MARIBULÍCIO
...........................1
.............................A CADEIA
(Célia está sentada atrás de uma escrivaninha simples e antiga)
CÉLIA:
Quando todos lessem minhas confissões, pensava eu, tomariam conhecimento sobre as nossas loucuras. Isto me preocupava um pouco, mas ao mesmo tempo, a idéia de conversar com o mundo me excitava. Tratava-se de um poder inigualável este de se comunicar com gente desconhecida.
Até mesmo eu, uma iletrada, descobri o valor das letras. Passei a escrever estas memórias como uma forma de entender melhor os acontecimentos. Confesso que me sinto, muitas vezes, aprisionada pela escrita; fechada em minhas narrativas. Mas é muito bom estar em meu casulo. A escrita me faz ordenar o mundo. Talvez me faça criar o mundo, assim ao meu próprio gosto.
Carlinda acompanha de perto este meu processo, que na verdade não é tão penoso assim. Carlinda lê tudo o que eu escrevo e faz comentários muito críticos. Acho que ela tem um certo fascínio por mim. Acho que ela também admira esta minha capacidade de adaptação. Os anfíbios não são muito adaptáveis. Eles têm aqueles problemas de especialização alimentar, sangue frio, habitat, coisas do gênero. Eu sou uma ratazana. Vivo em qualquer lugar e posso comer qualquer coisa, apenas para sobreviver. Carlinda é uma rã.
Carlinda acha que estas memórias ficariam muito tristes se eu incluísse a passagem em que fui presa. Para ela, o leitor tem que ser estimulado a uma aventura prazerosa sem fim. Uma passagem como esta, em que fiquei encarcerada, abaixaria muito o ânimo dos outros capítulos. E como Carlinda é minha leitora preferida, confesso que ainda estou em dúvida. Continuo ouvindo sempre os conselhos da rãzinha, embora eu saiba que não passam de loucura. Confesso que este deveria ser o último capítulo; mas, em um sonho, foi me sugerida esta mudança, não por Calinda, mas por um editor; de modo que o último capítulo agora está em primeiro lugar. Mas não me importo se alguém quiser deixá-lo para depois.
Cida, Irma e eu nos encontramos bem menos agora, uma vez que Gertrudes faleceu. Sim, Gertrudes teve que desaparecer, só que, desta vez, para sempre. Talvez isto tenha a ver com o fato de eu ter sido pega pela polícia. Ela não podia fazer outra coisa a não ser ir para bem longe. Caso contrário, teriam trancafiado a nós duas. É graças a Gertrudes que tenho mais este episódio para contar.
Depois que Gertrudes se foi, cada uma de nós inventou uma coisa para fazer. Cida dedica-se desesperadamente a suas pinturas e também à Internet. Ela fez – juntamente com outros velhinhos - uma exposição de quadros no hall de um pequeno shopping aqui perto. Vendeu três obras, e fez várias amizades. São sempre aquelas paisagens que de paisagens não têm absolutamente nada. Nunca mais ela mencionou o nome do Alípio. Evaporou os sentimentos de uma vez. Às vezes tenho vontade de provocá-la. Outro dia eu o vi, de carro com uma mulher bem jovem.
Irma, por sua vez, passou a namorar. Novamente, um jardineiro. Um rapagão de uns vinte e dois anos. Ela o trata como a um neto. O menino é afoito por sexo e por dinheiro. De modo que Irma o compra por bem pouco. Irma tem plena consciência. É o antigo jogo do amor. E o que faria um garotão se interessar por uma senhora de quase setenta anos? Os lindos olhos? A boca carnuda? Com certeza, não é. Da minha parte, acho isto tudo muito perigoso. Sempre vemos crimes nos jornais. Velhas assassinadas por tão pouco. Para esta gente, somos milionárias, e qualquer quantia para eles é uma fortuna. Por isso, Irma fez questão de se envolver também com a família do rapaz. Com isso, fica difícil para o rapaz tentar qualquer maldade contra ela. Mesmo assim, o risco continua, porque estes rapazes são desmiolados. Nem preciso dizer que Irma está radiante de felicidade com este namorado. Para ela a vida ganha um novo sentido. Porém, parece-me que o rapaz nasceu para ser jardineiro e andar com a cara suja de lama. Não quer saber de estudar, não demonstra um pingo de vontade. Acredito que lhe faltam neurônios, e isso não é culpa dele. Pois o que faltava em neurônio, sobra em libido e voracidade. Irma se delicia com isso.
Estive presa em uma cadeia. E sem Gertrudes, o mundo parece que parou.
Para passar o tempo escrevi. Escrevi para não me perder de vista. Escrevi para no morrir. Escrevi para me manter viva! E assim por diante... coisas que os escritores dizem.
Todos devem se perguntar: “Mas não era a Gertrudes quem devia ser presa?” Até me passou pela cabeça que tudo fosse uma armação de minha amiga contra a minha pessoa. Mas não era. A polícia resolveu pegar a mim - ingênua dona de casa. Assim, de senhora recatada e religiosa passei a ser uma presidiária. Algo indescritível! Uma experiência e tanto sob o ponto de vista literário. Talvez Gertrudes tivesse planejado isso.
Passei dois meses em uma cela com outras detentas. Mulheres simpáticas - várias delas eram mães. Algumas eram realmente estranhas, mas não me fizeram nenhuma maldade. Fui presa de repente. Presa na rua quando estava chegando em casa. Felizmente nenhum conhecido me viu. Gertrudes, nesta hora, estava descansando tranqüilamente entre os anjos e querubins. Fui levada sem nenhuma explicação. Levada e trancafiada imediatamente. Pelo jeito, achavam que eu era a própria estelionatária, a caloteira. Por pouco eu não contei a verdade, dizendo que não se preocupassem que eu os levaria até a verdadeira bandida, no cemitério. Mas obviamente, não delatei minha melhor amiga. Mesmo morta, ela não merecia isto.
Uma vez jogada na prisão o que mais me chamou a atenção não foram as detentas, mulheres apagadas, rostos ásperos, olhos tristes... Não foi. Foi sim o cenário.
Talvez eu devesse começar meu relato pelo ambiente, só isto já daria um romance. O espaço era muitíssimo pequeno e sempre estávamos nos esbarrando uma na outra. Em um cantinho estava o banheiro. Uma cortina de plástico criava uma certa privacidade em torno do vaso sanitário, mas era apenas uma idéia de privacidade. É incrível como me acostumei ao banho frio, ao cheiro de urina, de suor e de fezes. As paredes escuras eram rabiscadas com nomes e declarações de amor. Dois corações desenhados continham Rita e Romualdo, Ângela e Denílson – aquilo, de certo modo, me encantava. Até uma oração foi escrita com letras de forma, encravadas no cimento: “Deus é o meu pastor, nada me faltará.” Fotos de revistas coladas nas paredes. John Travolta, Elvis Presley, eternamente jovens em imagens arranhadas. As paredes eram palimpsestos antigos com imagens de santos e de demônios, rabiscos pré-históricos e palavras soltas. Eu imaginava quantas pessoas não haviam passado por ali. Quanto não havia sido gravado naquelas paredes! Choros e lamentações. Acho que até sangue tinha. Os beliches eram de cimento. Quatro beliches para quatorze mulheres. Algumas dormiam no chão, obviamente, em colchões finos colocados sobre grandes pedaços de papelão. Algumas preferiam dormir em duas na caminha apertada.
Logo que cheguei, já haviam decidido que eu dormiria com Genoveva, a menorzinha de todas – ruiva, olhos verdes amarelados, dentes grandes, pele vermelha e áspera. Esta havia matado o marido com veneno de rato e pó de vidro. Disseram-me que, todos os dias, colocava a poção formicida no almoço do esposo. Nem é necessário dizer que matou por vingança e ciúme.
Quando fui posta nesta cela, achei que não fosse viver por mais de um dia. Eu morreria assassinada por elas, pensei; ou morreria de angústia por estar confinada no meio daquelas feras. Logo que cheguei, não me perguntaram nada, nem meu nome, nada. Fiquei horas em silêncio, sentada na cama que me fora indicada, que, por sorte, não era no segundo andar do beliche. Ali fiquei como uma estátua, olhando para o vazio, para fora das grades ou para as paredes rabiscadas. Fiquei lendo as paredes como quem lê um romance policial. Fazia de tudo para não cruzar meu olhar com o olhar de nenhuma delas. Por sua vez, elas também me ignoravam, como se eu não estivesse ali, ou como se fosse a coisa mais normal do mundo receber novas detentas. Ao meu lado, uma moça passava esmalte nas unhas de outra, mais velha e mais acabada. A moça dizia:
___Só pode ser vidrinho de plástico, senão não pode trazer pra grade. Desde que a Suzana cortou o rosto da outra com um caco, foi proibido. Agora quem toma é todo mundo. Por causa de uma vadia... Ainda bem que está na outra grade. Se eu estivesse junta eu matava aquela piranha!
Delicadamente, a moça passava grossas camadas de esmalte vinho nas unhas da mulher. Vi, naquele momento, que mesmo num inferno como aquele, elas ainda tinham vaidade. Havia duas ou três outras celas tão repletas de criminosas como a que eu ficara. O vozerio era imenso. Várias vezes ao dia, elas conversavam entre as celas, em uma segunda língua que eu não entendia. Eram gírias do submundo. Felizmente, a conversa entre as duas eu podia entender. Este ainda era o mundo que eu conhecia:
___Se quiser posso tingir seu cabelo. – Disse a moça, enquanto esmaltava.
___Vou reservar aquele tubo por mais um pouco. Ninguém vem me ver...
___De repente, ele aparece e você vai estar com o cabelo desgrenhado e branco.
___Foda-se! Ele não merece.
Meus filhos nunca ficaram sabendo que estive presa. Esta é a vantagem de nunca telefonarem para saber se você está viva ou morta. Minha irmã tratou de inventar uma viagem que fiz a uma suposta colônia de férias. Minhas vizinhas também acharam que eu estivesse viajando. Somente Cida e Irma ficaram sabendo de minha prisão. A polícia me acusava de coisas que Gertrudes havia feito. Muitas coisas que eu nunca ouvira falar. Na verdade, as coisas que realmente fiz com Gertrudes nunca foram mencionadas. Pelo que meu advogado disse, não havia provas contra mim. Não fiquei desesperada porque sabia que hora ou outra eu seria solta. Carlinda, a rãzinha, havia me tranqüilizado, e não me deixava um só minuto. Ela me dizia que era para eu ter paciência que logo seria solta. Chegou a dizer que eu ficaria apenas umas poucas semanas. Mas não foram poucas semanas. O que fiz foi me dedicar à escrita durante o tempo todo, passando-me por louca. Sim, porque quem escreve dia e noite só pode ser uma doida. Minha distração era ouvir Carlinda, e de vez em quando conversar com uma das detentas.
Cleuza havia matado o sogro e o marido. Era uma mulata muito sorridente, com os olhos grandes esbugalhados. Não parecia ser má, embora fosse bastante corpulenta e amedrontadora. Ela era muito curiosa a meu respeito, e vivia fazendo perguntas. Queria saber o quê eu escrevia tão obstinadamente. Expliquei que era um relatório para a polícia. Ela não entendeu muito bem. Cheguei a ficar com medo daquela mulher. Mas acho que todas me viam como uma espécie de avó adotiva, embora eu não falasse muito e não fizesse nada. A maior parte do tempo, eu procurava ficar invisível. Um dia roubaram um de meus cadernos, provavelmente quando eu estava dormindo. Vi, depois, no cesto do vaso sanitário, que o haviam utilizado como papel higiênico. Depois de muito pensar e conversar com Carlinda, cheguei à conclusão de que quem roubou o caderno devia ser analfabeta, e o fez por um despeito muito grande. Assim, resolvi perdoar, e imediatamente passei a reescrever aquele capítulo. Acredito que a maioria delas fosse analfabeta ou semi-analfabeta. Ou seja, eu era muito diferente de todas. Acho até que elas tinham medo de mim, principalmente quando me viam conversando com Carlinda. Por mais que eu disfarçasse, às vezes, dava uma resposta para Carlinda, o que era estranhíssimo para elas – afinal eu conversava com o vazio. No mínimo elas achavam que eu era um pouco desequilibrada, e, com isso, ficavam temerosas de que eu pudesse agredi-las. Todas deviam saber que as pessoas enlouquecidas são muito mais destemidas e mais fortes do que os piores assassinos. Quando percebi que elas me achavam louca, resolvi alimentar esta idéia, com pequenas coisas. Isto as fez não me importunarem e não se aproximarem dos meus escritos. Quando elas brigavam, inclusive com unhas e dentes, faziam de tudo para não se esbarrarem em mim, e até pediam desculpas quando isto acontecia.
Cheguei a pensar que nunca mais eu fosse sair dali. Por isso aumentei minha sinceridade ao contar os fatos aqui descritos. Já que não sairia mais daquele covil nojento pensava em contar todos os detalhes de minhas aventuras ao lado de Gertrudes. Mas a esperança sempre voltava, e eu sempre reservava uma ou outra história comprometedora. Cheguei também a odiar Gertrudes por eu ter sido presa e confinada numa cela com mulheres assassinas. Durante vários dias, eu tive um ódio mortal por Gertrudes, e não fazia outra coisa a não ser detestá-la em pensamento, e me arrepender de todos os momentos em que estive com ela. Como me arrependi de ter aberto a porta para aquela vendedora de filtros de água! Posteriormente, meu ódio foi amainado e passei a culpar a mim mesma, por ser tão ingênua. Se fosse mais atenta, poderia ter escapado, poderia ter fugido para longe. Mas eu não tinha vocação para ser bandida foragida da justiça. Eu não era como Gertrudes. Com certeza, Gertrudes devia estar dando risadas de mim. Tantas falcatruas e nenhuma noite na cadeia. Por tão pouco eu pagava tanto! Ainda bem que eu não era uma analfabeta e sabia escrever. Estava salva pela escrita. Nesta escrita eu mergulhava loucamente, sem querer olhar para o inferno de roupas íntimas penduradas em varais. Sem olhar para as caras das assassinas que me rodeavam como hienas vorazes. Eu fugia do medo. Nunca eu poderia imaginar o inferno que era estar numa cela com tantas pessoas, sem nada para fazer durante o dia todo. Longos períodos de silêncio. Longos períodos de sono. Longas discussões e lutas corporais. Longas noites de gemidos de sexo entre elas, longas sessões de choro. A maioria se entupia de maconha e somente olhava o vazio por trás das grades.
Duas vezes por semana Irma e Cida vinham me visitar. Eu era sempre levada para uma sala pequena e suja, onde podíamos conversar por alguns minutos. Mas eu preferia que elas não viessem, pois choravam muito ao me verem ali. E, de fato, as condições do lugar eram muito deprimentes. A cada visita, eu também ficava triste, porque elas me faziam lembrar sobre onde eu estava e em que situação eu havia me metido.
De vez em quando eu tirava o dia para ouvir histórias. Foi assim que Cleuza me contou como e por que matou o marido e o sogro. As histórias eram muitas, e também as tristezas. Filhos deixados para trás, namorados, esposos... Sentia que ouvir suas histórias as confortava também. Por outro lado, elas se sentiam orgulhosas de suas façanhas, por mais horrendas que fossem. Somente uma ou outra demonstrava arrependimento. A maioria se orgulhava de seus crimes. Acho que até eu mesma também tinha um certo orgulho do que havia feito, e, de fato, não tinha aquele arrependimento devido.
Um dia, uma delas, chamada Sofia, insistiu para que eu lesse o que estava escrevendo. Sentada aos meus pés, pedia, insistentemente, que eu lesse pelo menos um trecho do que tanto escrevia. Concordei em ler, e ao começar a leitura, todas fizeram silêncio e se entregaram em ouvir. Ao terminar, a leitura do que devia ser uma página, Sofia insistiu para que eu continuasse lendo um pouco mais. Assim eu fiz. Nenhuma delas interrompeu; todas pareciam estar curiosas em ouvir, ou em ler com os ouvidos. Fiquei um pouco emocionada naquele momento, pois percebia que todas estavam realmente interessadas naquilo que eu tinha para contar. Assim, li um pouco mais além da conta, e quando parei, ouvi uma voz:
___Nossa, mas isso aconteceu mesmo?
E outra:
___E onde está esta Gertrudes?
Expliquei que tudo era real, e que Gertrudes havia morrido num acidente. Sofia novamente insistiu, tendo a magnífica idéia de que eu lesse a história inteira, desde seu princípio. Assim, passei a ler este maribulício desde seu começo. Cada dia eu lia um longo trecho, e em seguida respondia a perguntas e também ouvia comentários. Até as mais duronas e brutas ouviam atentamente, parte por parte, a história, embora disfarçassem seu interesse. Todas liam através da minha leitura e eu achava aquilo um milagre. Por um momento, durante o dia, todas eram levadas pela imaginação para além de si mesmas. Acho até que, no momento da leitura, elas se esqueciam de que estavam presas, e estarem juntas ali não era tão mal assim. Todas pareciam um bando de crianças da pré-escola, ávidas por histórias fantásticas. Da minha parte, eu me sentia realizada em poder compartilhar uma história pessoal. Sentia que eu oferecia algo que ninguém mais podia dar. E elas se sentiam gratas por isso. Minha leitura chegava a acalmar as desavenças, a aplacar a fúria de muitas delas, pois quando chegava a hora de ler, tudo era suspenso, tudo era interrompido. É bem verdade que, em muitas ocasiões, após a leitura, contendas diversas se instalaram em função do trecho lido. Isto acontecia quando falavam sobre uma ou outra personagem, ou quando alguém criticava algum acontecimento, ou ainda quando alguém dizia que já havia feito algo parecido. Digamos que aquilo era um debate literário com tapas e socos. A verdade é que a maioria das meninas me tinha em alta conta. Eu era uma espécie de oráculo, de sábio do castelo, ou simplesmente uma mãe a contar histórias para os filhos. Acho que minha leitura era um gesto de carinho para elas, embora eu própria não tivesse esta intenção. Como a voz da mãe que se ouve no escuro da noite, elas me ouviam. O que mais as atraía para a história era a veracidade dos fatos e também o fato de contar a história de uma bandida. Não creio que haveria o mesmo interesse se fosse apenas uma história de amor. Havia ali um retrato, uma identificação, embora o refinamento de Gertrudes estivesse a léguas de distância do que eram aquelas criminosas. Tive receio até, pois percebia que algumas descobriam na história outras técnicas e possibilidades de crimes. Eu não sabia realmente se estava ensinando coisas boas, ou o que não devia. De qualquer maneira, todas estavam presas e impedidas, pelo menos em parte, de burlar a lei.
Gina, a manda-chuva do grupo, até deixava seu celular de lado para me ouvir. Quando li a passagem sobre o chá de raízes, ela interrompeu a leitura para contar suas experiências alucinógenas na Colômbia. Gina sempre repetia que nunca havia matado ninguém. O negócio dela era “bagulho”, como dizia. Comercializava drogas de todos os tipos. Por meio do celular, velho e ensebado, comandava o tráfico, fazendo contatos, oferecendo a mercadoria... Era uma gerente comercial perfeita. Pois até a Gina machona parava os olhos no ar quando eu lia. Ficava hipnotizada, e era sempre ríspida ao ordenar silêncio. Volta e meia, Gina fazia comentários e eu tinha até receio de que ela quisesse interferir na minha escrita, que quisesse alterar a história. Felizmente, eram apenas comentários, reflexões críticas, digamos. Na verdade Gina estava mais interessada nas partes mais singelas do texto. Cheguei a ver lágrimas em seus olhos quando ouvia a leitura.
Quando Carlinda surgiu na história, senti que houve um desconforto entre a maioria, porque elas se deram conta de que Carlinda poderia estar ali, observando-as. Também se deram conta de que eu era capaz de ver um outro lado das coisas, um lado povoado de fantasmas e seres fantásticos. Se bem que não via o Guardião desde sua última aparição, quando tinha sido...? Ninguém ousou me perguntar sobre onde estava Carlinda, ou se eu a via naquele momento. Acho que houve um temor generalizado. Todas haviam constatado que eu tinha uma certa loucura velada, e que era verdade a impressão primeira que tiveram a meu respeito: eu era de fato maluca.
A leitura de minhas histórias instigou nelas o desejo ancestral de contar. Cada uma, a seu tempo, começou também a introduzir algumas narrativas pessoais. Histórias de crimes, paixões, loucuras... Mas nem todas tinham habilidade para contar suas histórias. Algumas permaneciam caladas, guardando somente para si os fatos cruéis e doces, açucarados, ou amargos. Estas tinham medo de tocar no passado, ou de começar a desenrolar aquele novelo tão emaranhado. A maioria, por outro lado, queria me imitar, contando, do mesmo modo, fatos interessantes reais e também irreais. Vi naquilo uma euforia ancestral, de seres pré-históricos sentados em volta de uma fogueira, relatando momentos da caça, o confronto com as grandes feras, as reviravoltas da natureza implacável... A mesma euforia de famílias pequenas sentadas ao redor de grossas mesas de tábuas, contando casos de assombrações de arrepiar os cabelos. Avôs e avós com suas histórias fantásticas do tempo do império, quando carruagens andavam pelas ruas. Isto fortalecia tanto os pequenos como os grandes, tanto os santos como os pecadores. Constatei ali, naquele escuro limbo, que ninguém conseguiria sobreviver sem contar alguma coisa.
Graça, uma negra de uns quarenta e cinco anos, sabia que era sua vez de contar. Tragou fundo o cigarrinho de maconha, prendeu a respiração; segurou a fumaça dentro dos pulmões até não poder mais; então soltou a voz como uma bomba de ar comprimido:
___Faz muito tempo. Eu ainda era pequena. Minha mãe lavava roupa no riozinho que passava perto de casa. Era uma tábua de roupa. Naquele tempo não tinha tanque. Era uma tábua bem branquinha. Ela lavava roupa e eu enxaguava na bacia grande de alumínio. A água era limpa que se via o fundo. Dava pra beber também, mas a gente bebia a água do poço que ficava mais acima, do outro lado da casa. Foi então que eu vi, uma cobra amarela, vindo pela água, a cabeça e o corpo pra fora. Ela veio nadando depressa, como se soubesse onde queria ir, e o que queria fazer. E veio nadando direto na minha direção. E parou na minha frente e ficou me olhando com aqueles olhos de cobra, e a língua saía pra fora, como se fosse satanás. Na hora eu não conseguia fazer nada. Fiquei estatelada de medo, e parecia que a cobra tinha me hipnotizado. Eu não conseguia me mexer, e também não conseguia gritar. Eu sabia que ela ia me morder e que eu ia morrer naquela hora. Estava certa de que tinha chegado a minha hora. Embora eu fosse criança eu sabia que ia morrer. Ela vinha com uma missão na cabeça. Parecia ser mandada por alguma coisa do inferno pra acabar comigo. Ela não queria morder mais ninguém naquela hora, nem minha mãe, nem nenhum bicho do mato, nem mais ninguém - era somente eu que ela queria. Então fiquei olhando pra ela, enquanto entendi tudo isso. Sem poder me mover porque eu estava gelada por dentro. Minha boca não me obedecia, nem meus braços ou minhas pernas. Eu pensava que minha mãe devia ver a cobra, pois ela era grande e estava tão perto de nós duas. Mas minha mãe não via nada, e só continuava a esfregar a roupa. De um salto, a cobra pulou no meu rosto. Senti, então aquela mordida ardida no queixo. E no que ela me mordeu, tudo se apagou. Fiquei desacordada por dois dias, e acho que morri.”
Graça sabia reviver cada detalhe de sua história. E não com muito esforço eu via também a mim mesma no meio do pasto, buscando água da mina, com medo das vacas, e com pavor de cobras. Graça contava e ao mesmo tempo me fazia lembrar de coisas muito remotas da minha própria infância. Talvez fosse a fumaça da maconha a realçar todas as cores e formas, e também a me fazer mergulhar em lembranças que nem eram minhas. Mas de fato, eu via. Via e também escrevia - a mãe de Graça dando-a como morta, e dizendo que já tinha desistido que Graça vivesse; a cobra esperta fugindo assim que deu o bote; mergulhando na água - ninguém sabia, portanto, nem que tipo de cobra que era, e pelo jeito, era uma cobra muito estranha que ninguém tinha nunca visto por ali. Vi as benzedeiras, vi todo tipo de gente da roça, tentando curar a Graça menina. Mas naquele lugar tão longe do mundo não havia médico, nem enfermeiro que fosse para aplicar uma injeção. O povo então rezava, e só então me dei conta de como a casa estava cheia. Muita gente chorava, já se conformando com a morte de Graça. Outros saíram pelo mato pra encontrar a danada, que estava foragida. Os homens mais valentes diziam que iam trazer a cobra mortinha, como vingança. Mas não encontraram nada, pois aquela não era uma cobra deste mundo. Eu mesma sabia que ela não era deste mundo. Era o próprio diabo! dizia Graça. Ninguém sabia porque ninguém tinha visto ela como Graça viu. E ninguém tinha conversado com Nossa Senhora como Graça conversou. Nunca ninguém ia encontrar a cobra amarela, como de fato nunca encontraram. Mas naqueles dois dias que Graça ficou como morta, Nossa Senhora apareceu e explicou que não era ainda sua hora, porque ela era uma criança muito pequena e merecia crescer. E que a cobra, de fato, queria ver o seu fim, pois era muito cheia de maldade, e não queria que ninguém de bom coração vivesse. Nossa Senhora disse que Graça acordaria depois de dois dias; e isto porque muita gente naquela casa estava cheia de fé. Nossa Senhora apareceu voando e brilhava como se fosse um reflexo do sol no espelho, quase não dava pra olhar de tanta luz. Debaixo dos pés ela estava pisando uma cobra também, mas que não era amarela, era acinzentada. A cobra se contorcia debaixo dos pés de Nossa Senhora, numa agonia que não terminava nunca.
De fato, acho que eu estava alucinada com aquela fumaça de maconha penetrando até em meus ouvidos. Ou eu estava hipnotizada por Graça, a contadora de histórias.
Vi então Nossa Senhora pegando Graças nos braços. Ela era muito alta, tão alta como uma árvore. Graça não conseguia mexer o corpo. Só os olhos que ela revirava e via aquele jardim cheio de rosas. Tinha rosas de todo tipo. Rosas grandes e rosas pequenas. Rosas vermelhas e rosas amarelas. No meio do jardim havia uma casa de cupim. Um cupinzeiro bem alto, e ele se parecia com a figura de um homem. Era tão grande quanto o tamanho de um homem. E tinha também uma cara e um jeito de homem mau.
Neste momento todas as ouvintes ficaram pálidas. O homem cupinzeiro da história parecia apavorá-las mais do que a própria serpente. Estavam geladas de medo, e Graça sabia como amedrontá-las ainda mais. Pobres presidiárias com medo do homem-cupim! Todas pareciam já ter enfrentado o tal homem em alguma rua escura, em algum beco, em alguma cama imunda.
Graça continuou com sua história, com a mesma calma assustadora:
___Nossa Senhora me fez olhar para o cupinzeiro, mas não disse nada. Eu perguntava pra mim mesmo e também pra ela, o que estava fazendo o cupinzeiro gigante no meio daquele jardim tão formoso. Mas ela não me ouvia, ou não me respondia de propósito. Ela também olhava pro homem-cupim, como quem sabe de tudo o que se passa. Afinal aquele era o jardim de Nossa Senhora. Ela sabia de tudo o que acontecia por ali. E foi então que o homem-cupim começou a se mexer, a se mexer devagar. E sua cara ficou ainda mais feia. Seu braço ficou ainda maior. Os dedos compridos queriam pegar. Daquele jeito desajeitado começou a andar na nossa direção. Nossa Senhora não se mexeu, e não ficou incomodada. Ela sabia muito bem quem era o homem-cupim. Ao andar pra nosso lado, o cupinzeiro foi ficando mais feio, e mais com cara de monstro. Mas conforme foi ficando perto, o homem cupim se desfez. Derreteu e virou um enxame de muitos cupins. Os bichinhos doidos se espalharam em toda direção. Estavam loucos de raiva por causa de Nossa Senhora e de sua luz. E queriam comer todas as rosas do jardim.”
Percebi que Jaqueline se mexia no seu cantinho de cela. Parecia sentir os cupins andando embaixo de suas roupas. Coçava-se discretamente. E pedi a Deus que realmente fossem cupins fantasmagóricos e não pulgas. Graça não parecia satisfeita com o terror que estava causando. Queria apavorar mais. Da minha parte eu já estava desesperada e queria que a história já tivesse um fim. Não queria pensar em pulgas e carrapatos e muito menos em cobras apavoradoras. Mesmo assim, eu anotava cada frase e cada palavra saída daquele turbilhão:
___Mas a luz que saía de Nossa Senhora era como um lampião no meio do mato. Aquilo esquentava e matava todo cupim com o clarão. Assim, todos fugiram apavorados e o homem-cupim parou, desapareceu. Nossa Senhora tinha espantado o mal que havia naquele jardim, eu pensei. E comigo nos braços ainda, ela voou pra bem longe. E me pôs de volta na cama, bem devagarinho. Mas o homem cupim levantou vindo do nada. Ele estava ainda mais feio. Era um monstrengo horrível que até Nossa Senhora se arrepiava em ver. E o homem-cupim tava com fome e queria me devorar. Pra Nossa Senhora ele dizia:
___Queremos a garotinha. Queremos dela comer.
___A garotinha não pode, cupim monstruoso! É uma garotinha de Deus!
___Estamos com fome, Nossa Senhora. Dai-nos de comer.
___A monstro de cumpinzeiro eu não dou nada, não. Sai pra lá homem-cupim!
Nossa Senhora estava brava. Deu de dedo no cupim. Mas o cupim não desistia. Queria porque queria me comer inteirinha, até os ossos ele queria. Nessa hora eu vi que mesmo Nossa Senhora não sabia o que fazer. Ela olhava desesperada, e a luz dela piscava, assim como quem tá pensando. Da minha parte, fiquei encolhidinha, tão encolhida que parecia um grão de areia.
___Coma esta cobra, cupim. Coma e vá embora para o lugar de que saiu.
O cupinzeiro não vacilou um instante. E num segundo comeu a cobra que Nossa Senhora pisava. Devorou até os ossos. Dela nada sobrou. E no que comeu, ficou saciado, e então na terra ele entrou. Depois de dois dias, pra surpresa de todo mundo, eu acordei e pedi pra comer arroz e feijão. Foi uma alegria só. Muitos saíram gritando e chamando os outros porque era como se eu tivesse ressuscitado. Então todos voltaram e agradeciam a Deus ajoelhando-se. As benzedeiras até choravam de alegria, e achavam que era tudo por conta da reza delas. Nossa Senhora, com certeza tinha ouvido aquela ladainha e me curado lá nas alturas. Depois disso, eu cresci, e até hoje ainda tenho pavor da cor amarela. Infelizmente, no meu sangue ficou o veneno da cobra, e foi este veneno que me fez ir pro crime e pras drogas.”
De acordo com Graça, ela havia se salvado, mas o diabo lhe contaminara as veias, e por isso ela agia de forma violenta. E por causa do pavor da cor amarela, havia assassinado uma amiga. Este era o veneno da serpente sedutora, que desde Adão e Eva vinha contaminando a humanidade. Uma pobre serpente amarela fadada a morrer muitas vezes durante a eternidade. Ouvi, então, a voz suave de Gertrudes me dizendo: “você não devia ter mexido com cobras!” Assim, senti um profundo arrependimento ao ouvir a história de Graça. Arrependi-me de ter provocado aquelas narrativas assustadoras. Gertrudes tinha razão em não prestar muito a atenção aos detalhes da vida. Aqueles detalhes da história de Graça me fizeram chorar uma noite inteira. Senti que estávamos todas perdidas, abandonadas pela sorte, e não éramos as únicas. Lá fora, as coisas ruíam do mesmo modo, e aquela humanidade perfeita que eu imaginava, simplesmente não existia. Acho que senti a crueza que Gertrudes sentia, que resultava numa simples pergunta: por que ser boa? Talvez fosse assim que ela visse o mundo ao redor – um emaranhado de maldades. Naquela noite tive uma crise de piedade, e por isso chorei muito. A pena que senti de Graça foi incomensurável.
Felizmente, nem tudo eram histórias na prisão. Havia não somente literatura naquele micro-cosmo, mas também música. Havia uma jovem que cantava.
Etelvina não devia ter trinta e cinco anos. Era morena, pele muito bonita, olhos castanhos amendoados, boca enorme, dentes perfeitos, pequena estatura, e um pouco além do peso normal. Era tímida, e falava muito pouco, mas cantava divinamente. Disseram-me que era traficante, mas ela mesma preferiu nunca tocar no assunto, ou contar qualquer coisa de sua vida. Queria apenas cantar, e de certo modo, suplicava que todos lhe permitissem que cantasse, pelo menos um pouco durante o dia. Às vezes Etelvina era interrompida bruscamente. Era quando alguém estava de mau humor e não queria música nenhuma. Neste caso, ela era obrigada a fazer silêncio, e assim fazia, de maneira submissa. Geralmente cantava, após o café da manhã, enquanto a maioria estava lavando roupa, ou fazendo alguma arrumação na cela. Enquanto ela própria esfregava suas peças íntimas, cantava com uma voz dos deuses. Cantava músicas de Carmem Miranda, Dalva de Oliveira, Aracy de Almeida, Orlando Silva... Sabia tudo. Dizia ela que havia aprendido com a mãe, e com os discos de sua avó. Muitas vezes até brigavam por causa de uma música solicitada. Digamos que havia confusão quando os gostos se dividiam. Aquela voz afinadíssima cobria todas nós como uma luz singela. A voz de Etelvina parecia desinfetar o ambiente. Tudo ficava puro e límpido quando ela cantava. Quando cantava canções do Roberto então havia lágrimas românticas caindo pelas faces. Eu mesma não conseguia entender o quê uma cantora tão talentosa como Etelvina fazia ali. Ou por que havia se metido com drogas? Que desperdício! Se eu chorava era por esse motivo. Nessas horas alguém sempre insistia em dizer:
___Quando ela sair, vai deixar o tráfico e virar cantora profissional.
Como eu queria que isto acontecesse, ou que, pelo menos, aquela voz não fosse sufocada! Era um milagre que ainda existisse, límpida, cristalina. Etelvina parecia saber quando podia cantar, e quando devia manter absoluto silêncio. Passava dias, às vezes, sem sussurrar nenhuma canção. Eu sabia que ela cantava em pensamento. Sentada parecia também ouvir vozes celestiais cantando em coro as músicas dos homens. Talvez se estivesse fora da cadeia, esquecesse todas as músicas, e cantar já não fosse necessário. Assim como eu escrevia, ela cantava... para não morrer à míngua, para não sufocar entre as quatro paredes eu escrevia, ela cantava. Talvez, de todas as presidiárias nós duas fôssemos as mais fracas. Nós precisávamos de um refúgio, uma canoa salva-vidas. Recostada na parede, os joelhos junto ao peito, Etelvina cantava em pensamento, provavelmente sonhando com uma platéia de fãs. Quando a atmosfera mudava, sua voz saía, e penetrava cada milímetro do espaço; varria a feiúra não só das paredes, mas também dos rostos.
Um dia a carcereira colocou no corredor das celas um pequeno rádio ligado. Ninguém podia ter aparelhos eletrodomésticos dentro das celas, pois estes eram uma arma em potencial. Por piedade, ou por razão desconhecida, a carcereira contemplou a todos com o som agudo de uma estação qualquer, cujos ruídos se misturavam a sambas, pagodes e música sertaneja. Etelvina ouvia, atentamente, e parecia gravar tudo, mas com esta presença eletrônica em nossas vidas, quase vinte e quatro horas por dia, Etelvina, a cantora, parou de cantar. Ela própria dizia:
___Tem o rádio! Pra quê?
Não eram poucas as recomendações de silêncio:
___Desliga esta porra aí!
A carcereira desligava, ouviam-se os ratos, as baratas... mas logo o rádio era ligado novamente. E assim, seguia a rotina detestável de um rádio em constante funcionamento. De certo modo, era bom o contato com o mundo exterior. O rádio nos trazia notícias e também a vida de fora da cadeia. Seria ótimo se houvesse uma televisão também, para as novelas e noticiários.
Um dia o rádio parou. Por algum motivo não se ouvia o chiado costumeiro da manhã, e a voz do locutor histérico com seu discurso matinal. Por algum motivo estava mudo, e o corredor ecoava cada gesto dentro das celas. O mundo da prisão parecia surgir novamente. Roncos e respirações ofegantes, grunhidos, som de água escorrendo... Foi então que ouvimos a voz de Etelvina novamente. Cantou “A Estrela Dalva”, abençoada canção! Cantou como nunca, enquanto lavava suas calcinhas. O som da água e da espuma fazia o acompanhamento. Nosso silêncio era pura emoção e aplauso. Finalmente, podíamos receber aquela luz matinal transformada em som. Era nosso banho de sol, nossa chuva e estrelas. Enquanto ouvíamos sentíamos no íntimo um pavor terrível de imaginar o rádio sendo ligado novamente, matando de vez aquele momento tão singelo. Pelo menos, em mim aquele pavor existia. Mas foi então que Etelvina começou a ter um ataque epiléptico. Caiu tendo convulsões desesperadas. Algumas tentavam ampará-la, segurando-a para que não se machucasse. Os olhos revirados, o rosto totalmente deformado... Se eu não soubesse o que era, pensaria ser uma possessão demoníaca. Uma das meninas pôs um lenço dobrado entre seus dentes. Ela mordia ferozmente. Puseram-na deitada de lado, mas seu corpo parecia uma pipoca na panela. Acho que tudo não durou mais de três minutos, mas pareceu ser uma eternidade. Em seguida, ela voltou a si, mas estava muito fraca. No mesmo dia foi levada pelas policiais e nunca mais voltou, nem para pegar suas coisas. Nunca soubemos o que aconteceu com ela. Ninguém sabia dizer.
Que mundo estranho era aquele! Só restou um silêncio amedrontador. Nem rádio, nem Etelvina. Não preciso dizer que quase morri de pena daquela jovem, tão talentosa, tão louca, tão boa. Sentimos falta da sua voz carinhosa... Etelvina havia sido levada como um saco de areia. Poderia estar internada em algum hospício. Poderia estar morta e seu corpo servindo para a pesquisa de estudantes universitários. Poderia estar viva, quem sabe, cantando em algum lugar...
À noite, para aumentar minha tristeza, acordei com uma barata lambendo minha cabeça. Acordei com umas pequenas lambidinhas ásperas no couro cabeludo. Nunca tive tanto nojo de mim mesma. Lavei com água e sabão a parte onde a barata lambeu, mas não houve jeito; fiquei me sentindo contaminada. Eu me sentia como se tivesse sido mordida por um vampiro. Na correria e escândalo, a barata fugiu tranqüilamente para fora da cela. Andou pelo corredor como se estivesse consciente de que ali não haveria perigo para ela. Por algum tempo me esqueci de Etelvina, e pensava somente na barata bandida. Eu estava acostumada a ver baratas e ratazanas andando pelos cantos. Esta era uma visão costumeira que eu já nem me incomodava tanto. Mas nenhum destes seres havia me tocado o corpo antes. Nem mesmo o Chiquinho, pequeno rato que vinha visitar-nos toda noite. Eu conseguia ouvir as patinhas de Chiquinho no ladrilho. Ele chegava apressado, e entrava como se aquela fosse a sua casa. Milagrosamente, ele passava entre quem quer que estivesse dormindo no chão, e era cuidadoso para não acordar ninguém. Somente eu o ouvia e também o via às vezes, dependendo da posição da lua. Para evitar uma tragédia, eu não gritava “olha o rato!” e não alertava ninguém. Carlinda, no meu colo, ficava amedrontadíssima, mas procurava se controlar. Nenhuma de nós sabia se os ratos comiam rãs. Aliás, como era de se esperar, Carlinda detestava aquele lugar. Também não gostava das meninas internas. Dizia que todas eram muito feias e desajustadas. Acho que Carlinda sofria junto comigo. O que a consolava era a certeza de que minha estadia lá era breve. Deste modo, Chiquinho ia e vinha como bem queria. Tenho certeza que saía sempre com a barriga cheia de migalhas de pão. A lembrança de Chiquinho também me fez esquecer Etelvina e seu ataque. Aos poucos ela se apagava de meus pensamentos. Nada durava muito tempo em minha mente. Era como se eu pensasse mas não raciocinasse.
Ainda bem que Cida ou Irma não sabiam exatamente como eram as instalações prisionais. Gertrudes, sim, saberia tudo. Elas achavam que eu ficava numa cela arejada, com camas confortáveis, com apenas mais uma interna. Tínhamos várias refeições por dia. Tomávamos banho de sol. Fazíamos ginástica, alongamento, víamos a novela das oito, freqüentávamos a biblioteca da cadeia, pequena mas muito interessante, e também tínhamos acesso à Internet. Era uma cadeia perfeita! Fiz questão de contar detalhes sobre cada uma destas qualidades do sistema prisional. Cida me dizia: “Mas parece ser tão pequena, como cabe tudo isso?” Pois é nos pequenos frascos que estão os grandes perfumes! Mal sabia ela que perfumes maravilhosos eu respirava todos os dias. E mal sabia sobre a colônia de ratos e baratas que se encarceravam voluntariamente naquela prisão. Mal sabia minha irmã que uma barata em especial havia descoberto que tenho um couro cabeludo delicioso. Agradeço a Deus por eu não ter medo de ratos.
De vez em quando chegava o Doutor Gessy, meu advogado. Ele, ao contrário do que muitos podem esperar, era a única coisa que eu achava realmente horripilante naquela prisão. Não parecia ser real aquela figura longilínea, com seu cabelo tingido de preto. Ele falava e falava, a ponto de me deixar zonza com aqueles termos estranhos, e aquela voz metálica. Muitas vezes preferi que ele não tivesse aparecido; preferi que me deixasse sozinha ali, com as meninas, que afinal não eram muito diferentes de mim. Doutor Gessy insistia em me explicar que eu não devia, em hipótese alguma, estar presa, por causa da minha idade, e que mesmo assim tinha entrado com o pedido de hábeas corpus. A justiça, porém, era lenta e misteriosa. A justiça, nas suas palavras, parecia ser uma mulher bêbada dona de um bordel, sem controle de nada, absolutamente enlouquecida com as funcionárias e com os clientes. Não conseguia entender como Gertrudes tinha aquele homem em sua lista de advogados amigos. Gertrudes deveria estar louca. Doutor Gessy era uma visão fantasmagórica que me dava náuseas toda vez que aparecia. A pasta preta presa debaixo do braço parecia estar vazia. Eu tinha absoluta certeza de que não havia papel algum ali dentro. Tinha certeza que ele também não havia nunca conseguido tirar ninguém da cadeia. Duvidava se ele próprio era advogado. Parecia ser um alfaiate, um vendedor de algodão doce, mas nunca um advogado. Da gola de sua camisa saltavam aqueles pelos imensos grisalhos; o colarinho puído escondia, assim, um vulto de homem peludo e assombrado. Nunca me olhava nos olhos, nunca me ouvia, nunca me dizia bom dia ou boa tarde. Era uma máquina de falatório, que uma vez ligada não parava mais. E o que mais me irritava era sua risadinha que recheava todas as frases. Como um macaquinho ele ria e sacudia o tronco comprido para cima e para baixo. Mas eu nunca entendia do quê ele estava rindo, ou se realmente estava rindo de alguma coisa. Era um tique nervoso, eu pensava. Não faz mal que seja assim. Há tantas imperfeições na terra. E ele não tem culpa de ser como é. Pode ser um anjo tentando me proteger das mazelas da vida. Mas meu ódio por ele era mortal, e eu não sabia explicar. No fundo, eu achava que ele era o culpado por eu estar ali. Ele era enviado da tal justiça - a mulher gorda dona do bordel. Ele era responsável por minha irritação tão grande. Era ele quem me tomava as horas mais preciosas do final da tarde, quando todas as mulheres se ajeitavam em seus ninhos, esperando a noite chegar. Doutor Gessy me angustiava tanto que um dia eu gritei com ele, dizendo que eu não queria ir embora; que estava muito bem ali na prisão; e que logo teríamos um bebê para cuidar. Sim, um neném estava a caminho. Uma das meninas estava grávida. Teríamos que ajudá-la a cuidar do menino. Nesta hora ele parou de falar. Olhou-me nos olhos pela primeira vez e disse:
___A senhora poderia fazer um exame médico. - Chegou a sugerir que eu fizesse um exame psiquiátrico, o que seria até uma coisa muito boa, se a justiça constatasse que eu realmente estava desequilibrada. Gritei novamente com ele, dizendo que louco era ele de usar aquela pasta vazia; que ele não precisava vir mais, pois eu não entendia o que ele falava. Naquele dia ele saiu repetindo que ia solicitar o exame. Repetiu inúmeras vezes, olhando furiosamente para mim, como se o exame fosse uma forma de me punir. Além do mais, eu não podia deixar a cadeia naquela hora, justamente quando o neném de Silvana ia chegar. Como eu poderia deixar de pegar no colo aquela coisinha fofa? E ela ia precisar de mim. Eram todas desmioladas. Algumas eram como homens, não sabiam nada sobre recém-nascidos. Não saberiam cuidar do menino, pensava eu. Todas precisavam de mim. Se eu não estivesse lá seria um desespero, e a criança poderia ser retirada dos braços da mãe e entregue ao juizado. Ela tinha que saber cuidar. Tinha que aprender.
Doutor Gessy não queria ouvir nada sobre nenéns ou adultos. Depois desta discussão, sumiu por mais de uma semana. Da minha parte eu só pensava no parto de Silvana. Carlinda ficava horrorizada cada vez que eu falava sobre o bebê. Dizia que eu não tinha nada com a vida daquelas detentas, e que não deveria me envolver com gente que nem parente minha era. Mas Carlinda era uma rã. Não sabia nada sobre prole, ou bebês de colo. Eu só pedia que ela respeitasse minhas decisões. Nisto Carlinda era até muito boa. Ficava quietinha, apenas observando. Não falava nada. Fazia de conta que não via.
O neném nasceu numa noite de sábado. Silvana foi levada às pressas para o hospital, e tudo parecia estar bem. Já estava tendo dilatações. Rezei tanto para que não houvesse nenhum problema. Hoje em dia as mulheres são tão fraquinhas, e os nenéns, tão preguiçosos! Na segunda feira, Silvana chegou com o Lincoln nos braços. Achei o nome meio complicado, mas era o que ela queria. Logo foi apelidado de Lico, Liquinho e tudo ficou mais fácil. Lincoln era gordinho, tinha os olhos vivos e ágeis como os da mãe. Era guloso e só queria o seio, mais nada. Mamava até não poder mais. Até dormir de cansaço. Depois revezávamos em pegá-lo e beijá-lo, mas sempre era uma disputa. Algumas das meninas mais brutas eram as mais delicadas ao pegar o neném no colo. Era o instinto de mãe falando mais alto. Ficavam maternais e meigas. Com isso Lincoln esbanjava em carinho e afagos, e permanecia pouco tempo em sua caminha ao lado da mãe. Na verdade, Silvana era uma excelente mãe. Era muito atenta e parecia já saber tudo sobre o garoto. Era observadora e procurava entender o que estava acontecendo com ele. Com isso, não foi necessário ensinar nada. E as professoras ali eram muitas. Havia gente para ensinar desde as trocas de fraldas até os cuidados necessários quanto às cólicas. E se chorava no meio da noite, tinha sempre mais de uma auxiliadora para confortá-lo. Parecíamos um bando de leoas como estas que vemos pela TV; todas cuidando do pequeno filhotinho e sem nenhum leão por perto. O pai do garoto nunca veio ver o bebê porque estava preso em uma outra cidade. Isto parecia ser algo natural para elas: “Ah, ele tá preso não sei onde!” Era como se estivesse a trabalho em uma outra cidade. Coisas da vida.
Depois de sessenta e quatro dias, fui solta, sem explicações. Pelo visto, não havia provas contra mim, embora eu mesma estivesse saindo com as provas debaixo do braço, em calhamaços de folhas. A carcereira sabia disso, pois ouvira toda a leitura do final do corredor. Mas eles não estavam realmente interessados em me incriminar. Ninguém estava. Assim, minhas amigas da prisão ficaram sem os últimos capítulos. Lamentei muito este fato, e prometi a elas que um dia voltaria para terminar a história. E a verdade é que voltei várias vezes para uma visita, levando um costumeiro bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Quando me viam, sorriam como nunca – isto me enternecia. Eu pegava o Lincoln no colo, cada vez mais lindo e mais pesado. O garoto ia ficar com a avó quando fizesse um ano e meio. Seria uma triste separação. Eu sempre saía de lá pensando que todas eram vítimas de si mesmas.
Depois da prisão, minha vida voltou ao normal. O encarceramento continuou, porque não há escritora que não seja uma prisioneira. Mas, seguindo o exemplo de Gertrudes, passei a fazer de tudo um pouco, afinal a vida não se resume a uma coisa só. Também passei muito tempo na casa das camélias. Cada estação tinha sua fruta, de modo que o pomar tinha sempre uma boa surpresa. Um de nossos passatempos preferidos era nos sentarmos na varanda e ver o movimento na rua como se fazia antigamente. De repente, surgia um assunto interessante, ou uma história longínqua, ou um bandido fugindo da polícia, como aconteceu um dia. Mas geralmente ficávamos nos perguntando como estaria Gertrudes no outro mundo?! O que andaria fazendo nossa amiga mentora e filósofa?
Estávamos sentadas na varanda, como de costume, e de repente um rapaz subiu a rua correndo e pulou nosso muro de um só salto. Seus pés pesados caíram sobre os rabos-de-gatos com um estrondo. No que pulou já se abaixou, para se esconder. Imediatamente, Irma se levantou da cadeira e foi para cima do garoto:
___Ah, isso não! Meu jardim não é esconderijo pra bandido! Saia já daí.
Irma agarrou o braço do rapaz com tanta força que ele obedeceu e a acompanhou sendo puxado pelo braço. Nisto, apareceram dois policiais também correndo rua acima. Irma saiu com o garoto pelo portão e foi direto para o meio da rua.
___Aqui, oh! Ele está aqui. Estava no meu jardim.
O rapaz ficou tão assustado e absorto com o comportamento de Irma, que não teve reação nenhuma; apenas entregou-se.
___Estava no meu jardim. Onde já se viu! Pulou no meu jardim. Merece uma surra.
___Pode deixar, dona! Vamos trancafiar ele. Tem cara de criança mas é de maior. Sabe muito bem o que tá fazendo.
___Um perigo! Queria se esconder em minha residência.
___Pode deixar. Vai ficar preso agora. – Disse o policial.
Os policiais trataram de algemar o rapaz e o empurraram consigo.
Creio que Irma se arrependeu de ter entregado o garoto. Ficou pensativa; justificava-se, dizendo que ele podia ter atacado uma de nós, e que além disso tinha pisado nos rabos-de-gatos. No fundo ela estava arrependida. Assim como o garoto, agira por impulso. Somente depois, Irma havia se dado conta de que o menino apanharia muito daqueles policiais. E que no mesmo dia estaria nas ruas, podendo até querer se vingar da casa das camélias. E da próxima vez ele não seria tão ingênuo ou pacífico. Cada vez que algo como este incidente acontecia, eu sentia um vazio; era a ausência da voz de Gertrudes, que certamente teria algo sábio a dizer. Algo completamente inesperado, pois sempre ela nos surpreendia com soluções e argumentos inusitados. Então era como se eu ouvisse a voz, mas não compreendesse as palavras. E por mais que eu me esforçasse em tentar imaginar o que Gertrudes faria ou diria, não era possível.
Depois da morte de Gertrudes, voltei a me preocupar com os filhos e netos, mas confesso não era a mesma preocupação de outrora. É como se eu não quisesse me envolver com os problemas de família. E obviamente não quero. Na verdade, não quero falar sobre eles. São muitos os problemas e a tensão é muito grande se formos realmente encarar as coisas. Cheguei à conclusão de que não podia ficar me preocupando com problemas de filhos e netos, pois minha parte eu já havia feito. Já havia criado quem eu tinha que criar. Dei carinho, educação... se não aprenderam o problema é deles. Claro que sempre tive uma palavra amiga, um ombro para oferecer; mas cheguei à conclusão de que não posso ficar grudada neles.
Pela janela do apartamento, eu vejo o lugar onde nasci. Vejo o horizonte azulado, a serra que ficava a oitenta quilômetros, com seu Morro do Arreio. O grande morro em forma de arreio, que mais se parece um sutiã. Quando éramos crianças sempre chegávamos perto deste morro, mas nunca chegamos ao seu sopé. É lá que começa a serra, onde o clima muda e o Paraná ficava mais frio e cheio de pinheiros. Ainda bem que posso ver a terra onde nasci. Olhando este horizonte pálido azulado, fico pensando sobre o que me causara aquela amizade. Eu fui presa, encarcerada, minha vida se transformou. Eu tenho alucinações psicóticas! Penso também se um dia vou voltar ao Paranapanema - ao “semelhante ao mar”, como na língua tupy-guarany - para ver Euzébio – o xucro entalhador. Eu não teria coragem de ficar sozinha com ele naquele rancho escuro. Naqueles momentos de espera e abandono na cadeia, acho que por vingança de Gertrudes, prometi para mim mesma que um dia eu voltaria a Jacareúba para ver o Euzébio. E promessa é dívida.
A verdade é que me acostumei ao confinamento. Saio para fazer compras, para ir ao banco, ao médico, mas quase não vejo Irma e a casa das camélias. Irma acha que eu estou com uma espécie de síndrome prisional. Em outras palavras, eu me acostumei a quatro paredes. É como se me sentisse mais segura estando presa. Digamos que é um desejo incontrolável de ficar longe do mundo. Não é a primeira vez que me isolo do mundo e de todos. Lembro-me de que quando era criança resolvi fugir para o alto do telhado. Ninguém podia imaginar que uma menina soubesse subir em telhados; mas eu sabia. Ficava lá foragida, distante de tudo e de todos, perto dos pardais e bem-te-vis. Meu maior prazer era saber que ninguém sabia de meu paradeiro. No fundo, eu queria que achassem que eu estava morta, ou que sentissem minha falta. Era muito triste constatar, às vezes, que ninguém havia notado a minha ausência. Se eu soubesse que podia escrever, permaneceria no telhado eternamente, apenas escrevendo. Talvez eu ainda estivesse no mesmo telhado de sempre, motivada pelas mesmas coisas.
Em breve, farei a leitura para as meninas da prisão. Espero que elas tenham ainda o mesmo gosto em me ouvir. Assim como a polícia, elas desconfiam que eu sou a própria Gertrudes. Quem me dera ser tão inteligente! Tão capaz e corajosa!
Acho que ninguém estranharia se uma hora ou outra eu fizesse as malas e partisse para o Paranapanema. E olha que estou prestes a ter um acesso de coragem e fúria e enfrentar o grande rio, o céu, o caminho de águas profundas e amedrontadoras que nem os índios se atrevem a encarar. De repente, posso ficar realmente louca, e rever o Euzébio em seu refúgio de eremita, enquanto Gertrudes estiver bem morta; e que bom que ela está morta! Eu posso espiar o Euzébio novamente pela janela e deixar que ele me conte casos e casos do mato, e que me fale de sua deusa Gertrudes.
2006

