... É mesmo verdade? Tem até um colar?
JOÃO: [Entusiasmado] É sim, Cidinha. Tem de tudo quanto é jóia. Tem até um colar.
APARECIDA: De que é feito?
JOÃO: De umas bolinhas brancas.
APARECIDA: [Suspirando] Bolinhas brancas? Que brilham?
JOÃO: É!
APARECIDA: Será que são pé-ro-las?
JOÃO: Acho que é, Aparecida. Tem tanta bolinha...
APARECIDA: Que mais que tem?
JOÃO: Ih, tem tanta coisa... você sabe como eu sou esquecido. Por isso vim correndo lhe contar.
APARECIDA: Procure se lembrar.
JOÃO: Tem muita coisa. Tem anel de tudo quanto é tamanho. Olha aqui. [Ele mostra o dedo]
APARECIDA: [Assustada] Meu Deus! É verdade!
JOÃO: Claro que é. Serviu certinho.
APARECIDA: Acho que eu vou desmaiar.
JOÃO: Eu, sim, quase desmaiei na hora que vi.
APARECIDA: Como foi que você achou?
JOÃO: Você sabe... cuidar de cabrito não é fácil. Eles andam por tudo quanto é canto. Pois não é que uma cabrita se enfiou no meio de umas pedras, que até eu fiquei com medo de ir até lá! É um barranco bem alto, se cair, adeus. E ela achou um buraco que parecia uma gruta bem pequena. Quando eu vi, a cabrita estava deitada em cima do baú.
APARECIDA: Meu Deus!
JOÃO: Um baú brilhante de metal. É tão pesado que não consegui tirar do lugar.
APARECIDA: Deus do céu! E agora?
JOÃO: Fui eu que encontrei.
APARECIDA: Mas é dos outros.
JOÃO: Como? Por que é dos outros?
APARECIDA: Porque está na terra dos outros, ora. É do doutor.
JOÃO: Não. É meu.
APARECIDA: É do homem, João.
JOÃO: É meu. Fui eu que encontrei.
APARECIDA: E como você vai tirar do lugar?
JOÃO: Acho que... com um trator.
APARECIDA: E onde, e de quem você vai emprestar o trator?
JOÃO: Do doutor.
APARECIDA: Ele vai ficar sabendo.
JOÃO: Mas é meu. Fui eu que achei.
APARECIDA: Só se a gente comprasse.
JOÃO: Comprasse o que?
APARECIDA: A terra.
JOÃO: Você tá ficando louca?
APARECIDA: Não.
JOÃO: E dinheiro, mulher?
APARECIDA: A gente vende o que tem dentro do baú, ora.
JOÃO: Será?
APARECIDA: Depois a gente vai e compra aquele pedaço de terra do doutor.
JOÃO: É. É mesmo.
APARECIDA: E tem mais... Deixa eu ver... duas galinhas e seis pintinhos, um taxo, três panelas e um caldeirão...
JOÃO: É pouco demais, Aparecida.
APARECIDA: não é não, João. A gente vende tudo. Até o medalhão da mamãe.
JOÃO: Tá bom. Vamos ver se dá.
APARECIDA: Mas esta gralha eu dou.
JOÃO: [Com dó] Cidinha... Ela era o nosso tesouro.
APARECIDA: Sim, senhor. Vou dar pra filha da vizinha. Ela gosta.
[Aparecida pega a gaiola com a Gralha e se dirige até a jovem]
APARECIDA: Eu sei que você gosta... Como nossa vida vai mudar, eu trouxe.
LETÍCIA: [Radiante] Obrigada! [Pega a gaiola. A gralha canta] Que lindo! Como pode existir?
APARECIDA: Não sei. Até outro dia.
LETÍCIA: Até, Dona Aparecida. Muito obrigada!
APARECIDA: De nada. Dá um abraço na sua mãe quando ela voltar.
LETÍCIA: Será dado.
[Aparecida e João saem. Letícia permanece segurando a gaiola. Ela olha vislumbrada]
LETÍCIA: [Chamando] João!
[João entra]
JOÃO: [Vendo o passarinho] Credo! Um passarinho numa gaiola...
LETÍCIA: Viu só?
JOÃO: Você conseguiu.
LETÍCIA: Eu te falei que eu ia ganhar. Ela é uma mulher de bom coração.
JOÃO: Não sei se quem tem bom coração prende passarinho... Vive com aquelas alucinações do baú com o tesouro...
LETÍCIA: Não deviam interná-la. Não faz mal a ninguém.
JOÃO: E o que você vai fazer com isto?
LETÍCIA: Agora ela é minha. Não é, dona Gralha? O que a senhora acha?
[A gralha observa]
JOÃO: A coitada deve achar que somos loucos.
LETÍCIA: Tudo está bem, dona Gralha. [Ela abre a gaiola] Pode ir.
[A gralha voa alegre e pousa]
JOÃO: Voa! Você está livre agora!
[A gralha canta e voa]
LETÍCIA: Nem sabe mais voar.
JOÃO: Sabe, sim.
LETÍCIA: Como é que pode existir?
JOÃO: Existindo...
LETÍCIA: Como foi feita uma coisinha assim?
JOÃO: Não gosto quando você começa a fazer perguntas que não se podem responder. Voa, Gralha!
LETÍCIA: É mania. Gosto de perguntar. São só perguntas.
JOÃO: Ao vento. Ninguém pode responder.
[A gralha voa. Os dois acompanham o seu vôo]
LETÍCIA: Tem gente que responde.
JOÃO: Já reparou como todo mundo tem explicação pra tudo? Cada um de um jeito.
[A gralha voa percorrendo toda a cena]
LETÍCIA: Vamos. [Ambos acompanham a gralha]
JOÃO: Onde será que ela vai?
LETÍCIA: Não sei.
JOÃO: Não posso me demorar.
LETÍCIA: Vamos! Ela é ótima. É divertida. Parece que entende.
JOÃO: Aonde vai, dona Gralha? Por favor, tenho que voltar logo.
LETÍCIA: Ela sabe que estamos seguindo.
JOÃO: Claro. Onde nos leva, dona Gralha?
LETÍCIA: Acho que ela está fugindo de nós; isso, sim.
JOÃO: Vamos parar. Para ver se ela pára também.
LETÍCIA: Parado. Quieto!
JOÃO: [Cochichando] Ela parou também.
LETÍCIA: Engraçado... [Pausa] Vamos em frente.
[Elas percorrem a cena]
JOÃO: Estou cada vez mais zonza.
LETÍCIA: Por que?
JOÃO: Não sei onde estou indo. Isto me dá aflição.
LETÍCIA: Estamos seguindo, bobo.
JOÃO: É melhor voltarmos. Faz muito tempo que estamos caminhando.
LETÍCIA: Está com medo?
JOÃO: Não. Só acho que não vamos saber voltar pra casa.
LETÍCIA: Minha casa fica pra lá! [Aponta]
JOÃO: Pra cá!
LETÍCIA: Você está brincando, não?
JOÃO: Claro que não ! É pra cá, sim.
LETÍCIA: Deixa de história, João! É pra lá. Eu lembro. Passamos por ali. Lá adiante nós viramos, depois...
JOÃO: Você está enganada.
LETÍCIA: Não, querida... você está.
JOÃO: Não...
LETÍCIA: Você está nervoso.
JOÃO: Eu? Imagina! Você, sim.
LETÍCIA: É tão fácil voltar.
JOÃO: Então vamos.
LETÍCIA: Claro. É simples.
[A gralha permanece observando]
JOÃO: [Fazendo-se de calma] Bonito por aqui, não?
LETÍCIA: É. Lindo! Eu nem tinha reparado.
JOÃO: Também... ficamos só olhando pra aquela...
[Gralha canta. Ambos levam um grande susto]
LETÍCIA: Ai! Não sei mais nada!
JOÃO: Vamos embora.
LETÍCIA: Como?
JOÃO: Não seja dramática.
LETÍCIA: Você que está fazendo drama.
JOÃO: Eu? [Pausa]
LETÍCIA: Vamos por aqui.
JOÃO: É!
LETÍCIA: Já vi este lugar antes...
JOÃO: Dever ser por aqui mesmo.
LETÍCIA: Demorou mas encontramos. Não vamos contar pra ninguém que nos perdemos. Vão rir na nossa cara.
JOÃO: Claro.
LETÍCIA: Estamos chegando.
JOÃO: Ainda bem que já passou. Já está me dando vontade de rir.
[Elas chegam ao mesmo lugar, onde está a gralha]
JOÃO: [Assustada] Mas como? Estamos no mesmo lugar.
LETÍCIA: No mesmo lugar?
JOÃO: É. Olha aí a gralha.
LETÍCIA: Como pode?!
JOÃO: Estamos perdidos. Parece história de livro.
LETÍCIA: Acho que vou chorar. Nos livros a gente chora, não chora?
[A gralha voa]
JOÃO: [Radiante] Letícia! Ela voou! Vamos também.
LETÍCIA: [Alegre] Vamos!
JOÃO: Vamos, Gralha!
LETÍCIA: Voa, voa, voa!
JOÃO: Não pare, dona Gralha!
LETÍCIA: Pra onde?
JOÃO: Pra casa.
LETÍCIA: Pra casa!
JOÃO: Eu sabia que ela voltaria.
LETÍCIA: Salvos!
JOÃO: Nunca passei tanto medo.
LETÍCIA: Parece que faz anos que estou perdida...
JOÃO: Quem diria... Ela mesma nos salvou desta enrascada.
LETÍCIA: É um passarinho inteligente, não?
JOÃO: É! Parece que entende.
LETÍCIA: Você viu? Ela esperou a gente no mesmo lugar. Ninguém vai acreditar.
JOÃO: Ficou esperando.
LETÍCIA: [Avistando a casa] Minha casa!
JOÃO: Graças a Deus!
LETÍCIA: [Correndo, pega a gaiola e, num gesto, prende a gralha]
JOÃO: Pronto!
LETÍCIA: Esta gralha é preciosa.
JOÃO: Bichinho safado! Ela que levou a gente pro mato.
LETÍCIA: Levou mas trouxe.
[A gralha canta]
LETÍCIA: Vamos chamar minha mãe. [João beija Letícia com paixão. Letícia ainda segura a gaiola com a gralha. Depois do beijo, Letícia sai de cena rapidamente, João permanece segurando a gaiola]
GRALHA: Não se esqueça que isto é apenas um flasback. O flashback de um defunto! A bem dizer, você, como eu, já está morto. É um João em extinção.
JOÃO: Acho que eu devia ter beijado mais em vida. Não aproveitei o suficiente. Devia ter tido outras amantes; não só esta minha vizinha.
GRALHA: Pois eu acho que esta já foi suficiente. Olha só as suas olheiras profundas! Você está abatido e cansado. Parece um fantasma!

[A gralha deixa a gaiola e voa tranqüila. João sai]

GRALHA: Sinto-me empalhada!
[A Gralha entra para dentro do baú. Entra um homem e um garoto. Eles observam o baú]
PAI: [Retirando a Gralha (Empalhada) do baú] É da família dos passeriformes.
JOÃO (GAROTO): O que é isso, pai?
PAI: É o nome dela.
JOÃO (GAROTO): Mas o nome dela não é Gralha-Azul, pai?
PAI: É também.
JOÃO (GAROTO): Posso pegar, pai?
PAI: Pode, filho. Vamos levar.
JOÃO (GAROTO): [Pegando] É leve, pai.
PAI: É uma ave rara hoje em dia.
JOÃO (GAROTO): Onde vamos colocar, pai?
PAI: Em cima da televisão.
JOÃO (GAROTO): Aqui! [Coloca a Gralha (Empalhada) sobre a televisão]
PAI: João Alexandre ...
JOÃO (GAROTO): Pode deixar, pai. Eu espero.
PAI: Vou comprar uma pizza.
[O pai sai]
JOÃO (GAROTO): Que jóia. Uma gralha-azul legítima. O Everaldo não vai acreditar. Vou ter que trazer ele aqui em casa. [Pega o telefone e disca] Everaldo? Meu pai comprou uma gralha-azul legítima, um passarinho que não existe mais. [Pausa] Está em cima da televisão. [Pausa] É. Empalhada. É jóia. Venha ver. [Pausa] Pede pra ela. [Enquanto o menino fala ao telefone, surge um gato, que observa a gralha com segundas intenções]. Ah, Everaldo... Vem aqui, pô! Mas não custa nada. Só um instantinho... Depois você vai falar que é invenção minha. [A gralha percebe que está sendo observada pelo gato. Fica com medo e dá um grito. O menino olha para ela] Custou! Bem caro. É legítima, né. [Pausa] Acho que não. Só vi uma. Por que? Seu pai vai querer uma também? [A gralha grita de novo] Espera aí, Everaldo. Sai, Leão! É o meu gato. Ele está fazendo barulho aqui. [O gato salta sobre a Gralha que voa e volta para o mesmo lugar, permanecendo estática. O menino se dirige ao gato] Chit, Leão! [Pausa] É? Que tamanho era? [Pausa] E era águia mesmo? [Pausa] Puxa! E deu bicho? Como? Apodreceu? Mas não era empalhada? [Pausa] Será que a minha vai apodrecer? [Pausa. O gato pula novamente sobre a Gralha, que voa desesperada. O menino se assusta ao vê-los] Pára, Leão! A gralha, Everaldo... O gato está correndo atrás dela. Pára, Leão! É, verdade! Tchau, Everaldo. Depois eu ligo. [Para o gato] Psiu, psiu, psiu, Leão! Vem, Leão! [O gato pára. A Gralha continua voando. O Menino segura o gato] Acho que estou maluco. Como pode? Ela está viva! [A gralha volta para o suporte]
GRALHA: Nem acredito que estou viva.[Para o gato] Gato ignorante! Segure-o bem firme, por favor. [Novamente para o gato] Selvagem! Quase fui estraçalhada.
JOÃO (GAROTO): Você não era empalhada?...
GRALHA: Eu explico.
JOÃO (GAROTO): Você era empalhada...
GRALHA: Eu conto tudo.
JOÃO (GAROTO): E o meu pai? [Com medo] Ele vai ficar bravo!
GRALHA: Seu pai?
JOÃO (GAROTO): Por que?
GRALHA: Descobri que eu correria menos risco de vida se me passasse por morta. Então fingi.
JOÃO (GAROTO): Mas e agora?...
GRALHA: De noite eu descansava, saía voando, comia as coisas sobre a mesa, as frutas da cesta. Assim tenho vivido há um ano e meio.
JOÃO (GAROTO): Em cima desta tabuinha?
GRALHA: Sim, mas eu estava dentro do baú. É mais seguro do que viver lá no mato. Aqui, pelo menos, já pensam que estou morta. Só que agora este gato ignorante descobriu o meu segredo.
JOÃO (GAROTO): E agora? Meu pai não vai gostar...
GRALHA: Não tenho culpa. Morrer de verdade, não quero.
JOÃO (GAROTO): Meu pai é nervoso.
GRALHA: Ai, socorro!
JOÃO (GAROTO): E se você fingisse.
GRALHA: O problema é este gato.
JOÃO (GAROTO): É mesmo. O Leão é muito esperto.
GRALHA: [Chorando] Oh! Estou perdida.
JOÃO (GAROTO): [Escutando um ruído] Meu pai está chegando com a pizza!
GRALHA: Seu pai é autoritário, não é? Ele te bate?
JOÃO (GAROTO): Não, nunca me bateu.
GRALHA: Também, com aquele olhar... nem precisa. É capaz de desmoronar até uma parede, só com aqueles olhos de general.
JOÃO (GAROTO): Você nem conhece ele...
GRALHA: E desde quando você vive em cima de sua tabuinha, empalhado?
JOÃO (GAROTO): Eu? Quem disse que eu vivo em cima de tabuinha?
GRALHA: Eu que estou dizendo que você vive empalhadinho, sobre a sua tabuinha de todo o dia. Sou sensitiva.
JOÃO (GAROTO): Há! Andou bebendo?
GRALHA: Vive empalhado, fazendo de conta que não existe. E seu pai adora que você faça de conta que não existe. Assim sem vontade própria.
JOÃO (GAROTO): Faço o que quero, sou dono do meu nariz.
GRALHA: E por que está com tanto medo de seu pai quando ele chegar?
JOÃO (GAROTO): Não estou com medo. Ele não gosta de coisa bagunçada.
GRALHA: Quer dizer que não estava com medo do seu pai, agora há pouco?
JOÃO (GAROTO): Claro que não. Tava só brincando.
GRALHA: Então você fez de conta que estava com medo...
JOÃO (GAROTO): Claro. Vivo fazendo isto...
GRALHA: Pois eu acho que você estava morrendo de medo do general chegar, e te chamar de imbecil novamente. E dizer que você não faz nada direito, que é muito burro pra sua idade, e que também é uma mocinha...
JOÃO (GAROTO): (Furioso) Pára com isso! Não sou nada disso!
GRALHA: Eu também acho que você não é.

[A Gralha fica estática por um momento. Em seguida voa desesperadamente, quase chocando-se com o homem que entra. Ambos levam um grande susto. A pizza é jogada para o alto. O menino, o pai e o gato saem de cena. Gralha sai de cena voando. Entra um ator-rouxinol voando e tocando uma lira]

ROUXINOL: Um dia acordei
Era um canto que vinha
Não sei se me encanto
Demais com este dia

GRALHA: [Entra voando e cantando] Vamos fazer parceria.
ROUXINOL: Tu e eu?
GRALHA: Sempre quis um companheiro.
ROUXINOL: Não sou corvo. Sou poeta.
GRALHA: Deixa de ser besta.
Quero cantar de alegria.
Preciso de acompanhamento.
ROUXINOL: Um rouxinol solitário
Não há meio de ser par
Muito menos de amar
GRALHA: [Falando] Deixa disso, Rouxinol! Você é tão sociável! Não vejo dificuldade nenhuma. Você é tão desinibido.
ROUXINOL: Você que pensa.
GRALHA: Vamos ser amigos. Só amigos. Mesmo porque não pode. Sou uma gralha e você é um rouxinol. Gosto de comer pinhão; você, nem sei do que gosta. Iria dar a maior confusão.
ROUXINOL: Não sei. Gosto de ficar cantando em histórias de príncipes.
GRALHA: Ai, que coisa sem gosto! Vamos viver a vida, Rouxinol!
ROUXINOL: Só sei fazer isso.
GRALHA: Vamos fazer uma dupla. Pode até ser uma dupla caipira. Algo bem regional.
ROUXINOL: Creio que não daria certo.
GRALHA: Não custa a gente tentar.
ROUXINOL: Uma dupla caipira? Será que fica bem?
GRALHA: Por mim... O que importa é cantar. Gosto de cantar. Lalarilalá!
ROUXINOL: Vim da Europa. Sempre cantei sozinho.
GRALHA: Pois agora é hora de mudar. Vamos!
ROUXINOL: Estou enjoado de cantar à toa!
GRALHA: É este o seu problema?
ROUXINOL: Não sei!
GRALHA: Quem disse que os passarinhos cantam à toa?
ROUXINOL: Ninguém.
GRALHA: [Nervosa] Isso é uma grande mentira!
ROUXINOL: Eu também acho. Mas cantemos pois... [Ele toca um acorde]
GRALHA: [Cantando] Iremos a fundo
Buscar um sentido
Pro canto do meu amigo
O rouxinol
ROUXINOL: Iremos à tarde
Também de manhã
Buscar o que é doce
O que faz cantar
GRALHA: Cante pequeno
Cante grande
Em todo o lado
Um dia vira
noite e um mês
vira um ano
ROUXINOL: Eu canto de medo
Canto de pavor
Na Europa era um sossego
Aqui também é
GRALHA: Eu canto de fome
Canto de assobio
Canto de sem graça
No namoro, no meu ninho
Eu canto de carinho
ROUXINOL: Eu canto de saudade
De minha Lisboa querida
Do meu pai, da minha mãe
Canto de dor de barriga
GRALHA: Quem canta mais que a gente
Não imagina o que canto
O que canta tanta gente
Nem imagino portanto
ROUXINOL: Quem canta como eu
Canta desesperadamente
Um adeus
GRALHA: Adeus!
ROUXINOL: [Triste] Sempre um mesmo adeus!
GRALHA: [Falando] Ai que rouxinol mais triste.
ROUXINOL: [Falando] Eu disse que sou difícil.
GRALHA: Eu também não sei por quê. Mas não é por isso que vai ficar aí com um bico deste tamanho...
ROUXINOL: Gostaria de saber por que canto.
GRALHA: Isso é coisa dos homens, dos biólogos. Cante!
ROUXINOL: [Faz um acorde] O sol tem suspiros
GRALHA: [Interrompendo] Solte-se
Cante com vontade
ROUXINOL: O céu tem suspiros
Enquanto escuto uma canção. [Ele pára e ouve]
GRALHA: Que foi?
ROUXINOL: Estou escutando...
GRALHA: Escutando o quê?
ROUXINOL: Uma canção...
GRALHA: Não estou escutando nada.
ROUXINOL: Todos cantam. Não sabia.
GRALHA: Ih. Isto está me cheirando a misticismo.
ROUXINOL: Coqueiros. Riacho. Pingos!
GRALHA: Que estranho...
ROUXINOL: Agora eu sei por que.
[Cantando] Porque canto um adeus.
[Ele sai dramaticamente. A Gralha permanece espantada.]
JOÃO: Não me lembro deste rouxinol, em vida. Na verdade nunca tinha visto um rouxinol.
GRALHA: Não se preocupe. São lembranças minhas e não suas. Flashbacks pessoais. Também tive minhas coisas românticas. Não é só você, viu?! Este rouxinou deixou marcas profundas... [Vendo que Aparecida está entrando] Ih, lá vem a doida, novamente, com o mesmo delírium tremis.
JOÃO: Doidos somos nós, de morrer assim. Ela está vivinha.
GRALHA: No final, quem acabou se dando bem foi ela.

[Em outro plano]
APARECIDA: Ó, homem! O tesouro... É mesmo verdade? Tem até um colar?
JOÃO: [Entusiasmado] É sim, Cidinha. Tem de tudo quanto é jóia. Tem até um colar.
APARECIDA: De que é feito?
JOÃO: De umas bolinhas brancas.
APARECIDA: [Suspirando] Bolinhas brancas? Que brilham?
JOÃO: É!
APARECIDA: Será que são pé-ro-las?
JOÃO: Acho que é, Aparecida. Tem tanta bolinha...
APARECIDA: Que mais que tem?
JOÃO: Ih, tem tanta coisa... você sabe como eu sou esquecido. Por isso vim correndo lhe contar.
APARECIDA: Procure se lembrar.
JOÃO: Tem muita coisa. Tem anel de tudo quanto é tamanho. Olha aqui. [Ele mostra o dedo]
APARECIDA: [Assustada] Meu Deus! É verdade!
JOÃO: Claro que é. Serviu certinho.
APARECIDA: Acho que eu vou desmaiar.
JOÃO: Eu, sim, quase desmaiei na hora que vi.
APARECIDA: Como foi que você achou?
JOÃO: Você sabe... cuidar de cabrito não é fácil. Eles andam por tudo quanto é canto. Pois não é que uma cabrita se enfiou no meio de umas pedras, que até eu fiquei com medo de ir até lá! É um barranco bem alto, se cair, adeus. E ela achou um buraco que parecia uma gruta bem pequena. Quando eu vi, a cabrita estava deitada em cima do baú.
APARECIDA: Meu Deus!
JOÃO: Um baú brilhante de metal. É tão pesado que não consegui tirar do lugar.
APARECIDA: Deus do céu! E agora?
JOÃO: Fui eu que encontrei.
APARECIDA: Mas é dos outros.
JOÃO: Como? Por que é dos outros?
APARECIDA: Porque está na terra dos outros, ora. É do doutor.
JOÃO: Não. É meu.
APARECIDA: É do homem, João.
JOÃO: É meu. Fui eu que encontrei.

[João chora]

GRALHA: Está chorando por que? Você não foi o culpado. Ela era doente.
JOÃO: Acho que foi por minha causa. Por causa da vizinha. Por causa do meu gênio, porque quase não falo. Porque sou calado demais. Acho que foi porque não comprei nunca nenhum colar...
GRALHA: Deixa disso. Pare de se culpar. Ela deve ter batido com a cabeça. E acho que sempre foi desmiolada... desde criança.
JOÃO: Eu gostava dela. Mas o que eu poderia fazer? Ela enlouqueceu. Ninguém segurava, só falava neste maldito tesouro. Não havia remédio que parasse.
GRALHA: Experimentaram choque elétrico? Ouvi dizer que é uma beleza.
JOÃO: Será que havia remédio? E eu não consegui? Por que ela ficou assim?
GRALHA: Porque aconteceu assim. Você é um bom homem, João. Pare de chorar. Me corta o coração ver você assim.
JOÃO: Foram as irmãs dela. Todas eram loucas. Não sei como eu escapei. Eu devia ter levado ela pra longe...

[Um cachorro late ao longe. Entram quatro jovens, carregando o baú. Eles fumam maconha]

SÔNIA: Os vizinhos vão jogar truco esta noite.
[Eles colocam o baú no centro do palco. A Gralha rodeia a cena]
SÔNIA: Não sei qual dos dois é pior: se não saber o que fazer, ou sentir-se doente.
JOÃO (JOVEM): Fiquei sozinho hoje. Lembrei de tantas coisas... É duro permanecer lutando contra um fantasma.
ALFREDO: Desisti da Tânia. Vamos abrir?
[Eles abrem o baú lentamente. A Gralha canta sobrevoando a cena]
GRALHA: Ao som da lira
Deliro de amor
Guardei-me um bocado
Tomei meu cuidado
No fundo do baú.
SÔNIA: Que coisa incrível. E esta Gralha? Este baú estava jogado...
GRALHA: Pode falar... continue.
SÔNIA: Se escondeu? No nosso baú?
JOÃO (JOVEM): É de pirata.
ALFREDO: Ouço este cachorro e me dá vontade de...
GRALHA: [Late] Au!
ALFREDO: Cachorro é um bicho estranho, não é? Me comove, sempre me causa emoções fortes.
SÔNIA: Seja de nojo daquele focinho gelado, ou de amor por ser tão lindo e afetuoso; de irritação por ser tão estabanado e por latir tanto.
JOÃO (JOVEM): E de humilhação, dona Gralha.
GRALHA: Continuem, continuem!
SÔNIA: Não parece um animal; parece uma pessoa.
GRALHA: Ainda bem que parou de latir.
JOÃO (JOVEM): Hoje eu não quis sair. Tenho a impressão que sou mais honesto em ficar comigo mesmo. Poderia inventar uma longa história.
SÔNIA: Ih! Novamente o cachorro voltou a latir. Deve estar com frio. Está amarrado.
ALFREDO: Eu poderia inventar uma história, mas prefiro ficar sozinho me vendo, vigiando, buscando um jeito de lutar contra o que me apavora.
GRALHA: Muito bem. Muito bem. Continue.
SÔNIA: Esse amontoado de flechas agudas que apontam em muitas direções... Nunca disse que o meu coração é um arco que atira flechas envenenadas? Estas flechas me acertam se vacilo.
GRALHA: Interessante...
ALFREDO: Tenho mil motivos pra ser assim ou assado. Se sublimo as coisas é porque me sinto melhor.
JOÃO (JOVEM): E se um dia explodir este monte de monstrinhos?
GRALHA: Explodir?
JOÃO (JOVEM): É um gesto muito sério trancar a porta de um baú e colocar-lhe um
cadeado. [Ele começa a fechar o baú]
GRALHA: Hein, esperem! Vamos com calma. Preciso fazer anotações.
SÔNIA: Não entendeu o quê?
GRALHA: Vocês falando...
JOÃO (JOVEM): Você está por fora.
GRALHA: Claro! Ninguém me explicou nada.
[Eles fecham, num gesto, a Gralha dentro do baú, e o levam para fora de cena. A Gralha volta voando com um envelope no bico]
GRALHA: É terrível ter que dar uma de pombo correio.
[Entra um homem muito velho]
GRALHA: Ei, Seu João.
JOÃO (VELHO): Pois não!
GRALHA: Acho que é para o senhor.
JOÃO (VELHO): Oh! Uma carta. [Ele pega o envelope]
GRALHA: Abra logo! [O velho põe os óculos e começa a abrir] Estou morrendo de curiosidade.
[A Gralha quer ler junto com ele. João (velho) disfarça e dá as costas para a Gralha]
GRALHA: [Sentida] Tive tanto trabalho. Creio que eu mereço escutar pelo menos uma linha.
JOÃO (VELHO): [Voltando-se] Melhor! Vou ler as entrelinhas.
GRALHA: [Feliz] De verdade?
JOÃO (VELHO): Sim. Ouça! [Ele lê] Uma nova carta. Desta vez não é um az de copas.
Fiquem tranqüilos. Somente uma carta. Uma palavra e um suspiro. Não há outro modo de ser. É assim que andam todos, todos os dias. Um desejo e um suspiro. Mas agora é uma carta fora da mesa das cartomantes. Vejo como há saudades de todos. Sei. Há! Uma vontade de rever-nos. De abraçar-nos e confiar. Ninguém vai sumir de repente. Lembro porque já não conto com ninguém neste momento. Cada um de nós voa como o céu num passarinho, e o vento não passa de um suspiro. Onde está você? E o que vê do mundo agora? No ano dois mil combinamos de nos encontrar na mesma esquina. Mas agora me preocupo: não marcamos a hora. Não sei mais a idade de ninguém, nem o que cantam, nem o que dizem, muito menos por que choram. Ainda bem que as crianças virão e eu brincarei com elas. Juntos aprenderemos mil canções e cantaremos o dia inteiro. Beijos, Letícia.
GRALHA: A vizinha... Ah, Seu João, safado! E o senhor vai?

[Aparecida surge em outro plano. Ela retira jóias de um baú]


JOÃO (GAROTO): Eu posso ser um piloto de avião.
JOÃO (VELHO): Já faz muito em ser um escrivão da polícia.
JOÃO (GAROTO): Eu vou ser piloto de avião - de boing.
JOÃO (VELHO): É bom sonhar. Mas vá melhorando a caligrafia. Vai precisar dela um dia.
JOÃO (GAROTO): Também sei desenhar...
JOÃO (VELHO): De nada vai lhe servir.
JOÃO (GAROTO): Sei fazer estórias em quadrinhos.
JOÃO (VELHO): Não me lembro destas estórias em quadrinhos.
JOÃO (GAROTO): É verdade. Inventei um super-herói. Ele pode se tele-transportar. E se divide em dois, quatro, até cem super-heróis. Assim, pode estar em cem lugares ao mesmo tempo.
JOÃO (VELHO): Ah, sim. O Multi-Man. Lembro-me dele vagamente. Ele tinha uma namorada, não tinha?
JOÃO (GAROTO): Tinha, sim – era a Multi-Woman... era americana. Ela também podia se dividir em muitas, e imobilizava os bandidos com a força do pensamento.
JOÃO (VELHO): Acho que conheci algumas mulheres assim.
JOÃO (GAROTO): As pessoas ficavam paralisadas... aí, a polícia chegava e prendia o bandido.
JOÃO (VELHO): E o que aconteceu com este super-herói?
JOÃO (GAROTO): Não sei, parei de pensar nele.
JOÃO (VELHO): Então ele morreu.
JOÃO (GAROTO): Claro que não. Super-heróis nunca morrem.
JOÃO (VELHO): E por que parou de ler livros de estórias?
JOÃO (GAROTO): Porque já estou grande, ora.
JOÃO (VELHO): Qual foi a última estória que você leu?
JOÃO (GAROTO): A estória da gralha. Uma estória sem graça. Coisas de ecologia. A gralha tenta salvar a floresta araucária. É estorinha pra crianças. No final a gralha é extinta. Ela não consegue salvar nada. E acabam-se as gralhas da face da terra. Achei foi pouco! E com isso a floresta também se acabou. Você sabe, né, que as gralhas enterravam os pinhões pra comer depois, não?
JOÃO (VELHO): Sim, eu sei. Não lembrava do final. Ela morre então.
JOÃO (GAROTO): Morre porque não tem mais pinheiro. Não tendo pinheiro não tem gralha, e não tendo gralha não tem pinheiro.
JOÃO (VELHO): Gostei da história.
JOAO (GAROTO): É coisa pra crianças... Estória de menina também. Não leio mais.
JOÃO (VELHO): Onde está o livro?
JOÃO (GAROTO): Sei lá, acho que minha mãe deu pra escola.
JOÃO (VELHO): Deve estar dentro do baú. Dê uma olhada.
[O garoto procura o livro no baú]
JOÃO (VELHO): A floresta araucária se estendia por toda a serra. Aos seus pés cresciam grandes pés de mate, com suas folhas muito verdes e cheirosas. Os troncos dos pinheiros cercavam tudo ao redor, como grandes pilares. Os pinheiros, muito fortes cobriam toda a montanha, e somente nesta região podia-se ver o que realmente era uma floresta de pinhais. Não era tão difícil caminhar entre as árvores. Mesmo assim, era preciso vencer todos os arbustos e galhos caídos do alto dos pinheiros.

JOÃO (GAROTO): Turíbio e um matuto procuravam encontrar a última gralha ainda existente no planeta. Turíbio era um cientista dedicado. Não fazia outra coisa, a não ser pesquisar os pássaros. Sua vida inteira, praticamente, havia sido vivida no meio do mato, acompanhando o comportamento das aves. Turíbio sabia tudo sobre as gralhas. Conhecia o seu canto e entendia muito bem o que as gralhas comunicavam ao cantar. Sabia quando diziam que havia perigo, ou quando diziam que havia comida, ou quando queriam se acasalar. Porém, aos poucos as gralhas foram desaparecendo, e com isso, Turíbio passou a ser o último a ter contato com elas em seu próprio habitat.
JOÃO (VELHO): Pelo que relatavam os moradores daquela serra. Havia uma gralha solitária, habitando a pequena ilha de floresta. Somente uma gralha. A última gralha.

[Surge Aparecida em outro plano]

APARECIDA: Ó, homem! O tesouro... É mesmo verdade? Tem até um colar? De que é feito?
[Suspirando] Bolinhas brancas? Que brilham? Será que são pé-ro-las? Que mais que tem? Procure se lembrar. [Assustada] Meu Deus! É verdade! Acho que eu vou desmaiar. Como foi que você achou? Deus do céu! E agora? Mas é dos outros. Porque está na terra dos outros, ora. É do doutor. É do homem, João.

[Plano de Aparecida apaga-se em resistência. Outro plano]
[Plano dos jovens]

GRALHA: Não sabia que eu era tão importante.
JOÃO (JOVEM): E no final, o Turíbio conseguiu encontrar o último espécime?
GRALHA: Não fale assim de mim. Não sou um último espécime. Sou uma ave enigmática, pouco difundida na literatura, mas muito enigmática.
JOÃO (JOVEM): Ele devia ter desistido. Afinal, era apenas uma gralha.
GRALHA: Era o destino da humanidade. Você não tem consciência ecológica nenhuma, não é?
JOÃO (JOVEM): Há coisas mais importantes pra fazer...
GRALHA: Tais como...
JOÃO (JOVEM): Namorar, por exemplo. Cachoeira. Praia. Cerveja.
GRALHA: Eu sei que você só está me provocando... No fundo sei que admirava o Turíbio e sua persistência.
JOÃO (JOVEM): Tenho raiva dele. Ele devia ter desistido. Eu não seria idiota de ir atrás de um passarinho.
GRALHA: Eu também não faria isso.
JOÃO (JOVEM): E nesse tempo todo, onde você estava?
GRALHA: No galho do pinheiro, ora. Do meu pinheiro favorito. Sabe... as aves têm suas preferências, manias, hábitos... O Professor Turíbio sabia de tudo isso... Bem, se eu soubesse que ele estava me procurando, eu teria facilitado um pouco as coisas... Mas como eu ia saber? Eu estava incomunicável.
JOÃO (JOVEM): Um dia ele sonhou que ele mesmo era um pássaro, sim, um rouxinol.
GRALHA: (Assanhada) Hummm, é mesmo?
JOÃO (JOVEM): E no sonho ele a encontra. Mas era apenas um sonho...
GRALHA: Sei como é.
JOÃO (JOVEM): É apenas uma estória. Nem sei porque me lembro deste maldito livro...

[Outro plano. João segura um colar de pérolas]

JOÃO: Cidinha, eu comprei o colar...
APARECIDA: Agora é um pouco tarde, não acha?
JOÃO: É lindo, do jeito que você queria... Pega! É seu.
APARECIDA: Agora não faz mais sentido. E onde eu iria usar? Aqui neste lugar?!
JOÃO: O que é que tem? Você pode usar aqui mesmo.
APARECIDA: Eu não tenho roupa. Não sei onde puseram as minhas roupas... [Pondo a mão na cabeça] Meu cabelo! Devo estar desarrumada. Por que você veio? Não gosto que venha. Estou feia... estou desarrumada.
JOÃO: Não me importo. Preciso ver você.
APARECIDA: Não tenho muito o que contar... Nem sei o que estou fazendo aqui. Não estou doente. Não sinto dor nenhuma.
JOÃO: Olha o colar... Comprei pra você. Quem sabe você se sinta melhor pondo ele no pescoço.
APARECIDA: [Com raiva] Você também acha que estou doente, não é? Você também acha que estou louca, não é? Pois fique sabendo que não estou louca, não. Estou é muito lúcida. Como nunca estive na vida.
JOÃO: Todos nós queremos que você fique bem, e que volte pra casa.
APARECIDA: Não seja falso. Você está achando ótimo que eu esteja presa aqui. Que eu esteja encarcerada como se fosse uma criminosa. Sei muito bem que você está felicíssimo, porque assim pode ficar à vontade, por aí, se esfregando em todas elas...
JOÃO: Não, meu amor... Não vejo a hora de você voltar pra casa. Até os cachorros estão sentindo sua falta. O Tigre, o Sansão.
APARECIDA: Voltar pra quê? Talvez seja melhor mesmo que eu fique aqui pra sempre. Que eu morra aqui confinada entre estas quatro paredes. Ninguém se importa mesmo. Acho que nem velório haveria; nem enterro. Eu seria jogada no necrotério como indigente, e meu corpo seria vendido pra faculdade, pra cortarem à vontade, e estudarem o corpo da indigente que morreu louca abandonada pela família.
JOÃO: Não fale assim.
APARECIDA: Não é verdade? se fui trazida à força pra cá? Não é isso que você quer?
JOÃO: Eu só quero que você fique boa – que volte a ser como era.
APARECIDA: Eu estou boa, estou ótima. Nunca estive melhor em toda a minha vida. Poderia ir agora mesmo.
JOÃO: Creio que os médicos...
APARECIDA: Tá vendo? Você não quer que eu volte pra casa. E sabe por que? Porque já existe outra morando lá. A sua amante, que agora você trouxe pra dentro de casa.
JOÃO: Não existe mulher nenhuma, Cidinha...
APARECIDA: Melhor pra mim, se você quer saber. Assim, não tenho que lavar nem cozinhar pra você. Não estou nem um pouco preocupada com isto. Volte lá pra ela. Não sei o que você veio fazer aqui.
JOÃO: Vim trazer o colar...
APARECIDA: Na verdade estou ótima aqui. Assisto a todas as novelas. A comida é ótima. Não tenho que cozinhar... e nem lavar a louça. Uma maravilha!

[João permanece segurando o colar. Aparecida sai. Outro plano. Manhã gelada. Professor Turíbio e Matuto, o guia, tomam chimarrão]

TURÍBIO: Eu sabia que não ia ser fácil. Ela deve estar se escondendo de todo mundo. Afinal é a última. Ela deve ter pavor de gente. Ela não sabe que não queremos fazer mal. Melhor assim, melhor que tenha medo dos homens; pelo menos está viva. Que bom seria se fosse um casal; e se estivesse procriando.
MATUTO: Não é um casal não. É uma só.
TURÍBIO: Porque eu ouvi. Não vi, mas ouvi. E era ma fêmea. Uma fêmea sozinha, sem macho nenhum.
TURÍBIO: Pode ser que haja um macho. Ele pode ter aparecido de outra região.
MATUTO: Faz tempo que ela tá sozinha. Os outro morrero tudo.
TURÍBIO: Ela deve ter percebido a nossa presença, e acabou se refugiando em algum lugar.
MATUTO: Ou a Mãe d´Água tá ajudando.
TURÍBIO: Mãe de quem, Josias?
MATUTO: A Mãe d´Água. É um esprito que vive na água. Dizem que é bonita, com cabelo cacheado. Quem for tonto acaba se enveredando pro lado dela, e vai parar no fundo do rio.
TURÍBIO: E o que a Mãe d´Água tem a ver com as aves?
MATUTO: Tem tudo a ver! Ela acha que tudo é dela. É ciumenta, não quer que ninguém mexa. No rio, é pior ainda. Não quer que ninguém pesque.
TURÍBIO: Não creio que ela tenha se importado muito...
MATUTO: Ela se importa, sim. É que os caboco é esperto, acaba enganando ela com presente. Jogando na água pra ela pegar. Qualquer missanga, um pente, mantem ela no fundo, bem ocupada, pra mode não ver.
TURÍBIO: [zombeteiro] E será que ela está ocupada agora?
MATUTO: Com certeza, não. Deve tar se aquentando no sol. Esta geada deixa ela encarangada de frio, e deixa ela nervosa porque a água vira gelo.
TURÍBIO: De fato está muito frio. E este sol de nada adianta. As aves não vão se mexer tão cedo. Nossa amiga deve estar encolhida em algum galho bem alto.
MATUTO: E a outra deve estar vendo a gente. Falei pro senhor que era perigoso. Ela vem catar pinhão também pra comer com farinha.
TURÍBIO: Farinha de quê, Josias? Onde que esta... moça ia encontrar farinha?
MATUTO: Farinha de mandioca, das seva que os home faz na beira do rio. Pra mode sevá os peixe eles joga milho, farinha... mas é ela que come. É ela que se aproveita.
TURÍBIO: Não creio que alguém pesque nesta região.
MATUTO: Pesca rio acima.
[Mãe d´Água, que estava disfarçada como uma enorme pedra, surge de repente]
MÃE D´ÁGUA: Pescam rio acima, e como rio abaixo.
MATUTO: [Apavorado] Minha Nossa Senhora, Virgem Maria Santíssima! Potregei-nos.
TURÍBIO: [Em estado de choque] É ela?
MATUTO: O que o senhor acha? Ela em pessoa!
MÃE D´ÁGUA: Sou eu, sim, Josias da Silva Peroninho.
MATUTO: Minha Santíssima, ela sabe até meu sobrenome.
MÃE D´ÁGUA: Sei, sim. E sei muito mais, porque você vive no meio do mato. Escuto tudo, e vejo tudo também.
MATUTO: Mas não faço maldade com os peixe. E quando pesco é pra comer, ou matar a fome dos fio.
MÃE D´ÁGUA: E pelas moita faz sem-vergonhice com rapariga.
MATUTO: Eu? Foi só uma vez. Não faço mais.
TURÍBIO: O que ela quer?
MÃE D´ÁGUA: Não quero, nada doutor. Homem da cidade... o que faz o cavalheiro no quintal da minha casa?
MATUTO: Ele não quer nada que é seu. Tem tudo na cidade.
MÃE D´ÁGUA: Ele é homem muito vistoso. Muito mais do que você, seu peste. Você me jogou um broxe, mas foi só pra eu não ver você recolher todo o pinhão que havia.
MATUTO: Peguei só um punhado daqui. Foi só pra encher uma panela.
MÃE D´ÁGUA: Mas esse doutor é bonito. Tem cara de quem quer levar todo o pinhal cortado em toras...
TURÍBIO: Oh, não, dona Mãe d´Água. Muito pelo contrário. Sou um defensor da Araucária. Tenho feito tudo para preservá-la.
MÃE D´ÁGUA: Acha que me engana? Não caio nessa conversa.
TURÍBIO: Verdade... Sou ornitólogo. Estudo as aves, mais especificamente a gralha azul. Quando entro na mata, é somente para observar os pássaros. Não toco em nada, não mato nenhum animal.
MATUTO: Verdade. É homem certo. Não quer madeira, nem pinhão, nem peixe, nem nada.
MÃE D´ÁGUA: Fique quieto, da Silva Peroninho. Pois não esqueci as suas safadezas, não.
TURÍBIO: Sabemos que há poucas gralhas ainda sobreviventes. Ouvimos dizer que havia uma ou algumas vivendo por aqui.
MÃE D´ÁGUA: Somente uma.
MATUTO: Não falei! Só tem uma, uma fêmea, uma única morando no pinhal.
MÁE D´ÁGUA: E pra quê quer encontrar o passarinho?
TURÍBIO: Para protegê-lo, é um dos últimos espécimes.
MÃE D´ÁGUA: Pra proteger? [Ela dá uma gargalhada]
TURÍBIO: Sim, somente se encontrarmos esta ave é que podemos tentar fazer alguma coisa para protegê-la.
MÃE D´ÁGUA: [Continua rindo. Joga-se no riacho] Há, há, há!

[Os dois permanecem atônitos]

MATUTO: Ela sabia meu nome...
TURÍBIO: Ela podia ter-nos ajudado.
MATUTO: Ela vive me vigiando...
TURÍBIO: Por que não quis ajudar? Como vamos encontrar a ave?

[Outro plano. João (Velho) prepara-se para uma viagem. A Gralha observa-o de perto, no solo]]

JOÃO (VELHO): Tenho que ir. Ajude-me a fazer as malas.
GRALHA: O senhor vai me deixar sozinha neste bosque?
JOÃO (VELHO): Vou, por que?
GRALHA: Vou sentir sua falta. Não vá.
JOÃO (VELHO): Tenho que ir. Você tem seus amigos. Tem os peixes e as andorinhas.
GRALHA: É difícil. Vai ficar um vazio.
JOÃO (VELHO): Me ajude com a mala. Deixa eu ver o que vou levar. [Ele mexe em panos coloridos] Deixa eu ver... Isto aqui não vai. Não vou precisar. Isto aqui também não. Não vou precisar de quase nada. Nem disto e nem disto. [Põe do lado as coisas] Ah... Isto eu posso precisar um dia. E isto... dá tanto dó de deixar... E isto? Ah, eu gosto tanto... E você?
GRALHA: Eu?
JOÃO (VELHO): Como posso te deixar?
GRALHA: Pois é. Eu estou dizendo.
JOÃO (VELHO): Não posso levar nada comigo. Adeus!
[Entra uma jovem, carregando uma cesta. Ela joga sementes imaginárias. A Gralha come as sementes]

GRALHA: O que vem à frente, não perco por nada desse mundo.

JOÃO (JOVEM): No mundo há portas e mais portas, mas sou conduzido somente por um caminho. Adiante brilha uma luz que sei. Não vejo assim como se vê um holofote. É tênue e carinhosa. Como é silenciosa! Como não se desespera! Brilha! E não fica nervosa. Abre-me esta luz que aporta.

GRALHA: [lisonjeada] Sou uma luz?!

JOÃO (JOVEM): Achei-a voando no meu quarto quando eu lia o livro de Jó. Passava devagar; chamei-a e ela ficou. Abracei então um raio cortante, negando-me em cacos despedaçados. Repartiu-me em mil pedaços. Nunca eu tinha reparado ou prestado atenção em mim. E eu mal sabia que eu era uma fortaleza cheia de traças e teias de aranha.

[A jovem entra por uma porta. A Gralha continua comendo as sementes até que dá de topo com a porta fechada]

Assopra. Leva para o mar. Leva até que se abra esta verdadeira porta. Agora estou no ancoradouro, onde sempre descanso das canseiras do dia. Pesa sobre mim o fogo, pois torno-me como as nuvens densas, que não chovem, não trovejam e que se dissipam a cada minuto. Mas este cais me inunda do prazer de ser contigo.
[A Gralha voa] Veja! Uma estrela! [Voa] Quantas estrelas soltas este céu que navega
leva. [Pausa] Leva e me leva. Leva e me leva. Todos voando em silêncio no céu que
voa e ninguém sabe a direção.
GRALHA: Não sabia que era poeta! [Ele se constrange, e fica enfurecido]
JOÃO (JOVEM): Não sou poeta! Não gosto que ninguém fique bisbilhotando a minha vida.
GRALHA: Não estava bisbilhotando. Passei por acaso, e ouvi. Linda poesia.
JOÃO (JOVEM): Não era poesia. Estava falando bobagem. Coisas sem nexo.
GRALHA: Achei lindo. Demonstra que é um homem sensível.
JOÃO (JOVEM): Não sou sensível!
GRALHA: Ok, não é sensível. Quem me dera saber escrever. Produzir versos – as coisas mais importantes do mundo. Estive sempre preocupada em produzir a prole, e sem sucesso.
JOÃO (JOVEM): Não acho que sejam importantes.
GRALHA: Foi força de expressão. Mas se não são importantes por que está envergonhado de ter escrito?
JOÃO (JOVEM): Não sei. Não é da sua conta.
GRALHA: Mais um peso para carregar consigo?
JOÃO (JOVEM): Sei lá. Não quero pensar nisso.
GRALHA: Não acha que seu bauzinho já está pesado demais? Bem faço eu de me sentir leve e solta.
JOÃO (JOVEM): Não estou preocupado com isso.
GRALHA: [Alertando-o] Olha... de novo está em cima da tabuinha, fingindo que é empalhado.
JOÃO (JOVEM): Vai te fu...
GRALHA: Olha a tabuinha...

[João (Jovem) desaparece. Surgem João (Garoto) e João (Velho), com o livro]

JOÃO (GAROTO): [Lendo] E a Mãe d´Água se afundou no rio em um único baque ruidoso. A água espirrou para fora muito gelada, atingindo os pés do Professor Turíbio. O guia permaneceu atônito por alguns segundos, olhando os círculos produzidos na superfície da água.
JOÃO (VELHO): Como são as coisas... Nem me lembrava mais desta estória. Uma estória boba, sem muito significado... mas ficou gravada. E esta gralha agora faz papel de alma, de superego, sei lá. Logo neste momento tão delicado. Não é sempre que se morre.
JOÃO (GAROTO): Você está morrendo?
JOÃO (VELHO): Segundos fatais. Os flashes mais relevantes... E o que me vem à tona? Uma gralha sem graça, e este baú pesado pra carregar.
JOÃO (GAROTO): Sempre achei que eu morreria ainda novo. Que não passaria dos vinte.
JOÃO (VELHO): A idade não importa nessas horas.
JOÃO (GAROTO): Este é o baú do meu pai.
JOÃO (VELHO): É o baú do meu pai.
JOÃO (GAROTO): Ele vai ficar furioso.
JOÃO (VELHO): Ele vai ficar furioso.
JOÃO (GAROTO): Este baú devia estar no porão da casa. Ninguém pode mexer. Tem coisas dele aí dentro. São coisas importantes.
JOÃO (VELHO): Se são importantes por que estão em um baú, no porão?
JOÃO (GAROTO): Pra ninguém pegar.
JOÃO (VELHO): De tanto escondê-las até ele mesmo se esqueceu.
[Ambos desaparecem]

JOÃO: És um pinheiro, João!
JOÃO (VELHO): És um pinheiro, João!
JOÃO (GAROTO): És um pinheiro, João!
JOÃO: Por que não conseguiu desvencilhar-se deste cheiro de geada, destas manhãs frias de junho? Por que não foi pra Pernambuco ver os parentes distantes? Por que não se livrou deste baú cheio de porcaria?
JOÃO (VELHO): Por que fincou os pés nesta terra gelada? Onde até mesmo a neve cai de vez em quando?
JOÃO (GAROTO): A neve cai e quebra os galhos dos pinheiros de tão pesada. A neve é igual raspadinha, mas sem groselha. A neve cai e fica por meses no meio da mata, sem derreter. O gelo! Mas agora você está morto.
JOÃO (VELHO): Ainda não estou morto.
JOÃO: Não, mas falta pouco.
JOÃO (VELHO): Talvez não falte tão pouco assim. Quem sabe não seja ainda minha hora.
JOÃO (GAROTO): Acho que já passou da hora.
JOÃO: Por mim passava em branco. Não precisava de toda esta aventura das últimas horas.
JOÃO (VELHO): Você quer dizer ‘agonia’ ...?
JOÃO: Gralha, pinhão, a estória do Turíbio... Já nem sei o que aconteceu e o que não aconteceu.
JOÃO (GAROTO): O Turíbio é de mentira.
JOÃO: [Irritado] Eu sei que é de mentira. Não precisa me dizer.
JOÃO (GAROTO): A gralha é de mentira.
JOÃO (VELHO): Fale baixo. Ninguém pode saber...
JOÃO: Acho que ela mesma sabe. Tenho conversado com ela...
JOÃO (VELHO): Você tem conversado com ela?
JOÃO (GAROTO): Eu também.
JOÃO (VELHO): Não acho isso bom.
JOÃO: Não vejo mal nenhum. Mesmo porque não tenho outra opção. Ela não me deixa em paz.
JOÃO (VELHO): Eu até gosto dela... Mas creio que ela exagera um pouco. Disse que sou um João em extinção.
JOÃO (GAROTO): E quer me proteger...
JOÃO: Foi no sentido figurado.
JOÃO (VELHO): Disse que sou o último, na face da terra. Já imaginou?
JOÃO: Claro que ela está zombando da gente. Fazendo troça...
JOÃO (GAROTO): Fazendo o quê?
JOÃO: Troça.
JOÃO (VELHO): Nunca imaginei que meus últimos instantes fossem me dar mais trabalho do que uma vida inteira. Quero apagar de uma vez. Não quero ver o filme da minha vida. Chega. Quero partir em paz. Onde estão os anjos para me acompanhar na travessia. Quero partir depressa. Não tenho mais tempo a perder. Chega de lenga-lenga.
[Enquanto fala surge a Mãe d´Agua em outro plano]
JOÃO (GAROTO): A Mãe d´Água. Minha nossa! Que mulherão!
JOÃO: Fique quieto, garoto. [Pausa. Eles a observam] Ela é muito engenhosa. Levou o Professor Turíbio para o fundo do rio. O homem se deixou levar pelos encantos dela. Por pouco ele não se afogou. Era o que ela queria.
JOÃO (GAROTO): Parece ser boazinha...
JOÃO: Pois não é.
JOÃO (VELHO): Ei, está faltando um de nós.
JOÃO: É mesmo. Onde ele está?
[João (Jovem) entra no plano da Mãe d´Água. Eles se beijam e se acariciam, com volúpia. João entrega o colar de pérolas para ela]

JOÃO (JOVEM): [Entregando o colar] Era um destes que você queria? Aqui está.
MÃE D´ÁGUA: Dizem que você está em coma no hospital. Que está nas últimas, morre não morre.
JOÃO (JOVEM): Quem foi que te falou uma coisa dessas?
MÃE D´ÁGUA: Não importa. Fiquei sabendo.
JOÃO (JOVEM): Você não devia estar assustando o Turíbio na mata? Ele vai pegar sua gralha, vai por ela numa panela e servir com virado de feijão.
MÃE D´ÁGUA: Ela está bem escondida. Ele não vai conseguir achar. E não acho que ele queira cozinhar a gralha. É um homem inteligente...
JOÃO (JOVEM): Ele quer vender esta ave pra algum zoológico no exterior. Vai ganhar uma boa grana.
MÃE D´ÁGUA: Eu não vou deixar. É mais fácil ele querer morar comigo. Pra sempre. Você não quer?
JOÃO (JOVEM): Não posso. Vou começar na delegacia, como escrivão.
MÃE D´ÁGUA: Que mais que você faz?
JOÃO (JOVEM): Não faço nada. Só sei namorar...
MÃE D´ÁGUA: Hummm... estou gostando. E se você morrer? Daqui a pouco?
JOÃO (JOVEM): Você tá louca? Ainda tenho muito o que viver.
MÃE D´ÁGUA: Tomara! Mas, olha... pra mim não faz diferença, se é vivo ou se é defunto.
JOÃO (JOVEM): [Afastando-se] Como assim? Se é defunto?
MÃE D´ÁGUA: Foi só modo de dizer. [Abraça-o]
JOÃO (JOVEM): Com defunto? E por acaso você conversa com defunto?
MÃE D´ÁGUA: Magina! Tenho medo. Ui! Me dá arrepio só de pensar.
JOÃO (JOVEM): Gostou do colar? É de pérola. Imitação, mas é pérola.
MÃE D´ÁGUA: Adorei. Já pus no pescoço. Não vou nunca mais tirar.
JOÃO (JOVEM): Já devia ter-lhe dado faz tempo, mas não conseguia achar.
MÃE D´ÁGUA: Adorei o presente. Quer vir comigo...? Vou lhe mostrar onde moro.
JOÃO (JOVEM): Eu sei que mora no pé da serra.
MÃE D´ÁGUA: Isso mesmo. Mas não sou má como dizem.
JOÃO (JOVEM): Vai querer me afogar.
MÃE D´ÁGUA: Vou lhe afogar de beijos e de carícias.
JOÃO (JOVEM): Eu sei, isso também mata.
MÃE D´ÁGUA: Que homem medroso. Vem.
JOÃO (JOVEM): Sou escrivão de polícia. Não pode.
MÃE D´ÁGUA: Como não pode? Deixa de besteira.
JOÃO (JOVEM): Não sei nadar.
[Ela arrasta-o para o escuro]
[Em outro plano. Sendo sufocado]
JOÃO (VELHO): Preferia não lembrar. Não ver nada e nada reconhecer. Já está se acabando, já está quase no fim. Mas me solta sua Mãe d´Água. Me solta! Me solta! Não acredito nesta mitologia barata. Não vou para o fundo do seu rio. Não vou ser seduzido por uma prostituta sereia, e muito menos por uma iara sem escrúpulos. Me solta, bandida! [João (Velho) se liberta, arrebentando o colar de pérolas com a mão. João (Garoto) observa-o. João (Velho) se recompõe]

JOÃO (VELHO): Por que está me olhando?
JOÃO (GAROTO): O baú...
JOÃO (VELHO): O que é que tem o baú?
JOÃO (GAROTO): O baú sumiu.
JOÃO (VELHO): Não se preocupe. Melhor assim. Tem coisas que não dá pra carregar nem em vida, que dirá na hora da morte.
JOÃO (GAROTO): Mas meu pai vai ficar muito bravo. Há coisas dele também lá dentro. Não são coisas só suas.
JOÃO (VELHO): Coisas suas, minhas ou dele - não importa. E também já arrastei demais este lixo. Que imbecilidade a minha. Não sei por que? Agora não vejo razão... Que idiota fui, arrastando este baú pesado pela vida afora.
JOÃO (GAROTO): O baú é antigo, podia ser vendido pra loja de antigüidades.
JOÃO (VELHO): Não fale bobagem, garoto. Este baú é a sua desgraça. Olha só pra sua cara, como está ficando velho. Olha só como está abatido. E isto por causa de um baú cheio de brinquedos quebrados. Um rinoceronte de plástico, uma girafa... Um jogo de xadrez, um álbum de fotografias, uma carta de amor.
JOÃO (GAROTO): Havia muito mais.
JOÃO (VELHO): Sim, havia muito mais. Teias de aranha, pernilongos, traças... Este é o problema. Se estivesse vazio, não teria a mínima importância.
[João (Garoto) sai. O baú surge em outro plano recortado. João (Velho) ateia fogo ao baú, e observa as chamas. A cena se apaga, enquanto outro plano se ilumina com Letícia. Ela carrega a gaiola com a gralha]

LETÍCIA: Ainda vou soltá-la. Não encontrei o lugar certo. Precisa ser bem longe da cidade, no meio do mato. Ela deve saber viver.
JOÃO: [Aparecendo] Duvido que sobreviva. Duvido que saiba viver sozinha. Está acostumada com a gaiola. Não sabe viver na mata.
LETÍCIA: Não creio que ela tenha nascido no cativeiro. Deve se lembrar de como se faz para viver, não é, dona Gralha? Sabe comer insetos, frutas pequeninas?
JOÃO: Não sabe, não. Vai morrer de fome
LETÍCIA: Pare com isso, João! A natureza sabe se virar.
JOÃO: Só estou sendo realista.
LETÍCIA: Mesmo que viva livre por um dia, talvez valha mais a pena, do que ficar trancafiada por anos e anos.
JOÃO: [Agarrando-a] Então é assim que pensa...? Mais vale um dia de aventura deliciosa, do que uma vida inteira de privações!?
LETÍCIA: Exatamente. Você entendeu bem a mensagem. Se eu fosse uma gralha iria saber escolher. Iria querer voar livremente, mesmo que fosse por um dia, por uma hora.
JOÃO: No final do dia estaria morta, com as patinhas esticadas, assim!
LETÍCIA: Não importa! Teria vivido livre pela mata. Em um dia dá pra fazer uma porção de coisas. Dá até pra se apaixonar...
JOÃO: Achei que não precisasse de nenhuma outra paixão.
LETÍCIA: Não preciso mesmo. Sou muito mais afortunada do que esta gralha. Quem mandou ela ser tão bonita. Se fosse uma ave feia, não correria perigo. Um urubu, por exemplo.
JOÃO: Os urubus também têm suas dificuldades.
LETÍCIA: Que dificuldades?!
JOÃO: Encontrar carniça...
LETÍCIA: Carniça é o que não falta neste mundo.
JOÃO: Quem sabe a gralha aprenda a comer carniça.
LETÍCIA: Prefiro ser otimista. Ela vai viver feliz e ter muitos filhotinhos.
JOÃO: Talvez seja comida por um gato antes mesmo de tentar.
LETÍCIA: Devia aprender com ela. Aprender a ser livre. Mas quem sou eu pra dizer qualquer coisa? Sou apenas a vizinha amante, não é?
[Pausa constrangedora. João sai irritado. Letícia continua caminhando com a gralha. Em uma mão ela segura a gaiola, em outra, um lampião. Ela percorre todo o palco. Sai de cena]

[Turíbio está nu, ofegante. Matuto olha ao redor amedrontado]

MATUTO: Eu falei pro senhor não ficar perto da água. Eu falei.
TURÍBIO: Eu estava nas pedras. Não estava na água.
MATUTO: Não importa. Estava na beirada do rio. Isto é perigoso. Foi por Deus que o senhor escapou.
TURÍBIO: Ela estava flutuando na água. Achei que estivesse se afogando.
MATUTO: A Mãe d´Água se afogando?! Ela enganou o senhor.
TURÍBIO: Estava nua, com os seios de fora. Mas eu só queria salvá-la.
MATUTO: Sei, o senhor só queria salvar...
TURÍBIO: Foi instinto, não podia deixar ela morrer assim.
MATUTO: Mas era mentira dela, ela estava te chamando.
TURÍBIO: Ela me agarrou nos braços, e me beijou a boca, me sufocando.
MATUTO: Virgem Santíssima! Não sei como o senhor escapou.
TURÍBIO: Então me levou pro fundo. E eu não imaginava que um rio tão pequeno fosse assim tão profundo. Ela mora num castelo, Josias, com um portal imenso cheio de rosas retorcidas... Havia um jardim bem grande, e tinha até árvores e bancos de praça.
MATUTO: Sabe-se lá quanta gente não tá lá empiada?
TURÍBIO: Mas daí, não sei como... me agarrei num galho.
MATUTO: Foi por Deus e a Virgem Santíssima! Era pro senhor tá mortinho agora.
TURÍBIO: Será que ela não vem aqui, Josias?
MATUTO: Aqui ela não vem. Tem preguiça de caminhar.
TURÍBIO: Veja só o meu estado...
MATUTO: Perigoso cair de febre.
TURÍBIO: Se ao menos ela tivesse me dito onde a gralha se escondeu.
MATUTO: Fique longe desta Mãe d´Água. Fique longe, sim, senhor.
TURÍBIO: Obrigado, Josias. Desculpe tudo isso. Não estava nos planos...
MATUTO: O senhor fique de olho, porque ela vai querer ainda lhe tentar.
TURÍBIO: Agora eu sei. Não vou nem olhar pro lado dela se ela aparecer.
MATUTO: Tem que correr. Tem que correr muito, sim, senhor.

[Delegacia. João (jovem) escreve em um livro ata]

GRALHA: Gostaria de fazer um B.O. Fui assaltada. Roubaram-me o direito de ir e vir. Roubaram-me também a floresta de pinhais.
JOÃO (JOVEM): Comecei esta semana. Não me amole.
GRALHA: Você não é o escrivão? Não fez concurso? Pois então... Quero fazer uma denúncia oficial, com carimbo. Ah! O Professor Turíbio foi raptado, abduzido eu diria, por aquela Mãe d´Água do folclore brasileiro. Ela queria devorar o professor. Alguém tem que fazer esta denúncia...
JOÃO (JOVEM): O professor é apenas uma personagem de ficção. A delegacia é para pessoas reais, com problemas reais. Não me amole.
GRALHA: Você também é apenas uma historinha. Não vejo diferença. Além disso ele é vítima da sua memória. Coisas daquele baú imenso. Por falar nisso... onde está o baú? Procura] Não estou vendo o baú.
JOÃO (JOVEM): Não sei por que ainda fico lhe ouvindo. Com tanta coisa pra fazer. Tenho que passar a limpo isso tudo.
GRALHA: Aqui não tem computador? Nossa, não tem computador...!
JOÃO (JOVEM): [Irritado] Não, não tem computador. Você sabe como são as repartições públicas. Vivemos na idade da pedra.
GRALHA: Fico imaginando que história você vai escrever aqui nesta delegacia...
JOÃO (JOVEM): São os boletins de ocorrências.
GRALHA: Estava me referindo a sua história pessoal. Este não parece ser um cenário muito interessante.
JOÃO (JOVEM): Como assim? [Pausa] Não estou interessado em viver num conto fadas. Muito menos ser um herói de cinema.
GRALHA: Pelo visto, neste lugar, você não vai ser nadica de nada mesmo. Uma escrivaninha, quatro paredes, uma garrafa de café, uma janela basculante, um telefone antiqüíssimo... Uma revista pornográfica na gaveta... Não parece existir vida neste deserto.
JOÃO (JOVEM): Engano seu. Existe vida nos lugares mais inóspitos.
GRALHA(FANTOCHE): Parabéns. Você e os escorpiões do deserto têm algo em comum. Acho bom você ir se acostumando a comer areia.
JOÃO (JOVEM): Não me importo, contanto que eu sobreviva feliz.
GRALHA: Já calculou quantos milhões de boletins de ocorrências você vai fazer até, digamos, quando tiver sessenta anos?
JOÃO (JOVEM): Não, mas já fiz cinco. Alguém tem que fazer, não é?
GRALHA: Então é um sacrifício que você faz em prol da...
JOÃO (JOVEM): Em prol de mim mesmo. E confesso, estou até gostando.
GRALHA: Digamos que tenha que fazer dois milhões e noventa e cinco mil. Como já fez cinco, faltam somente dois milhões e noventa mil. É só ir contando, que passa logo.
JOÃO (JOVEM): Não me amole.
GRALHA: Só não entendo o que eu faço aqui.
JOÃO (JOVEM): Você é um enfeite. Está empalhada. Lembrança do meu pai. Você estava no baú. Lembra? Está sobre a tabuinha já faz tanto tempo. Há, há! Você continua sobre a tabuinha, aquela tabuinha... Há, há! [João tem um ataque de riso. Plano de João (Jovem) desaparece]

JOÃO: [Entra com uns gravetos na mão] Muito bonito! Eu, procurando lenha e você, contando estrelas.
GRALHA: O que você quer que eu faça? Não é só a sua vida que tem flashes interessantes. A minha também tem. Acho até que o filme da minha vida é um drama satírico. Em muitos aspectos é uma comédia. Acho que a maior parte é um musical, por razões óbvias - passei a maior parte do tempo cantando no topo das árvores. E para quê? De que adiantou? No fundo sei que sou uma personagem trágica.
JOÃO: Assopre.
GRALHA: Não sei fazer biquinho.
JOÃO: Ora...
GRALHA: Verdade!
JOÃO: Então abane.
GRALHA: Estou cansada. Acabei de ver tanta coisa. E não sei como deixar de olhar para um céu tão bonito, que nos faz navegar no infinito. Um céu tão bonito que nos faz navegar no infinito! Com tantas cenas desconexas, acabei virando uma poetisa.
JOÃO: Humm!
GRALHA: Você faz de conta que nada está acontecendo, não é? Como se estes não fossem os últimos momentos agonizantes da sua vida... [Outro tom] Quem fez o céu?
JOÃO: As estrelas.
GRALHA: Quem fez as estrelas?
JOÃO: Foi a noite.
GRALHA: E quem fez a noite?
JOÃO: Foi o dia.
GRALHA: E quem fez o dia?
JOÃO: O sol!
GRALHA: E quem fez o sol?
JOÃO: A lua.
GRALHA: E quem fez a lua?
JOÃO: O trovador.
GRALHA: E quem fez o trovador?
JOÃO: Por que?
GRALHA: Por nada. Pensei que soubesse.
JOÃO: Ando preocupado com outras coisas.
GRALHA: [Dramática] Sinto-me uma mal agradecida. Minha pequena trajetória chega ao final, e percebo que fui uma ingrata. Tanto a vida me ofertou...A quem devo agradecer, ao Professor Turíbio? Por ele nunca ter me encontrado? Por ter me deixado perecer inutilmente?
JOÃO: Pra que esta ironia toda? Agradecer o quê?
GRALHA: Agradecer, ora bolas. Precisa ter motivo?
JOÃO: Creio que sim. Nunca vi ninguém agradecer por nada, sem receber alguma coisa.
GRALHA: É. Eu podia agradecer por... deixa eu ver...
JOÃO: Não precisa agradecer. Você nem comeu o pinhão ainda.
GRALHA: É. Não comi. Ah! Eu queria agradecer por qualquer coisa.
JOÃO: Deixa de frescura, Gralhinha!
GRALHA: É uma coisa que sinto. Antes assim do que ser mal-agradecida. E afinal, estes são os últimos momentos dramáticos da última gralha do planeta.
JOÃO: E daí?
GRALHA: É porque estou feliz. É isso! É porque estou feliz, apesar desta situação um tanto fúnebre. Por isso quero dizer muito obrigado.
JOÃO: E por que você está feliz?
GRALHA: Não sei. Acho que é porque vou comer pinhão.
JOÃO: [Irritado] Oh, não precisa agradecer eu já disse...
Grata; Não é ao senhor que estou imensamente grata.
JOÃO: Ingrata! A quem é?
GRALHA: Não sei. Por isso lhe perguntei. Traga alguém para eu dizer muito obrigada. Assim
partirei sem este peso na consciência.
JOÃO: Mais essa...
GRALHA: Por caridade...
JOÃO: Isto é maluquice.
GRALHA: Por caridade...
JOÃO: Está bem. Então assopre o fogo pelo menos.
GRALHA: Tudo bem. Eu vou tentar.
[João sai depressa. A Gralha tenta, em vão, assoprar o fogo. João volta trazendo uma tartaruga]
JOÃO: Esta serve?
GRALHA: [Assustando-se] Ai!
JOÃO: Eu trouxe...
GRALHA: Essa não. Tenho medo!
JOÃO: Medo de tartaruga?
GRALHA: Elas comem carne. Eu, hein!
JOÃO: É só pra agradecer.
GRALHA: Não! Essa eu não agradeço. Sinto muito.
JOÃO: Oh, sina! [Sai levando a tartaruga. A Gralha espera]
GRALHA: Imagina que eu vou dizer obrigado a um réptil como aquele...
[João volta com uma abóbora. A Gralha cai na risada]
JOÃO: Que foi? Hã?! Por que está rindo?
GRALHA: Uma...
JOÃO: Uma abóbora, ora. Que é que tem? Você que inventou esta história ridícula de agradecer.
GRALHA: Desculpe. [Controla-se]
JOÃO: Que mais eu posso fazer. Estou me sentindo um bobo. [Vai sair]
GRALHA: Perdõe-me, seu João. Eu incomodo, né?
JOÃO: Incomoda!
GRALHA: É o meu jeito.
JOÃO: Espere um momento. [Sai depressa]
GRALHA: Estou me sentindo culpada. Mas se eu não pedisse pra ele, para quem eu iria pedir?
[João entra trazendo uma coruja]
GRALHA: Credo!
JOÃO: Pensei que o problema pudesse ser resolvido em família.
GRALHA: Ela não é da minha família.
JOÃO: Mas é uma ave.
GRALHA: Uma ave de rapina.
JOÃO: Acho que pra ela você pode agradecer que não tem problema.
GRALHA: Agradecer?
JOÃO: Claro!
GRALHA: Agora?
Joào: É! Pode ser!
GRALHA: O senhor é quem sabe.
JOÃO: Como? Eu é que sei... Agradeça logo!
GRALHA: [Tímida] Obrigada!
JOÃO: Pronto?
GRALHA: Pronto, mas... é falso. Não disse de coração.
[João vai saindo] Seu João, não precisa trazer mais nada!
JOÃO: [Soltando a coruja] Por que?
GRALHA: Já agradeci à pessoa errada.
JOÃO: Você é quem sabe!
GRALHA: Tudo bem!
JOÃO: Então vamos comer!
[Ele pega os pinhões e oferece à gralha]
GRALHA: Ui! Está quente!
JOÃO: Deve estar ótimo!
GRALHA: [Comendo] Hummm! Está uma delícia!
JOÃO: [Comendo] Valeu o esforço.
JOÃO e GRALHA: [Cantam e dançam]
Fartura de pinhão
É bom saciar
Depois de viver
Depois de esperar
Um dia e uma vida
Um pinheiro e uma pinha.

[Ambos terminam exaustos e fartos. O Homem tira uma soneca. A Gralha começa a ciscar]

JOÃO: O que você está fazendo?
GRALHA: Vou plantar. Estou acostumada.
JOÃO: Plantar pinhão?
GRALHA: É!
JOÃO: Que estranho. Acho que não vai nascer. Está assado.
GRALHA: Não é deste que vou plantar. É de outro.
JOÃO: É verde?
GRALHA: Não sei. [Ela termina de fazer o buraco] Vamos! Role!
JOÃO: [Assustado] Eu? Você está doida!
GRALHA: O senhor vai virar um pinheiro.
JOÃO: Não estou interessado em virar pinheiro coisa nenhuma.
GRALHA: O senhor é minha semente.
JOÃO: Sou uma ova!
GRALHA: Depressa, seu João!
JOÃO: Não quero ser enterrado nesta terra!
GRALHA: Onde quer então?
JOÃO: Em lugar nenhum!
GRALHA: Só o senhor mesmo...
JOÃO: Não quero ficar aqui, debaixo de sol e de chuva. Quero ficar no celeiro, guardadinho.
GRALHA: Vê se pode! Nada disso, seu João! Já semeei uma porção. O senhor não vai ser o único a inventar lorotas pro meu lado.
JOÃO: Eu não quero morrer soterrado. Tenho claustrofobia. Não suporto nem imaginar. Oh, que horror! Quero ficar quieto no meu lugar. Depois de tanto sofrimento por aí, você ainda me vem com esta...
GRALHA: Escuta aqui... O senhor é minha semente. Se o senhor não for plantado como é que vai dar fruto? Entendeu a mensagem?
JOÃO: Não sei... tenho medo.
GRALHA: Pode deixar de história. Já pensou se todos quisessem seguir o seu exemplo? E a Araucária, como ficaria?
JOÃO: É injustiça. Agora que estou tranqüilo, com a barriga cheia, longe de todos os problemas.
GRALHA: Essa é boa!
JOÃO: Garanto que eu valho muito mais assim, como estou. Não precisa mais nada.
GRALHA: Deixe de conversa!
JOÃO: Você, sim, deixe de conversa! Onde está minha espingarda?
GRALHA: Já pra cova! Anda!
JOÃO: Cova? Um túmulo!
GRALHA: Não seja tão dramático!
JOÃO: Esta plantação é um cemitério.
GRALHA: Logo-logo surgirá um broto.
JOÃO: Pra quê?
GRALHA: Pra nascer pinheiro! [Nervosa] Está bem! Se o senhor quiser pode ficar aí
plantado. Mas não se esqueça que é o último João da face da terra. Todos os outros já se foram. Somos os últimos – você e eu. Cadê sua espingarda? Segure-a.
JOÃO: E o que acontece?
GRALHA: Nada!
JOÃO: Nada!?
GRALHA: Quem sabe, com muito custo, o senhor consiga apodrecer...
JOÃO: Apodrecer?
GRALHA: Ou quem sabe venha um passarinho...
JOÃO: Não!
GRALHA: O que o senhor quer!?
JOÃO: Quero ser embalsamado.
GRALHA: Já está na hora.
JOÃO: É triste ver que todas as memórias já se foram. E que só restam fragmentos de lembranças. Acho que eu não vou conseguir ser eu mesmo sem estas imagens. Sem os meus desejos. Na verdade, o que tem me feito ser eu mesmo são estas coisas: lembranças, desejos, lembranças, desejos, lembranças, desejos... mesmo que conturbados e confusos. Mas tudo se desfaz, assim, sem mais nem menos... Por favor, diga que não vão se apagar as minhas lembranças? Diga! O que vou ser amanhã, se não lembrar de todas elas? Boa parte já se foi, e em parte já me sinto um ninguém.
GRALHA: Um ninguém? Ora, que expressão. Ninguém pode ser ninguém! Porque um ninguém já não é ninguém, entende?
JOÃO: Podíamos começar de novo - as mesmas coisas, as mesmas alegorias.
GRALHA: Lamento, mas não é possível.
JOÃO: Por que não é possível? É uma revisão dos fatos mais relevantes de um João ninguém.
GRALHA: Não apele... Você já viu tudo o que tinha que ver. E não se esqueça que aqui a vítima sou eu. Lembra? uma gralha azul em extinção? Eu que sou o centro das atenções.
JOÃO: Quem sabe posso ajudar você.
GRALHA: Não entendo... antes você queria porque queria acabar de vez com o filminho monótono da sua vida. Agora quer repeteco? Sinto muito.
JOÃO: Não pude ver direito. Não sabia que era uma despedida.
GRALHA: As coisas são assim, quando menos se espera já passaram. Acho que esta é a mensagem: viver intensamente os momentos pequeninos... [Outro tom] ai que coisa mais brega. Enfim, as coisas não dependem da minha pessoa.
JOÃO: Como não?
GRALHA: Você acha que fui eu que armei tudo isso pra cima de você, não é?
JOÃO: Mais ou menos.
GRALHA: Pois fique você sabendo que não foi. Não tem nada a ver comigo. Sou apenas uma imagem longínqua, fadada a desaparecer... Uma imagem, a última imagem.
JOÃO: Você também é uma vaga lembrança?
GRALHA: Isso mesmo.
JOÃO: Então...
GRALHA: Isso mesmo.
JOÃO: Quer dizer que...
GRALHA: Exatamente. [O baú surge noutro plano]
JOÃO: Mas o baú havia sido queimado...
GRALHA: Pois é... Pelo visto não adiantou nada.
[A Gralha entra no baú. João entra também no Baú. Ouve a voz da gralha]
GRALHA: A vida é uma passagem, lembra? Não precisa ficar assim, de olho arregalado. Sabe... eu até que gostei de rever o Rouxinol. Mas ele continua triste. Acho que ele nunca foi feliz... Abafado aqui dentro, não?






2006

Domingo, Agosto 31, 2008

MAIS UNSS

STAMOS EM PLENO MAR
Da borda da cortina
Vemos tantas merdas de pombas
Tantas sim em todas pontas e lugares
Sim la mer, la mer
Stamos em plena mer
Fugindo das rolinhas
Caindo do firmamento
Melequinhas brancas

Os astros saltam
Nos spléshim! calmas


VIXI-GAFANHOTO
Comeram parte de meu poema
Nuvens de gafanhotos
Comeram parte da estrela guia
Somos nós os gafanhotos
S’engalfinhando na frente do espelho
Diga espelho espelho meu
Existe um gafanhoto mais lindo
Do que eu?



ALGUÉM SE OLHA
As mãos se cruzam
Esfregam-se mutuamente
É sinal de reza e de orações ao alto
Embaçada o sopro divindade
Quase regurgita
É sinal da prece quer ser lágrima
Turva gota de tristeza
a tristeza é turva
uma névoa sôfrega
é sinal de espera uma espera
dura

Sexta-feira, Abril 18, 2008

UNDESENHO
estes são desenhos turvos
rabiscos expressionistas
não recicláveis
não perecíveis
Quem se convence
de que a realidade não
se desfez?
É de crayon? é de lápis?
É desfeita em traços
mesmo antes de vivê-la
mesmo antes de formá-la
já surge em fragmentos
borrões de estopa
gotas densas de sangue

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GRITO OCO

NÃO SEI SE É UM GRITO OU UM SILÊNCIO
MAS EM CADA GESTO UM SENSO
DE PERTENCIMENTO
ESTRANHAMENTE FORMA
TRAÇOS DE UMA IMAGEM SÓBRIA

ESCRITA
SIM MEMÓRIA.
É ENTAO QUE O MUNDO ACABA
E RECOMEÇA SEMPRE UM MESMO
INSTANTE:

REVESCRITAS
SIMEMÓRIAS.
DESCONFIO QUE A PALAVRA PÁRA O TEMPO
CADA VEZ QUE BROTA OU LHE ESCREVO
OU CADA VEZ QUE PENSO
E NÃO SEI SE EXPLICO OU DEVANEIO
OU JUSTIFICO O POEMAPENSAMENTO
TAMBÉM NÃO SEI SE O UNIVERSO FALA
OU FICA ASSIM COMO EM SUSPENSO
APENAS VENDO

APENAS SENDO
INTEIRO GRITA “OCO”
GRITOOCO
GRITOOCO

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DEFECANDO

AINDA NÃO PAROU A FALA
ESTA ESTRANHA FALA
QUE SE OCUPA DE UM EVENTO CÓSMICO
NESTAS VÍSCERAS EM FUNCIONAMENTO.
QUE ESTE RONCO ABSURDO DESSA FOME LOUCA
SEJA O COSMOS MICRO NA BARRIGA FOFA
ENQUANTO FALA LANÇA OS OLHOS
PARA TODOS OS BURACOS NEGROS
E ENTAO SE IGUALA
TANTO AQUI COMO NO MUNDO AFORA.
COSMONAUTAS SOMOS COSMONAUTAS
POBRES RICOS ANDARILHOS
SOMOS TODOS COSMONAUTAS
E NEM LEMBRAMOS DE FECHAR A PORTA

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Segunda-feira, Fevereiro 04, 2008

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PENSAPARLA
Nossa língua nossa fala portuguesa tem algumas coisas como portas Sur e Norte enquanto o pensamentoillusion forma uma corrente em sânscrito fico a rodear tão lentos cata-ventos da infância uma Sprache que invade os sons os sons os sons os sons verlorene me disse verlorene me falou verlorene é um passarinho verlorene é estrela cadente verlorene não é nada que os pensamentosillusiones são feitos de formaSprache tempoSprache de uma fala estranha que aprisionada quer dizer o que não diz
Diz não
que o dizer quer aprisionada
que estranha fala
uma de tempoSprache formaSprache
de feitos são pensamentosillusiones
os que nada
é não verlorene
cadente estrela é
verlorene passarinho
um é verlorene
falou-me verlorene
disse-me verlorene
os sons os sons os sons os
invade
que Sprache uma infância
da ventos-cata
lentos tão rodear

a

fico sânscrito
em corrente
uma forma pensamentoillusion

o

enquanto Norte e Sur
portas como coisas
algumas tem portuguesa fala
nossa língua nossa

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NOBREPASSARINHO

Der Kolibri é tão pequeno der Kolibri em pensamento der Kolibri é tão fortuito der Kolibri passapássaro descontraidamente faz um ninho no fio da varanda e vê-se a sua calça jeans bandida tão batida ele toma crack e faz o céu ser seu
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DREAMING OF RATS

na ante-sala havia um rato destes ratos de sonho cinza claro unhas pontiagudas quem sabe um ícone do mau-agouro um monstro onírico vindo em busca de comida-alma ressequida fome desses ratos doutro mundo apavorante mais que a realidade basta ser-lhe um ente indesejado e ser-me inconsciente prova viva dessa morte ameaçada então procuro seu significado na internet um rato em sonho apavorante mais apavorante que estes ratos de verdade
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ABACATEVERSO
resquícios de abacate
no prato
são uma história
descrita
sem vida
viés de porcelana
sendo que a vida
desta criatura
esta vida se foi
e ela que viva!
vidaviu-se
muito pouco com vida
viu-se, vidou-se
e a fruta que era
frutafoi-se assim
não sendo
frutacorpomeu
entregando-se
sacrifício
que frutacomo
quengulo
e eu nem penso
em
abacater-me
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TENRA GALÁXIA

é só olhar pela janela
e verás o céu nublado
os prédios, um cemitério
o jardim de um velho senhor japonês
seu cachorro verás na varanda
verás na tua frente o lava-rápido verás!
a clínica de maxilares
o barzinho gay
a pet shop verás na esquina
aberta das 8 às 18
e verás o asfalto
os veículos velozes quase
não verás
não verás mas ouvirás
os transeuntes de sempre
dia e noite
verás, ouvirás, verás, ouvirás
e verás a si mesmo
segurando a cortina
como um espelho
na tua mão
terás uma xícara
aquela mesma xícara
de sempre terás

Quarta-feira, Janeiro 30, 2008

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O GRANDE EVENTO DA MANHÃ DE DOMINGO

Ninguém sabe ninguém lembra
que a manhã de domingo exige um
grande esforço para ser assim exibida
grandes forças extraterrenas
explosões solares
tempestades-luzes
giros de planetas
órbitas precisas
campos magnéticos
luas, fontes, mares,
grandes meteoros
vasta atmosfera
nuvens plácidas
ventos
árvores
sem esquecer
o infinito
todos ágeis
intermediadores
fazem aparecer
o sol
assim nesta
janela

e então há
sombras

brilho

tédio
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CARNAVAL

dois de fevereiro
pleno carnaval
até que seria bom
assustar os monstros
os grandes monstros
dos confins do mundo
tanto alegres como sérios
seria louco enloquecer
os doidos
esses doidos
que ontem se vestiam
de profetas-nuvens
e querubins disformes
quero dizer
o bispo vira mestre-sala
o ministro vira porta-bandeira
o camelô vira deputado
o presidente vira operário
o operário vira bailarino
esse mesmo bailarino
vira um cão vira-latas
e nada assusta
nada basta
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A PRINCESA

Não se sabe bem
mas dizem que o carnaval foi
inventado por uma princesa estolquita
(da Estolquia - país imaginário localizado
ao sul do mar Cáspio)
inventou-o como uma seita
uma espécie de religião
A mesma princesa inventou a escrita
e fez mil poemas nas paredes
das moradias
Foi então que inventou os castelos
de início eram de areia
depois de barro
e por fim de pedra
Para não morrer de tédio
esta princesa
inventou o tempo
que a distraía
e ajudava a passar as horas
Neta de cartomantes
Sabia ler as cartas
E lia livros ainda nem escritos
De alguns gostava de espelhos,
De outros, labirintos,
De outros infinitos,
E ainda de sertões e bondes e passarinhos
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BESTIÁRIO

ele é uma mistura de touro com abelha
tem aquelas antenas de mosquito
com umas mãozinhas na ponta
tem também os olhos vermelhos
que se assemelham aos de uma víbora
na ponta do rabo existe outro olho
os chifres são moles e se
movimentam o tempo todo
A criatura é muito inteligente
talvez tão inteligente quanto um rato
É veloz porque tem seis patas
Seu ferrão não é venenoso
mas pode matar facilmente
Alimenta-se de qualquer coisa
mas prefere sempre frutas amarelas
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AS VESTIMENTÍFERAS

Ontem vi
No discovery mil ou mais
Vestimentíferas muito
Inteligentes
Quase filosóficas
Ali seguras
Com suas vestes
De sedas escarlates

População do fundo
Elas sim enxergam tudo
Pois vivem em completa escuridão
Quem diria - escuro assim - nos deixam com vergonha
As vestimentíferas
Que vivem em águas ferventes e sulfídricas
E quem diria até ali a vida prolifera e elas dão risada
Sim as vestimentíferas riem, choram
E também namoram
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Terça-feira, Junho 19, 2007


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COMO QUEM DORME

A PAISAGEM FICTÍCIA DO MEU LEITO
TEM UM MUNDO DE INSÔNIAS E
DE SONOS PROFUNDOS
NESTES SONHOS SOMOS ANJOS
MONSTROS ASSASSINOS
OUTRO DIA ACHO QUE MATEI ALGUÉM
SEM QUERER E SEM O SABER
ACHO QUE MATEI UMA CIDADE
E FLUTUEI COMO UM BALÃO
SEM RUMO
ONDE VOCÊS E TODO MUNDO
NÃO FAZIAM O MENOR SENTIDO.
NESTES CÁLIDOS PESADELOS
ACHO QUE TORNEI-ME CEGO
UM AMBULANTE
FADADO A DORMIR UM FALSO
SONHO
E SEM DÚVIDAS
ACORDAR


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DA IMPORTÂNCIA DE SER ATORDOADO

É tão bom bater a cabeça na parede
Diariamente
Bater a fronte, a nuca
O nariz
Até que os miolos se derramarem
Sem saber quem somos
Ou para onde vamos
Eu bati minha cabeça na parede hoje

Você já bateu a sua?

Não se acanhe
Todos batem a cabeça na parede
Tem gente que bate escondida
Uma pancada ou duas
Outros batem à vista
De todos
São estes publicamente
Batedores de cabeça
Zonzos seres atordoados
Que não vivem sem
Levar pancadas
Em seus miolos

Pois então não faça cerimônia
Bata mesmo com vontade
Até perder a noção das coisas


fernando stratico

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Terça-feira, Fevereiro 20, 2007

















DO MAIS FUNDO

Não sei
Acho que vou vomitar.
Desisto de falar
Qualquer palavra
Que a fonte esteja muda
Por mais vinte e quatro horas.
No lugar de poemas
Seja líquida
A declaração
De silêncio
Repulsiva
Seja azeda
Fermentada sílaba
Clorídrica
Gosma
Vindo do mais fundo

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